Terça-feira, 31 de Janeiro de 2006

Síntese das teorias sobre a ciência de Karl Popper e de Thomas Kuhn

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A EVOLUÇÃO DA CIÊNCIA: CONTINUIDADE OU RUPTURA?

Luís RODRIGUES

Introdução à Filosofia, p. 247-250

Longa discussão tem sido travada sobre a perspectiva a adoptar para pensar e descrever a evolução das ciências. Trata-se, sobretudo, de determinar a relação de novos conhecimentos com os anteriores: os conhecimentos novos são do mesmo tipo que os anteriores e sua consequência natural (continuísmo)? Os novos conhecimentos rompem com os anteriores e exigem perspectivas radicalmente novas (descontinuísmo)?

1 O CONTINUÍSMO

1.1 A imagem continuísta e ingénua do desenvolvimento das ciências: o modelo linear e acumulativo Segundo a imagem continuísta e ingénua do desenvolvimento científico, imagem ainda reinante ao nível do senso comum, este é um processo linear e acumulativo: 

 Linear, porque se desenvolveria sempre na mesma direcção, "para a frente," isto é, a cientificidade dos conhecimentos seria estabelecida de uma vez por todas, pelo que não haveria necessidade de a eles retornar;

Acumulativo, porque os conhecimentos científicos apenas se acumulam, ou seja, os conhecimentos novos acrescentam-se aos anteriores sem os pôr em questão.

Esta imagem do desenvolvimento da ciência é solidária de algumas suposições que convém destacar:  o conhecimento científico é conhecimento verificado: isto é, conhecimento cuja validade foi estabelecida definitivamente. Ora, isso implica uma outra situação: — há um método científico e esse método é infalível, quer dizer, é sempre capaz de estabelecer a falsidade ou a verdade das hipóteses;  a ciência é obra de uma razão arquitectónica, isto é, de uma razão que parte de "fundamentos sólidos" e progride erguendo andar sobre andar, sem interrupções bruscas e sem necessidade de reconstruções;  o desenvolvimento da ciência é contínuo: as descobertas de um momento da ciência ligam-se directamente às precedentes, um nível de conhecimentos assenta directamente sobre o anterior;  a nossa aprendizagem, segundo manuais onde os conhecimentos são apresentados, tanto quanto possível, num movimento gradual, contínuo, do mais simples para o mais complexo, faz-nos supor que a história da sua invenção teria um ritmo semelhante;  na transmissão da ciência são eliminados os passos em falso, os erros, as hipóteses que vigoram durante algum tempo para depois serem eliminadas. A transmissão elimina os factores polémicos, os debates que acompanham todos os momentos da ciência  produzindo, portanto, a imagem de uma ciência que evolui com passos sempre seguros;

1.2  O continuísmo reflectido ou sofisticado: DUHEM

Hoje, verifica-se que a ingénua imagem continuísta do desenvolvimento científico deve ser abandonada. Foram sobretudo factos interiores ao próprio processo de desenvolvimento das ciências que abalaram profundamente esta imagem da evolução do saber. O continuísmo reflectido (por exemplo, P. Duhem) não assume a ciência como sendo isenta de erro e de correcções e nisso distingue-se do continuísmo ingénuo. Mantém-se continuísta no sentido em que faz assentar as descobertas de uma época da ciência não nas verdades do período anterior, como o continuísmo ingénuo, mas sim nas investigações e debates das épocas anteriores. No interior deste processo, os erros assumem um interesse particular e o exame crítico dos problemas por eles levantados constitui, com frequência, o elemento de continuidade, o elo de ligação entre uma e outra fase da ciência.

2  O DESCONTINUISMO

2.1  Descrição geral da perspectiva descontinuísta

Segundo os descontinuístas (por exemplo, Bachelard, A. Koyré, Popper), o desenvolvimento da ciência contém momentos de ruptura que separam nitidamente uma fase da outra, às vezes quase antagonizando-as. Essas rupturas dizem respeito sobretudo aos princípios gerais e não podem considerar-se preparadas por qualquer tipo de antecipação. Quando uma teoria, ou, se quisermos, um complexo de teorias ligadas pelo mesmo "paradigma", não consegue descrever os novos resultados experimentais, ou quando lhe descobrimos as contradições e as lacunas que se tornam insanáveis, então torna-se necessário inventar novas hipóteses que abrirão caminho a um tipo de investigação à partida imprevisível. Não há dúvida que uma tal visão descontinuísta se revela adequada a descrever algumas grandes revoluções científicas, como, por exemplo, a de Galileu, de Darwin, de Einstein, etc. Mas permanece o problema: que coisa levou Galileu, Darwin, Einstein a inventarem as suas novas hipóteses? Para responder a esta pergunta, ou se recorre às tentativas dos seus predecessores (nas suas linhas gerais ainda agarrados ao velho paradigma, mas já bem convencidos da necessidade de o superar) ou então se invoca uma intuição que, em boa verdade, é uma forma de dizer que não sabemos.

2.2  Duas perspectivas descontinuístas: Popper e Kuhn KARL POPPER

Em Popper, há um certo continuísmo. Ele sublinha que a sucessão das teorias constitui um progresso das ciências em direcção à verdade — a sua meta inalcançável. As teorias refutadas inserem-se nesse movimento de aproximação à verdade. Contra o descontinuísmo radical, afirma que "as nossas teorias são senso comum criticado e esclarecido". O elemento descontinuísta do pensamento de Popper reside no facto de ele não considerar que o progresso se faça por acumulação de conhecimentos — a relação entre velhas e novas teorias, entre a actualidade da ciência e o seu passado, é crítica. As novas teorias corrigem e/ou substituem as anteriores. O desenvolvimento da ciência é imprevisível, porque as teorias científicas são livres criações do sujeito: a referência aos antecedentes só pode esclarecer a situação do problema cuja solução exige um acto criativo que não se pode prever a partir dessa situação. Os progressos mais significativos das ciências constituem revoluções intelectuais e científicas. «Segundo Popper, na ciência nós procuramos a verdade — e a verdade não é dada pelos factos, mas pelas teorias que correspondem aos factos. Entretanto, essa é uma definição de verdade, mas nós não temos um critério de verdade, já que, ainda que formemos uma teoria verdadeira, jamais poderemos sabê-lo, pois as consequências de uma teoria são infinitas e nós não as podemos verificar todas. Sendo assim, segundo Popper, a verdade é um ideal regulador. Eliminando os erros das teorias anteriores e substituindo-as por teorias mais verosímeis, aproximamo-nos da verdade. Para Popper, é nisso que consiste o progresso da ciência — e, por exemplo, é assim que se passa, progredindo sempre para teorias mais verdadeiras, de Copérnico a Galileu, de Galileu a Keppler, de Keppler a Newton, de Newton a Einstein. Com isso, porém, não devemos pensar que exista uma lei de progresso da ciência, pois a ciência também pode estagnar. O progresso da ciência conheceu obstáculos (epistemológicos, ideológicos, económicos, etc.) e talvez venha a conhecê-los. Não existe lei do progresso na ciência. Este faz-se por meio de "revoluções intelectuais e científicas", estas "são introduzidas a partir de falsificações bem sucedidas. ...As teorias não são resultado directo das refutações; foram realizações do pensamento criativo, do homem pensante ". Popper diz que temos um critério de progresso: uma teoria pode aproximar-se mais da verdade do que outra. Saliente-se que a ideia de "aproximação à verdade" nada tem em comum com a ideia de acréscimo gradual de pormenores na teoria que a deixariam, no essencial, igual a si mesma. As teorias refutadas integram o processo de aproximação à verdade por terem provocado a criação de teorias melhores: "A afirmação de que a Terra está em repouso e que os céus giram à volta dela está mais longe da verdade do que a afirmação de que a Terra gira em torno do seu próprio eixo, de que é o Sol que está em repouso e os outros planetas se movem em órbitas circulares à volta do Sol (tal como foi avançado por Copérnico e Galileu). A afirmação, que se deve a Keppler, de que os planetas não se movem em círculos, mas sim em elipses (não muito alongadas) com o Sol no seu foco comum (e com o Sol em repouso ou em rotação à volta do seu eixo) é mais uma aproximação à verdade. A afirmação (que se deve a Newton) de que existe um espaço em repouso, mas que, excluindo a rotação, a sua posição não se pode encontrar através da observação das estrelas ou dos efeitos mecânicos é mais um passo em direcção à verdade."» G. Reale, D. Antisieri, História da Filosofia, III, EP, p.p. 1042-1046

THOMAS KUHN

A reflexão de Kuhn sobre a natureza da actividade científica articula-se em três conceitos fundamentais: os conceitos de "paradigma", "ciência normal" e "ciência extraordinária".

a) Paradigma

Numa determinada época do desenvolvimento da ciência, as investigações científicas são orientadas e estruturadas por um paradigma, isto é, por uma visão do mundo (Weltanschaung), que, sendo geral, inclui não só a teoria científica dominante como também princípios filosóficos, uma determinada concepção metodológica, leis e procedimentos técnicos padronizados para resolver problemas. Assim, o paradigma científico dominante no século XVII, a teoria de Newton, tinha como pressuposto uma representação filosófica da natureza (fundava-se na concepção antiteleológica do mundo natural, concebendo-o como um sistema mecânico regido pelo jogo de forças), apoiava-se nas leis do movimento formuladas pelo próprio Newton, na adopção de uma determinada metodologia (matematização da física) e na opção por determinadas técnicas de observação e de experimentação. A constituição de um paradigma instaura a comunidade dos sábios (para Kuhn, a ciência é obra de comunidades científicas e não de génios isolados) e define não só o meio de solucionar os problemas como também os problemas que convém resolver.

b) A ciência normal e a ciência extraordinária

No período da ciência normal, a comunidade científica trabalha a partir do paradigma estabelecido. Procede investigando fenómenos ainda não explicados com o objectivo de os enquadrar na teoria dominante e de resolver pequenas ambiguidades teóricas. No período da ciência normal — cujo desenvolvimento é contínuo — o cientista, uma vez que a sua preocupação essencial é a de, ao resolver problemas, estender o campo de aplicação do paradigma, abstém-se, quanto ao que é fundamental, de criticar este. Reina o acordo geral e a investigação desenvolve-se no interior do paradigma. E quando um facto coloca um problema recalcitrante, que resiste ao enquadramento na teoria consensualmente em vigor é, geralmente, descartado como "anomalia", para não ameaçar o consenso no interior da comunidade científica. Contudo, a acumulação de anomalias, isto é, de casos problemáticos que o paradigma não resolve, acaba por dar origem a períodos de crise [um paradigma, dada a sua generalidade e complexidade, é sempre suficientemente impreciso para que se tornem possíveis estas "crises"]: as "anomalias", ameaçando o paradigma nos seus próprios fundamentos, são momentos críticos — pense-se na crise da física determinista desde 1924 — porque o consenso dá lugar à divisão, à formação de grupos que procuram outras teorias e outros fundamentos. A este período crítico dá Kuhn o nome de ciência extraordinária.

c) Revolução científica

O momento de crise — que pode ser longo — só encontra o seu termo quando um novo paradigma é adoptado. Como todo o paradigma representa um modo geral de interpretar o mundo e não um simples conjunto de soluções parciais ou regionais, ele corresponde a uma revolução científica e exige uma espécie de conversão mental por parte de quem o adopta. Estabelecido o paradigma, segue-se um novo período de ciência normal. Os cientistas irão aprofundar teoricamente o novo paradigma, resolver os problemas de acordo com ele, i. e., com os novos modos de solução assimilados, evitando pôr em causa esse modelo [por isso, dirá Kuhn, a comunidade científica não é dirigida pelo ideal de verdade]. As revoluções científicas não são muito frequentes: acontecem de vez em quando, o que denota uma certa resistência dos cientistas à mudança. A que se deve o triunfo de um novo paradigma? «O triunfo de um novo paradigma pode dever-se a uma grande variedade de factores: a sua capacidade para explicar factos polémicos persistentes, a sua utilidade na resolução de problemas e realização de previsões adequadas e, em não menor medida, a aura e o prestígio dos cientistas que inventam uma nova teoria e a defendem. O prestígio pessoal de um cientista", diz Kuhn "é muitas vezes considerado como sendo o resultado ou a prova de um excepcional engenho e inteligência. Mas pode também dever-se ao facto de ter apoios e amizades influentes no mundo das finanças e da política. Para que uma nova teoria se imponha, o seu inventor deve ter uma posição relativamente elevada na hierarquia universitária e facilidade no acesso a financiamento para a investigação." Jenny Teichman e Katherine Evans, Philosophy: a Beginner's Guide, Blackweel, p. 146 Deste modo, a mudança de paradigma não obedece a critérios simplesmente racionais e científicos (não é somente a sua eficácia teórica e técnica, a capacidade de resolver mais problemas que os paradigmas "rivais", que conta).

A grande diferença entre Kuhn e Popper reside no facto de a mudança de paradigma não ser obra de uma racionalidade crítica: ao mudar o paradigma, substituem-se teorias, meios, hábitos de trabalho e também os objectivos — adoptam-se práticas distintas que não são alinháveis segundo o esquema da "aproximação à verdade" de Popper.

 

No texto Carácter cumulativo da ciência J. R. Oppenheimer defende o continuísmo.

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Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2004

Resposta a: onde se inserem Popper, Foucault e Kuhn?

PERGUNTA: Recebi o seguinte mail de uma aluna do curso:
"Professor Neves Quem lhe escreve é ______, aluna do 1º ano de sociologia. A minha questão é a seguinte: - entre as fotocópias para a disciplina encontrei três textos que me intrigaram. São eles: "A demarcação entre ciência e metafísica" de Karl Popper, "As palavras e as coisas" de Michel Foucault e ainda "A estrutura das revoluções científicas" de Thomas Kuhn. O que gostaria de saber é onde especificamente se inserem estes textos na matéria. Fico à espera da sua resposta para o mail: __________ Obrigada. --

RESPOSTA: 1 - O primeiro ("A demarcação entre ciência e metafísica" de Karl Popper) insere-se na corrente mais conhecida por racionalismo crítico que defende a ideia de que a Ciência deve acima de tudo partir de hipóteses e conservar essa abertura para evitar o dogmatismo indutivista ou apriorístico. Situa-se numa zona intermédia no esquema de Rorty: entre os que defendem que a verdade é descoberta e os que falam de uma ciência como construção ("a verdade é feita"); 2- o segundo, "As palavras e as coisas" de Michel Foucault, remete para a crítica construtivista defendida por alguns filósofos e "poetas" — aqueles que, segundo Rorty, defendem a tese de que "a verdade é construída, feita"; 3 - Por fim, "A estrutura das revoluções científicas" de Thomas Kuhn, remete para uma posição semelhante à de Foucault mas com origens diversas. Enquanto que Foucault alinha com filósofos como Nietzsche, etc., Kuhn, por seu lado, vem da própria prática científica (é doutorado em Física) chegando, contudo, através da história da prática científica, a conclusões próximas desses autores. Situa-se, embora de uma forma não muito clara, dentro da posição dos que defendem o carácter construído da ciência ("a verdade é feita").
Espero ter ajudado.
José Pinheiro Neves
jpneves2004@yahoo.com.br

Sábado, 6 de Dezembro de 2003

Texto para o Teste do 1º Semeste em Fev. de 2004

Texto a ser utilizado no Teste do 1º Semeste


Jornal "PÚBLICO"
SUPLEMENTO
Mil Folhas
Sábado, 06 de Dezembro de 2003
"Rumores da Morte da Ciência "
Desidério Murcho

Jorge Dias de Deus, autor de "Viagens no Espaço-Tempo" e "Ciência, Curiosidade e Maldição" (Gradiva), apresenta neste livro uma contribuição para o debate sobre as ciências motivado pelas ideias do sociólogo Boaventura Sousa Santos. O livro divide-se em duas partes, dedicadas à crítica da ciência e à sua negação. O autor defende que a crítica da ciência é importante e bem-vinda, mas radicalmente diferente da negação da ciência. Por "negação da ciência" entende-se o tipo de relativismo cognitivo ou epistemológico que Boaventura Sousa Santos e muitos outros autores defendem (ou defenderam, dado que o sociólogo parece aceitar agora que este relativismo é insustentável e até incompatível com os seus ideais políticos e sociais). Do ponto de vista deste relativismo, não há qualquer diferença radical entre a física, por exemplo, e a alquimia ou a astrologia: em ambos os casos, trata-se de práticas sociais que "inventam mundos".

Este debate intelectual, a que tem sido dado o nome absurdo de "Guerra das Ciências", é importante e que merece a nossa melhor atenção. Michael Ruse (autor de "O Mistério de Todos os Mistérios", Quasi) queixava-se há pouco tempo (na revista "American Scientist"), da incapacidade de Richard Dawkins para sair do discurso irónico e cheio de retórica vácua quando se trata de enfrentar este debate. E esta crítica é extensível a muitos cientistas - mas não a Jorge Dias de Deus. Com uma honestidade extraordinária, o autor procura ir ao encontro dos críticos da ciência, colhendo neles o que neles encontra de valor e procurando mostrar por que razão pensa que noutros aspectos tais críticos não têm razão. É verdade que o livro teria ganho com um maior conhecimento da bibliografia relevante - Michael Ruse, Susan Haack, Philip Kitcher, entre muitos outros filósofos - mas os cientistas têm tendência para ignorar a filosofia, considerando-a uma espécie de pré-história da Ciência. Ao procurar ir ao encontro dos críticos da ciência, o autor acaba por conceder mais do que é razoável conceder, pelo menos sem uma discussão cuidada. Por exemplo, o autor usa constantemente o termo "paradigma", sem explicar exactamente o que quer dizer com esta palavra. Por vezes, parece usar a palavra no sentido corrente de modelo ou ideal; outras vezes, parece usar o termo no sentido de Kuhn, aceitando sem discussão as teorias deste filósofo. E este é que é o problema.

O que provoca por vezes discussões azedas no que respeita à Guerra das Ciências é a acusação dirigida aos defensores do relativismo cognitivo de desonestidade intelectual - é esta a ideia central do livro de Sokal e Bricmont, "Imposturas Intelectuais" (Gradiva). Os relativistas cognitivos acusam por sua vez os cientistas de desonestidade intelectual - e o debate perde interesse, deslocando-se da universidade para a peixaria (ou para o parlamento, já agora). Curiosamente, o verdadeiro problema que precisa de ser discutido é o papel da crítica na vida intelectual e os processos de controlo de erros. É por isso que o prefácio de Jorge Buescu a "O Mistério do Bilhete de Identidade" (Gradiva) vale por mil discussões sobre a Guerra das Ciências. Porque neste prefácio o autor explica o que caracteriza a ciência: a crítica constante (o que implica a recusa da tradição e da autoridade como argumentos últimos) e o controlo sistemático de erros (o que implica "blind refereeing" e, uma vez mais, abertura à crítica). Quando se vê as coisas deste modo a diferença entre física e astrologia torna-se evidente: ao contrário do que acontece no primeiro caso, não há no segundo qualquer abertura à crítica, tudo depende da interpretação de textos "sagrados" que não podem ser colocados em causa, e não há a prática generalizada de tentar encontrar erros nos trabalhos dos colegas.

O respeito pela argumentação e pelas provas, em substituição da tradição e da autoridade, foi introduzido pelos gregos antigos no séc. V a.C. Nas fontes gregas vemos sistematicamente os autores a criticar-se mutuamente, distanciando-se do que consideram erros, explicando por que razão são erros, argumentando e apresentando provas. Nos textos de outras civilizações nunca encontramos tal coisa, segundo G.E.R. Lloyd ("The Revolutions of Wisdom", University of California Press). E isto é que marca a diferença entre a ciência e a bruxaria. Mas isto é igualmente o que marca a diferença entre qualquer prática académica séria (história ou química, filosofia ou física) e os usos ideológicos da academia ou as práticas pseudo-académicas, como a astrologia, a bruxaria, a alquimia, etc.

Tentando ir ao encontro dos críticos da ciência, Jorge Dias de Deus aceita, aparentemente, as ideias de Kuhn. Mas o problema é precisamente que, nos círculos relativistas, as ideias de Kuhn têm o estatuto de Verdade Revelada. Talvez Kuhn até tenha razão, mas não se pode ter a ingenuidade de pensar que as suas ideias estão firmemente estabelecidas nem que não há poderosos argumentos contra elas. É por isso que as acusações de desonestidade intelectual fazem sentido: em alguns casos, os críticos da ciência ignoram os argumentos e provas contrários às suas ideias preferidas, e escondem-se na citação e referência dogmática aos autores com os quais concordam, repetindo-se expressões análogas a "Como dizia Kuhn...". Acontece que Kuhn dizia e Popper negava e Haack nega os dois e não há maneira de fugir do trabalho académico sério: a análise cuidadosa, paciente e tão conscienciosa quanto possível das razões a favor e contra tais ideias. Este é o espírito crítico que nasceu com a filosofia e se tornou a alma da academia moderna - mas que tarda a tornar-se prática corrente em Portugal.

Quase no fim do livro, o autor argumenta contra a ideia de que a relatividade de Einstein, a incerteza de Heisenberg e o teorema da incompletude de Gödel provocaram uma crise na ciência. Esta ideia é cara aos relativistas cognitivos, mas resulta de confusões e desconhecimento. À relatividade de Einstein pode-se chamar "teoria das invariâncias", pois não se trata de dizer que "tudo é relativo" mas antes que algumas coisas não são relativas (como a velocidade da luz). O princípio da incerteza de Heisenberg não coloca em causa o determinismo nem declara que a realidade é uma construção social ou do observador - se o fosse, ninguém teria aceitado a teoria quântica, que levanta problemas de integração com a restante física. O teorema de Gödel não mostrou que não há verdades. O que mostrou, pelo contrário, foi que as teorias formalistas e construtivistas em matemática são falsas ou pelo menos muitíssimo implausíveis: quem pensa que a ciência é uma mera construção social tem no teorema da incompletude de Gödel um poderoso inimigo.

Como Mark Twain afirmou quando circularam notícias da sua morte, a notícia da Morte da Ciência (e da Morte da Filosofia e da Razão) foi um pouco exagerada. E num mundo em que tantos irracionalismos provocam mortes e sofrimento diários, professar o relativismo cognitivo é socialmente irresponsável - apesar de dar muito lucro e poder.

Da Crítica da Ciência à Negação da Ciência
AUTOR Jorge Dias de Deus
EDITOR Gradiva 119 págs., 9,50 euros
(c) 2000 PÚBLICO Comunicação Social, SA

Docente responsável pela leccionação: José Pinheiro Neves email: jpneves2004@yahoo.com.br

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