Terça-feira, 29 de Novembro de 2005

Resumo da aula teórica nº 8 de 29 de Novembro de 2005

Universidade do Minho


Curso de Sociologia – 1ºano - Metodologia das ciências sociais – Docente: José Pinheiro Neves


Resumo da aula teórica de 29 de Novembro de 2005


(3ªs, 14h – 16h – A3 – Comp. 1).


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•     Nesta aula, iremos deixar para trás  os debates sobre a ciência (Primeira parte do programa) entrando no debate em torno duma questão simples que pode ter quatro respostas: como é que os sociólogos definem a ciência social? Ou seja, entramos na segunda parte do programa.


(Deixamos em suspenso uma outra divisão que atravessa a sociologia: a natureza da sociedade - integração/conflito).


Nesta segunda parte iremos encontrar quatro respostas principais. Nesta aula, farei um resumo dessas soluções que serão aprofundadas nas aulas até Março de 2006.


•      1 – A ciência social é um prolongamento da ciência empírica surgida com Newton nos séculos XVII-XVIII – Durkheim e Marx.


•      2 – A ciência social caracteriza-se por ser de um tipo especial adoptando em parte esse modelo da ciência empírica e sendo, por outro lado, subjectiva – Weber, Simmel (parcialmente), Giddens e Bourdieu.


•      3 – A ciência social é totalmente diferente da ciência exacta implicando um conhecimento de tipo fenomenológico - Schütz.


•      4 – Por fim, uma resposta, baseada na sociologia do conhecimento científico, que diz que o problema está mal colocado nas duas últimas respostas. Não se trata de pensar em termos de oposição ou dualismo epistemológico. A natureza do conhecimento nas ciências sociais é semelhante à das ciências exactas [Simmel, Gabriel Tarde, Michel Foucault e Bruno Latour].


 


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1 – A ciência social é um prolongamento da ciência empírica surgida com Newton nos séculos XVII-XVIII – Durkheim e Marx.


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•     Durkheim propõe uma solução clara: para evitar que a sociologia se transforme numa filosofia especulativa, é necessário encarar os fenómenos sociais como se fossem estrelas.


 


•     E aplicou esta estratégia a um fenómeno extremamente subjectivo: o suicídio. Encarou esse fenómeno da mesma forma que um astrónomo olha para as estrelas. Procurou descobrir regularidades/concomitâncias, leis.


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2 – A ciência social caracteriza-se por ser de um tipo especial adoptando, em parte, o modelo da ciência empírica e sendo, por outro lado, subjectiva – Weber, Simmel (parcialmente), Giddens e Bourdieu.


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O pensamento de Max Weber só pode ser entendido como uma das vozes emergentes, bastante original, no debate filosófico na Alemanha em finais do século XIX, que era atravessado pelo seguinte dilema:


de um lado, os defendiam ser a história e os processos sociais explicados por regularidades nomotéticas que permitiam uma análise científica;


do outro, os que pensavam a história e os fenómenos sociais como uma adição de fenómenos únicos e individualizados (a opção ideográfica).


 


Weber, inspirado em Kant, sugere-nos o ideal-tipo como solução para o debate entre uma ciência social individualista e particular (na linha duma história descritiva) e uma ciência social positivista demasiado nomotética, preocupada, na linha por exemplo do marxismo, em descobrir leis gerais científicas.


  


•    Para Weber, a solução passaria pela formulação de tipologias ideais que funcionariam simultaneamente como elementos com carácter nomotético, sendo por isso aplicáveis a múltiplas situações concretas. Também teria características ideográficas, pois seria uma tipologia baseada em situações históricas, em espaços de tempo determinados.


 •     Aparentemente, esta solução corresponde a uma tentativa de Weber para dar uma resposta satisfatória a um debate que atravessava a filosofia e, naturalmente, a sociologia alemã. Simmel e Schütz, mais tarde, tornarão mais clara esta hesitação weberiana.


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•    3 – A ciência social é totalmente diferente da ciência exacta implicando um conhecimento de tipo fenomenológico – Alfred Schütz.


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•     Schütz procura, em áreas próximas da sociologia, nomeadamente na filosofia, resposta aos problemas levantados por Weber.


•     Por um lado, em Husserl ( a ideia de consciência) e, por outro, em Henri Bergson (tempo-fluxo e memória). 


 


a) •       A Husserl, vai buscar o conceito de consciência, na linha de uma filosofia fenomenológica.


 


O ponto de partida de Husserl é a consciência humana, nomeadamente a procura da essência dessa consciência, aquilo que ele designa pelo ego transcendental (Ritzer, 1993: 367-368). Esta palavra transcendental não se inspira no conceito metafísico ou mentalista de consciência.


"Para ele, a consciência não é uma coisa nem um lugar, mas sim um processo. A consciência não se encontra na cabeça do actor, mas sim na relação entre o actor e os objectos do mundo" (Ibid.: 368).


Estamos, portanto, perante uma consciência entendida como algo relacional que produz a significação dos objectos do mundo.


Esta orientação geral levou os fenomenólogos a, em primeiro lugar, adoptarem descrições dos processos sociais tal como são experimentados pelos seres humanos. E, em segundo lugar, a opor-se a um intuicionismo vago, afirmando a possibilidade de um estudo rigoroso das estruturas básicas da consciência (Ibid.: 368-369)


 


 Esta opção implica a necessidade de ultrapassar a visão natural dos actores, através de uma espécie de desconexão, ou o que Husserl designava por redução fenomenológica, para, mais tarde, descobrir os aspectos fundamentais da consciência, as suas propriedades invariantes (Ibid.: 369). Estes dois pontos de partida – consciência humana como processo e estudo rigoroso da estrutura da consciência – constituem os pontos de consenso entre Schütz e Husserl.


 


b) •      Em segundo lugar, inspira-se também (e parece-me de uma forma mais decisiva) em Bergson ao propor um estudo do social a partir da sua noção de duração  [tempo-fluxo] e memória.


 


Numa leitura rápida de obra de Schütz, o conceito bergsoniano de duração, que surge logo no início da sua obra, poderá não assumir uma grande importância.  


 



Schütz coloca o problema da significação como dependente deste fluxo, da duração qualitativa do tempo.


O salto que vai da vivência do fluxo à significação não é um caminho fácil de ultrapassar. Pelo contrário, transforma-se no eixo central de toda a reflexão de Schütz.


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•    4 – Por fim, uma resposta, baseada na sociologia do conhecimento científico, que diz que o problema está mal colocado.


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Não se trata de pensar em termos de oposição ou dualismo epistemológico. A natureza do conhecimento nas ciências sociais é semelhante à das ciências exactas [Simmel, Gabriel Tarde, Michel Foucault e Bruno Latour].


 


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Bibliografia fundamental


 


•    Ritzer, George (1993), Teoría Sociológica Clásica, Madrid, McGraw-Hill.

Terça-feira, 22 de Novembro de 2005

Resumo da aula teórica nº 7 de 23 de Novembro de 2005

 kuhn.jpg

Universidade do Minho
1º Ano do Curso de Sociologia - 2005/06
Metodologia

Resumo da aula teórica de 23 de Novembro de 2005

(aaulas prática de 23 passama ser teórica)

A doutrina das "revoluções científicas" de Thomas Kuhn e a crítica à tradição empirista e incrementalista.

A relativização do progresso científico em virtude da ausência de critérios universais de evidência. A crítica a Popper.

 A concepção sociológica das teorias científicas: a teoria dos "paradigmas“ como uma sociologia do acto científico.


Sumário

1 - Síntese da tese de Thomas S. Kuhn
2 - Breve biografia
e resumo da sua principal obra “Estrutura das revoluções científicas”
3 - Como surgiu a ideia de “paradigma” e qual a sua importância. O paradigma como um “vírus” e não como algo totalmente positivo.
4 – Conclusão: da visão essencialista da ciência em Popper à sociologia do acto científico em Kuhn


1 – Síntese da tese de Thomas S. Kuhn

O estudo histórico de Kuhn (doutorado em física teórica) acerca das práticas dos cientistas na área das ciências exactas (particularmente na Física) implica uma mudança na forma como se define ciência.


2 – Breve biografia e síntese da sua obra principal “A estrutura das revolução científicas”

Thomas Samuel Kuhn (1922-1996)

Historiador e filósofo da ciência norte-americano, conhecido pela sua contribuição para a mudança de orientação na filosofia e  sociologia da ciência na década de 1960.

Nasceu en Cincinnati, Ohio, e doutorou-se […] pela Universidade de Harvard en Física Teórica em 1949. Centrou os seus estudos na história e  filosofía da ciência, que ensinaria em  Harvard, Berkeley, Princeton e em Massachusetts.




“
La estructura de las revoluciones científicas”

 “
En 1962, Kuhn publicou A estrutura das revoluções científicas, onde expunha a evolução das ciências naturais básicas de um modo que se diferenciava de forma sustancial da visão mais generalizada naquela época.

Segundo Kuhn, as ciências não progridem seguindo um processo uniforme pela aplicação de un hipotético método científico. Verificam-se, pelo contrário, duas fases diferentes de desenvolvimento científico.
 





Num primeiro momento, há un amplo consenso na comunidade científica sobre como explorar os avanços conseguidos no pasado perante os problemas existentes, criando-se assim soluções universais que Kuhn chamava de «paradigmas».






Num segundo momento, busca-se novas teorias e ferramentas de investigação conforme as anteriores deixam de funcionar com eficácia. Se se demonstra que uma teoria é superior às existentes então ela é aceite e produz-se uma «revolução científica».

Tais rupturas revolucionárias trazem consigo uma mudança de conceitos científicos, problemas, soluções e métodos, ou seja, novos «paradigmas».





Embora
estas mudanças paradigmáticas nunca sejam totais, fazem que o desenvolvimento nesses pontos de confluência seja algo de descontínuo; se diz-se que a vilha teoria e a  nova são incomensuráveis uma em relação à outra. Tal incomensurabilidade implica que a comparação das duas teorias é mais complicada que a simples confrontação de previsões contraditórias.



O livro de Kuhn provocou uma discussão polémica em numerosas disciplinas e exerceu uma enorme influência.
Em resposta às críticas, corrigiu e ampliou a sua teoria indicando que toda a ciência se perfila ao largo do tiempo com as contribuições da comunidade científica que contribui não só com novos conhecimentos acumulativos, mas também com mudanças qualitativas, novas mudanças de perspectiva, com a criação de novos paradigmas que abrem novos horizontes à ciência, concebida, portanto, como algo aberto e em evolução.
Faleceu em 1996”.

Biografia de Thomas Samuel Kuhn extraída de:
 
http://buscabiografias.com/cgi-bin/verbio.cgi?id=2893 

Tradução do espanhol de José Pinheiro Neves



2. Como surgiu o conceito de paradigma?

Segundo Manuel Carrilho, "a originalidade da abordagem de T. S. Kuhn decorre sem dúvida fundamentalmente da sua incidência sobre a especificidade da actividade científica; mas também de considerar a ciência como uma actividade localizada, uma vez que é nas comunidades científicas, e só nelas, que se faz ciência.” (Carrilho, 1989: 39)
Este ponto pode parecer evidente para nós. No entanto, é uma espécie de revolução coperniciana no estudo da ciência.



A origem do interesse de Kuhn assenta no espanto, na descoberta de algo que abala o evidente.
Como ele afirma, o estudo histórico “das teorias e práticas científicas antiquadas minou radicalmente algumas das minhas concepções básicas a respeito da natureza da ciência e das razões de seu sucesso incomum” (Kuhn, 1992: 9).
 


E este minar teve duas fontes:
o estudo do que se passava, na prática, entre os cientistas quando faziam ciência (no seu caso utilizou também a sua ligação anterior com a Física teórica, tal como um indígena que estuda a sua própria tribo);

e alguns escritos filosóficos, psicológicos e sociológicos que lhe permitiram dar um sentido às suas descobertas (do ponto de vista Filosófico são de salientar as contribuições de L. Wittgenstein (jogos de linguagem) (p. 69), B. L. Worph (linguagem e pensamento) e de W. V. O. Quine (distinção analítico-sintética); do ponto de vista psicológico os trabalhos sobre as fases da inteligência na criança de Jean Piaget (a génese das noções de causalidade, movimento e velocidade na criança) e, por fim, a necessidade de colocar as suas questões no âmbito de uma Sociologia da Comunidade Científica (Kuhn, 1992: 11).

 


“Ainda mais importante foi passar o ano numa comunidade composta predominantemente de cientistas sociais. Esse contacto confrontou-me com problemas que não antecipara, relativos às diferenças entre essas comunidades e as dos cientistas ligados às ciências naturais, entre as quais eu fora treinado. Fiquei especialmente impressionado com o número e a extensão dos desacordos expressos existentes entre os cientistas sociais no que diz respeito à natureza dos métodos e problemas científicos legítimos.” (Kuhn, 1992: 12-13).


Mas esta observação não o leva a emitir um juízo valorativo. Antes pelo contrário. “Tanto a História como meus conhecimentos fizeram-me duvidar de que os praticantes das ciências naturais possuam respostas mais firmes ou mais permanentes para tais questões do que os seus colegas das ciências sociais. E contudo, de algum modo, a prática da Astronomia, da Física, da Química ou da Biologia normalmente não evocam as controvérsias sobre os fundamentos que actualmente parecem endémicas entre, por exemplo, psicólogos e sociólogos” (Sublinhados da minha autoria, Kuhn, 1992: 13).
 E será exactamente esta diferença que leva Kuhn a sugerir o paradigma. “A tentativa de descobrir a fonte dessa diferença levou-me ao reconhecimento do papel desempenhado na pesquisa científica por aquilo que, desde então, chamo de “paradigmas”” (Kuhn, 1992: 13).




Mas aqui o que importa salientar é que Kuhn não parte nem da Filosofia baseada em “a prioris” teóricos, nem de uma grande narrativa histórica do progresso das ciências.

Tratou-se de uma observação atenta do que se passava.



Kuhn avança com uma primeira definição de “paradigma” no início do livro:
“Considero “paradigma” as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” 
(Kuhn, 1992: 13).




Esta á a primeira de muitas definições em que se “mistura” um pouco o que os cientistas fazem e o seu contexto.

De tal forma que se sente que Kuhn hesita entre uma aproximação onde predomina a questão “cognitiva” e uma outra em que o contexto predomina (sociológica).

Parece-me interessante referir que Kuhn tem consciência desta tensão visto que a refere no posfácio.







Vejamos, antes de avançarmos na definição kuhniana posterior (no posfácio), a etimologia da palavra “paradigma”.

Esta palavra vem do “grego parádeigma, ‘modelo, exemplo; plano de arquitecto, modelo de pintor ou de escultor; em referência a coisas abstractas, modelo, exemplo’, pelo latim paradigma, ‘exemplo, comparação; em gramática, paradigma’”.

(José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Quarto volume, 3ª Ed., Lisboa, Livros Horizonte, 1977, p. 300 )



 
A partir desta etimologia verificamos que “paradigma” funciona como exemplo na linha das artes visuais.

Mas a acentuação básica da palavra é a de modelo, de exemplo a partir do campo visual.




O próprio Kuhn reconhece que parte desta primeira filiação semântica quando diz que as suas teses acerca do “ desenvolvimento científico como uma sucessão de períodos ligados à tradição e pontuados por rupturas não-cumulativas [...] foram tomadas de empréstimo a outras áreas.
 
Historiadores da Literatura, da Música, das Artes, do Desenvolvimento Político e de muitas outras actividades humanas descrevem os seus objectos  de estudo dessa maneira desde há muito tempo.
 
  
 




A periodização em termos de rupturas revolucionárias em estilo, gosto e na estrutura institucional têm estado entre seus instrumentos habituais.
 
Se tive uma atitude original frente a esses conceitos, isso se deve sobretudo ao facto de tê-los aplicado às ciências, áreas que geralmente foram consideradas como dotadas de um desenvolvimento peculiar .






Pode-se conceber a noção de paradigma como uma realização concreta, como um  exemplar, a segunda contribuição deste livro. Suspeito, por exemplo, de algumas das dificuldades notórias envolvendo a noção de estilo nas Artes poderiam desvanecer-se se as pinturas pudessem ser vistas como modeladas umas nas outras, em lugar de produzidas em conformidade com alguns cânones abstractos de estilo.” (Kuhn, 1992: 256) 


Voltando ao texto de Kuhn, iremos agora ver até que ponto a definição de paradigma nos é útil na resposta à nossa questão inicial. Para isso, iremos seguir de perto o posfácio ao seu livro de 1961, escrito em 1969 (Kuhn, 1992: 217-257).



Kuhn começa por levantar uma dificuldade-chave em torno do conceito paradigma. A questão que ele levanta pode ser resumida assim:
o paradigma não se confunde com uma sociologia da comunidade científica. Ou seja, a estrutura comunitária da ciência é algo que ultrapassa a questão do paradigma.
“Uma comunidade científica é formada pelos praticantes de uma especialidade científica. Estes foram submetidos a uma iniciação profissional e a uma educação similares, numa extensão sem paralelos na maioria de outras disciplinas” (Kuhn, 1992:
220).



 
Este primeiro aspecto comunitário ultrapassa a questão dos paradigmas.

Kuhn desenvolve dois temas em torno deste problema comunitário:

a transição do período pré-paradigmático para o pós-paradigmático

e a identificação biunívoca entre comunidades científicas e objectos de estudo científico.
 



No primeiro tema, ele refere-se explicitamente às ciências sociais dizendo que a natureza dessa transição à maturidade interessa especialmente às ciências sociais, visto que, a passagem à maturidade muda a natureza do paradigma.
Não se trata de dizer que não existem paradigmas nas ciências sociais, mas sim que a natureza destes é diferente do das ciências exactas.
 Somente depois da transição, “ é possível a pesquisa normal orientada para a solução de quebra-cabeças” (Kuhn, 1992: 223).  




Contudo, para Kuhn, não se trata de uma perda negativa das ciências sociais já que “algo importante é sacrificado nessa mudança”(Kuhn, 1992: 223).

Para entender esta frase enigmática de Kuhn (o que é que de importante é sacrificado?) teremos de nos referir a outras partes do livro quando surge implícita uma crítica a esta possibilidade de fazer ciência.

 
Na minha opinião, Kuhn opera uma desmontagem da actividade científica ao caracterizá-la, na linha de Wittgenstein, como comunidades de linguagem (Kuhn, 1992: 248) onde a noção de verdade, de uma grande narrativa do progresso científico não tem cabimento.

 




 
E avança mais: “a noção de um ajuste entre a ontologia de uma teoria e sua contrapartida “real” na natureza parece-me ilusória por princípio. Além disso, como um historiador, estou impressionado com a falta de plausibilidade dessa concepção.
Não tenho dúvidas, por exemplo, de que a Mecânica de Newton aperfeiçoou a de Aristóteles e de que a Mecânica de Einstein aperfeiçoou a de Newton enquanto instrumento para a resolução de quebra-cabeças. Mas não percebo, nessa sucessão, uma direcção coerente de desenvolvimento ontológico.
 



Ao contrário: em alguns aspectos importantes, embora de maneira alguma em todos, a Teoria Geral da Relatividade de Einstein está mais próxima da teoria de Aristóteles do que qualquer uma das duas está da de Newton.

Embora a tentação de descrever essa posição como relativista seja compreensível a descrição parece-me equivocada. Inversamente, se esta posição é relativista, não vejo por que falte ao relativista qualquer coisa necessária para a explicação da natureza e do desenvolvimento das ciências” (Kuhn, 1992: 253).







Em seguida Kuhn, avança com uma definição mais precisa de paradigma. De facto, ele separa dois sentidos diferentes do termo “paradigma”:
 
1 “De um lado, indica toda
a constelação de crenças, valores, técnicas, etc..., partilhadas pelos membros de uma comunidade determinada.

2 -
De outro, denota um tipo de elemento dessa constelação: as soluções concretas de quebra-cabeças que, empregadas como modelos ou exemplos, podem substituir regras explícitas como base para a solução dos restantes quebra-cabeças da ciência normal.
 
O primeiro sentido do termo, que chamaremos de sociológico, é o objecto do item 2;
o item 3 é devotado aos paradigmas enquanto realizações passadas dotadas de natureza exemplar” (Kuhn, 1992: 218). 
 



Começando pelo sentido mais sociológico, Kuhn sugere que o termo paradigma não é o mais apropriado, pois surge muito ligado à ideia de teoria ou conjunto de teorias com uma amplitude limitada.

Para evitar confusões, Kuhn substitui o termo paradigma por matriz disciplinar com o objectivo de acentuar o carácter grupal e socializador: "disciplinar porque se refere a uma posse comum aos participantes de uma disciplina particular; matriz porque é composta de elementos ordenados de várias espécies, cada um deles exigindo uma determinação mais pormenorizada." (Kuhn, 1992: 226)

            Ora, esta matriz tem elementos que a caracterizam: generalizações simbólicas, crenças, valores, exemplares (exemplos compartilhados).
 



Em seguida, Kuhn aprofunda o paradigma no sentido mais restrito como sendo apenas uma parte da matriz: exemplos compartilhados. Contudo isto não significa um restringir do paradigma aos aspectos cognitivos.  Como ele próprio sublinha, é um “conhecimento que se aprende fazendo ciência e não simplesmente adquirindo regras para fazê-la” (Kuhn, 1992: 237).   



Conclusão

Kuhn tenta demonstrar que um paradigma - tanto no sentido alargado de matriz disciplinar, como no sentido restrito de exemplos compartilhados - não se reduz ao conteúdo cognitivo da ciência, ao contrário do que pensam muitos cientistas ou filósofos da ciência.

Pode-se afirmar que esta sua tese não está muito afastada do que dizia Wittgenstein:
os jogos de linguagem (o jogo cognitivo) são também uma forma de vida. 


Bibliografia

Manuel Maria Carrilho, A filosofia das ciências. De Bacon a Feyerabend, Lisboa, Ed. Presença, 1994.

Thomas S. Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, S. Paulo, Editora Perspectiva, 1992.

José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Quarto volume, Lisboa, Livros Horizonte, 1977.

Sites consultados:

Biografia de Ludwig Wittgenstein extraída de:
 
http://buscabiografias.com/cgi-bin/verbio.cgi?id=2893 

Segunda-feira, 21 de Novembro de 2005

Um físico na Aula Teórica nº 7 - 22 de Novembro de 2005

Aula Teórica nº 7 - 22 de Novembro de 2005

 

Nesta aula, teremos um convidado, o físico Luís de Melo Pereira, que nos falará da importância da teoria da relatividade de Einstein.

Título da conferência seguida de debate:
 
"Einstein: uma visão sobre..."
 
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Currículum:
 
Luís de Melo Pereira
 
Licenciado pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto em Física, em 1993
 
Concluiu o mestrado "no ensino da´Física" na Universidade do Minho em 2002, com a dissertação: "Colorimetria da íris"
 
Lecciona no Ensino Secundário, acumulando no ISAVE uma cadeira de Química Física
 
 
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Resumo da aula prática de 16 de Novembro de 2005 - Popper e problema de Hume

 

Aula prática de 16 de Novembro de 2005


 


 Exercício


Fazer o resumo desta frase:


"Em primeiro lugar, [Popper] distingue, na análise que Hume faz da indução, dois problemas distintos: um problema lógico e um problema psicológico.


O problema lógico consiste em saber se é ou não justificado raciocinar a partir da repetição de casos de que temos experiência para outros casos de que não temos experiência, e a resposta humiana é negativa, seja qual for o número de repetições que se tenha em conta. O problema psicológico é o de saber porque é que os homens vivem com a convicção de que os casos de que não têm experiência decorrerão no futuro conformemente aos casos de que têm experiência no passado" (Carrilho, 1994: 33).


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Solução do exercício:


 


1ª Fase


Não se resume – Traduzir para a minha linguagem


 Dois problemas: Lógico e Psicológico


1.    Lógico: Não podemos induzir leis gerais a partir de experiências que nos acontecem repetidamente mesmo que essas experiências se repitam milhares de vezes.


2.    Psicológico: Como é que eu posso ter a certeza absoluta (crença) que a minha medição de um determinado fenómeno (que 1kg é estável) se vai repetir no futuro, em que a causa é inobservável? O que Hume diz é que a nossa crença nas leis de Newton é semelhante à crença religiosa.


 


 2ª Fase - Fazer o resumo usando um quadro



Ideia base


(substantivos)


Desenvolvimento/Argumentos


(substantivos + verbos)


 


 


 


Problema de Hume


 


·    Análise de Hume acerca da indução científica.


·    Problema lógico (vírus do indutivismo) – Não há leis na quantidade de observações.


·    Problema geral psicológico (vírus do hábito) – É uma crença em que as experiências no futuro (uso da balança) decorrem tal como ocorreram no passado.


 


Texto de:


Susana Costa


Aluna do curso de Sociologia da Universidade do Minho


Nº47804


 


 


 


 

Terça-feira, 15 de Novembro de 2005

Resumo da aula teórica nº 6 de 15 de Novembro de 2005



•       Universidade do Minho


•       Curso de Sociologia – 1ºano - Metodologia das ciências sociais – Docente: José Pinheiro Neves


•      Resumo da aula teórica de 15 de Novembro de 2005 (3ªs, 14h – 16h – A3).


•      Nesta aula, iremos dar um salto no tempo deixando para trás os momentos fundadores da ciência e os debates “positivistas” que atravessam o século XIX e começos do século XX. Para isso, iremos ver que o problema de Hume é desenterrado, cerca de 300 anos depois, por um filósofo que vinha do neo-positivismo: Karl Popper.


 


 


•      Veremos também que, uns anos mais tarde, um dos teóricos do neo-positivismo irá dar uma volta ainda mais completa passando mesmo a considerar as teses de Popper como um prolongamento disfarçado do neo-positivismo lógico: Wittgenstein na sua segunda fase.


•      Na próxima aula teórica, daremos a palavra a um físico que irá recorrer não à filosofia mas antes à história e à sociologia do acto científico (Kuhn).


 


 


•      A questão continua a ser a mesma.


•      Qual é a definição de ciência de Karl Popper e de que forma ele “resolve” o problema de Hume?


•      Será que o resolve efectivamente?


•      Qual é a resposta de Wittgenstein e porque é que ele considera a resposta de Popper incompleta?


 


 


 


 


•     Sumário desta aula:


•     1 – O ponto de vista de Karl Popper é um melhoramento da resposta neo-positivista ou constitui um corte radical?


•     2 – o ponto de vista crítico de Wittgenstein.


•     3. Algo muda quando um físico (Kuhn), influenciado pela história e pela sociologia, começa a escrever sobre o que é a ciência….


 


 


 


 


•      Comecemos então por apresentar o ponto de vista de Karl Popper em quatro pontos:


•      a) Qual foi a inspiração de Popper? A forma como Einstein fazia ciência. A teoria da relatividade geral. O eclipse do sol. A verificação da hipótese de Einstein (“O exemplo: os patos negros e os patos brancos)


•      b) Era diferente da de Newton e da adoptada nas ciências sociais (ver o caso do marxismo e da psicanálise).


•      c) Como Popper dá uma “solução” ao problema de Hume.


•      d) Porque é que Popper diz que se deve partir da “Falsificação”? A epistemologia de Popper e os seus efeitos na ciência e na filosofia.


 


 


 


 


•     . 1 – O ponto de vista de Karl Popper é um melhoramento da resposta neo-positivista ou constitui um corte radical?


 


•     a) Qual foi a inspiração de Popper? A forma como Einstein fazia ciência. A teoria da relatividade geral. O eclipse do sol. A verificação da hipótese de Einstein.


 


•      Foi precisamente o surgimento da teoria da relatividade que deu origem a uma das primeiras visões críticas no âmbito da Escola de Viena: a posição de Karl Popper "iniciada em 1934".


•      (..) O que nessa época Popper procurava era um critério que permitisse distinguir a ciência da não-ciência, ou seja, saberes como a física de Newton e de Einstein de saberes como a psicanálise e o marxismo. (…) Popper inspirar-se-á fortemente no problema de Hume, mas não se limitará a reformular o problema: ele pretende ter uma solução para ele" (Carrilho, 1994: 32).


 •      Em que consiste a novidade proposta por Einstein na teria da relatividade geral?


•      [Ver: http://metodologia.blogs.sapo.pt/arquivo/2004_02.html ]


•      “Relatividade, teoria desenvolvida no início do século XX, que, originalmente, pretendia explicar certas anomalias no conceito do movimento relativo, mas, em sua evolução, converteu-se numa das teorias básicas mais importantes das ciências físicas. Desenvolvida fundamentalmente por Albert Einstein, foi a base para que os físicos demonstrassem, posteriormente, 


•      a unidade essencial da matéria e da energia, do espaço e do tempo,


•      e a equivalência entre as forças de gravitação e os efeitos da aceleração de um sistema”.



•     “Em 1905, Einstein publicou seu artigo sobre a teoria da relatividade especial, segundo o qual nenhum objecto do Universo se distingue por proporcionar um marco de referência absoluto em repouso. É igualmente correcto afirmar que o trem se desloca em relação à estação e que a estação se desloca em relação ao trem.



•      A hipótese fundamental: inexistência do repouso absoluto no Universo


•      Toda partícula ou objecto deve ser descrito mediante uma chamada linha de Universo, que traça sua posição em um contínuo espaço-tempo de quatro dimensões (três espaciais e uma temporal), na qual têm lugar todos os factos do Universo.


•      Também deduz que o comprimento, a massa e o tempo de um objecto variam com sua velocidade. Assim, a energia cinética do eléctron acelerado converte-se em massa, de acordo com a fórmula E=mc2”. 


•      “Em 1915, desenvolveu sua teoria da relatividade geral, na qual considerava objectos que se movem de forma acelerada um em relação ao outro, para explicar contradições aparentes entre as leis da relatividade e a lei da gravitação.


 •      A teoria da relatividade especial afirma que uma pessoa, dentro de um veículo fechado, não pode determinar, por meio de nenhum experimento imaginável, se está em repouso ou em movimento uniforme.


•      A da relatividade geral afirma que, se esse veículo é acelerado ou travado, ou se faz uma curva, o seu ocupante não pode assegurar se as forças produzidas se devem à gravidade ou a outras forças de aceleração. Simplesmente, a lei da gravidade de Einstein afirma que a linha de Universo de todo objecto é uma geodésica em um contínuo (uma geodésica é a distância mais curta entre dois pontos, ainda que o espaço curvo não seja, normalmente, uma linha recta; como ocorre com as geodésicas na superfície terrestre, são círculos máximos, mas não linhas rectas). A linha de Universo é curva devido à curvatura do contínuo espaço-tempo na proximidade da Terra e a isso se deve a gravidade.”



•       Textos extraídos da enciclopédia Encarta 99 da Microsoft


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•      “E, em 1915, lançou a teoria da relatividade geral, mostrando que a gravidade de um corpo deforma o espaço e o tempo a seu redor. Essa tese foi comprovada alguns anos depois num eclipse solar em Sobral, no Ceará: comparando-se posições de estrelas ao redor do sol antes e durante o eclipse, constatou-se que, vistas daqui, elas pareciam estar mais próximas devido à passagem dos raios de luz delas perto do campo gravitacional do sol”.


•      A relatividade geral inspirou outras teorias, como a da expansão do Universo, pelo norte-americano Edwin Hubble (1889-1953), em 1929, e a da formação dos buracos negros pelo indiano-norte-americano Subrahmanyan Chandrasekhar (1910- 1995), em 1931. Em 1997, Wei Cui, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e colaboradores da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, anunciaram a descoberta de buracos negros arrastando o espaço-tempo ao seu redor, o que comprovava previsões feitas a partir da relatividade geral 80 anos antes, quando ainda não havia incompatibilidade com a teoria quântica.


•       Texto extraído de: http://fma.if.usp.br/~rivelles/supercordas/ciencia55.htm


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•      Baseado no exemplo deste cientista (Einstein) Popper define assim o acto científico:


•      "O que Popper avança é uma outra imagem global da ciência, que se pode definir por proceder a uma dupla ruptura face ao positivismo, por um lado substituindo a actividade indutiva pela de conjecturação e, por outro, adoptando como critério de cientificidade não a verificabilidade, mas a falsificabilidade.


 •      Segundo esta imagem são as conjecturas que — mais estimuladas pela ousadia interpretativa do que pela exaustividade observacional — animam a actividade científica do homem, que assim se rege por um quadro metodológico bem diferente daquele que o positivismo prescrevia, nomeadamente ao atribuir à observação o papel de falsificar (ou não, situação em que ela a corrobora) a hipótese que se avançou" (Carrilho, 1994: 33-34).


 •      Exemplo: "todos os cisnes são brancos". Basta a observação de um só cisne negro para que (…) se possa refutar o enunciado universal anteriormente formulado" (Carrilho, 1994: 34).


•      Exemplo positivo Einstein (como vimos atrás)


•      Exemplos Negativos  psicanálise e marxismo como veremos em seguida.


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•      B) A noção de ciência em Popper é diferente da de Newton e da adoptada nalgumas ciências sociais (ver o caso do marxismo e da psicanálise).


 •      Vamos acompanhar um texto escrito pelo próprio Popper.


•      [Texto: Karl Popper, “A demarcação entre ciência e metafísica”, in Manuel Maria Carrilho, Epistemologia: posições e críticas, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991, pp. 201-265]


 •      “Isto foi em 1919, quando comecei a suspeitar das várias teorias psicológicas e políticas que reivindicavam o estatuto de ciências empíricas, em especial a “psicanálise” de Freud, a “psicologia individual” de Adler e a “interpretação materialista da história” de Marx.


•      A mim parecia-me que todas estas teorias eram defendidas de uma forma acrítica. Dispunha-se de um grande número de argumentos em favor delas.



 •     Mas a crítica e os argumentos contrários a elas eram vistos como hostis, como sintomas de uma recusa obstinada em admitir a verdade manifesta; e. por isso, eram enfrentados com hostilidade e não com argumentos. 


•     O que eu achava mais impressionante e perigoso nessas teorias era a pretensão de elas serem “verificadas” ou “confirmadas” por um fluxo incessante de provas observacionais.


•      E, na verdade, assim que se abriram os olhos , podia-se ver por toda a parte casos que constituíam verificações dessas teorias. Um marxista não era capaz de olhar para um jornal sem encontrar em todas as páginas, desde os artigos de fundo até aos anúncios, provas que constituíam verificações da luta de classes; e encontrá-las-ia sempre também (e em especial) naquilo que o jornal não dizia.


•     E um psicanalista, fosse ele freudiano ou adleriano, diria sem dúvida que todos os dias, ou até de hora em hora, estava a ver as suas teorias verificadas por observações clínicas.


•     Mas seriam essas teorias testáveis? Estariam realmente essas análises mais bem testadas do que, digamos, os horóscopos, frequentemente “verificados” dos astrólogos? (...) Não eram todos os acontecimentos imagináveis “verificações”?


•      Era precisamente esse facto — o facto  de que essas análises batiam sempre certo, de que eram sempre verificadas — que impressionava os seus aderentes. Comecei a pensar que essa aparente força era, na verdade, uma fraqueza e que todas essas “verificações” eram demasiadamente pouco válidas para serem tomadas por argumentos “ (Popper, 1991: 209-210).


 •      Exemplo: a interpretação dos sonhos de Freud


•      “O objectivo principal de Freud nesse livro é o de “provar que, na sua natureza essencial, os sonhos representam realizações de desejos”. Freud, é claro, está consciente de que há uma objecção óbvia a essa teoria — a existência de pesadelos e de sonhos de ansiedade; porém, Freud rejeita tal objecção.


 •      Freud afirma, num trecho em que formula aquele que vai ser aqui o nosso problema principal, o seguinte: “De facto, parece que os sonhos de ansiedade fazem com que seja impossível afirmar o enunciado geral (baseado nos exemplos do último capítulo) de que os sonhos são realizações de desejos; parecem, na verdade, caracterizar um enunciado desses como absurdo. No entanto, não há grande dificuldade em fazer face a essa objecção” [itálicos de Popper].


 •      O método de fazer face a essa objecção, explica Freud, consiste em mostrar que aquilo que na sua aparência (no seu conteúdo manifesto) parece ser um sonho de ansiedade, é, na realidade (no seu conteúdo latente), a realização de um desejo. Isto conduz Freud a uma modificação muito ligeira da sua tese principal respeitante à natureza essencial dos sonhos, que ele formula da seguinte maneira: “Um sonho é uma realização (disfarçada) de um desejo (suprimido ou recalcado)” (Popper, 1991: 214).


 •      “... pretendo antes criticar a maneira como Freud rejeita a crítica. Estou realmente convencido de que Freud poderia ter melhorado largamente a sua teoria se tivesse tido uma atitude diferente perante a crítica.. “ [219-220].


•      “Esta atitude auto-defensiva anda a par com a atitude de procurar verificações, de as encontrar por toda a parte com abundância, de se recusar admitir que determinados casos não se ajustam à teoria (e simultaneamente de os afastar […])” (Popper, 1991: 220)..


 •     C) Como Popper dá uma “solução” ao problema de Hume.


 •      "Em primeiro lugar, distingue na análise que Hume faz da indução dois problemas distintos: um problema lógico e um problema psicológico.


 


•     O problema lógico consiste em saber se é ou não justificado raciocinar a partir da repetição de casos de que temos experiência para outros casos de que não temos experiência, e a resposta humiana é negativa, seja qual for o número de repetições que se tenha em conta.


 


 


 


 


•     O problema psicológico é o de saber porque é que os homens vivem com a convicção de que os casos de que não têm experiência decorrerão no futuro conformemente aos casos de que têm experiência no passado" (Carrilho, 1994: 33).


 


 


•      A solução de Hume: é um hábito, trata-se de um crença subjectiva.


 


•      Mas a de Popper é diferente: recusa do indutivismo e recuperação do dedutivo mas pelo racionalismo temperado.


 


•      No fundo, recupera a questão de Hume mas vai pelo caminho oposto a Hume tal como em Kant..


 


 


•      "Popper retoma estas distinções mas reformula-as sucessivamente, de modo a pôr em termos de conhecimento objectivo o que em Hume se formulava no registo da crença subjectiva: o problema lógico da indução torna-se então o problema da "validade (verdade ou falsidade) das leis universais relativas a determinados enunciados experimentais"


•      [citado de Karl Popper,  La connaissance objective [1972], Bruxelles, Ed. Complexe, 1978, p. 18] (Carrilho, 1994: 33).


 


 


•      "Popper subscreve a insistência humiana de que não é possível chegar à universalidade de um enunciado a partir de nenhuma série finita de observações;


 


 


•      mas o mesmo já não acontece com o passo seguinte que Hume dá, e que é o de fornecer uma explicação psicológica dos processos indutivos. É aqui que Popper se opõe à tradição epistemológica dos últimos séculos e afirma — e é neste ponto que radica a sua resposta ao problema — que o que acontece é que o conhecimento humano não procede por indução. (…) ".. não há indução por repetição“.


 


•       [Popper, 1978: 17] (Carrilho, 1994: 33).


 


 


•     D) CONCLUSÃO


•     "O que Popper avança é uma outra imagem global da ciência, que se pode definir por proceder a uma dupla ruptura face ao positivismo, por um lado substituindo a actividade indutiva pela de conjecturação e, por outro, adoptando como critério de cientificidade não a verificabilidade, mas a falsificabilidade.


 


 


•      Segundo esta imagem são as conjecturas que — mais estimuladas pela ousadia interpretativa do que pela exaustividade observacional — animam a actividade científica do homem, que assim se rege por um quadro metodológico bem diferente daquele que o positivismo prescrevia, nomeadamente ao atribuir à observação o papel de falsificar (ou não, situação em que ela a corrobora) a hipótese que se avançou" (Carrilho, 1994: 33-34).


 


 


•     2 – O ponto de vista crítico de Wittgenstein: a ciência como um jogo de linguagem = forma de vida.


•      POSIÇÃO DO NEO-POSITIVISMO: atomismo-lógico reduzia todos os fenómenos ao modelo invariável  da denominação, ao esquema objecto-designação. Tinha a pretensão de codificar a linguagem segundo um modelo gramatical unitário, rígido, invariável, de regras lógicas.


 


 


 


•      POSIÇÃO DE WITTGENSTEIN  (na sua segunda fase):


•      Wittgenstein reivindica uma multiplicidade e variedade de categorias de expressões. O significado é um simbolismo que se refere a uma forma de vida, um contexto, hábitos, atitudes comportamentais… O significado circunscreve-se unicamente ao fenómeno que descreve.


 


 


•      Ludwig Wittgenstein (1889-1951).


•     Biografia [baseada em: http://buscabiografias.com/cgi-bin/verbio.cgi?id=2893 ]


•      Nació en Viena el 26 de abril de 1889; Wittgenstein se educó en el seno de una familia rica e ilustrada. Después de asistir a escuelas en Linz y Berlín, se trasladó a Gran Bretaña para estudiar ingeniería en la Universidad de Manchester.


•      Su interés por las matemáticas puras le llevó al Trinity College (Cambridge) para estudiar com Bertrand Russell. Allí orientó su interés hacia la filosofía.


 


•      En 1918 Wittgenstein había terminado su Tractatus logicus-philosophicus (1921), una obra que según él, suministraba la "solución definitiva" a los problemas filosóficos. Más tarde, se apartó de la filosofía y durante años enseñó a los escolares de un pueblo de Austria.


•      En 1929 regresó a Cambridge para reanudar su trabajo en filosofía y fue designado al Trinity College.


•      Pronto empezó a rechazar ciertas conclusiones del Tractatus y a desarrollar otras opiniones reflejadas en sus Investigaciones filosóficas, publicado con carácter póstumo en 1953.


 


 


 


•      EXEMPLO:


 


•     “Ao dizer “eu creio p” eu não tenho necessariamente de explicar as razões porque penso assim em termos de verificabilidade empírica e de inferência lógica,


 


•      enquanto que ao dizer “eu sei p” devo ser capaz de apresentar aos outros, que podem duvidar do que eu sei, o que justifica o meu saber justamente nesses termos; contudo, as razões dadas para justificar um saber recorrem a um sistema de crenças, ou convicções, ante-inferenciais que o situam. Como aponta [Wittgenstein] no §54, “comportamento de dúvida e não dúvida. Só há o primeiro se houver o segundo”.


 


•      Há, portanto, dois géneros de proposições que se implicam no jogo de linguagem envolvendo o saber e o duvidar: as proposições empíricas e as proposições “fundacionais”.


•      Por “proposição empírica” entende-se a proposição cuja verdade pode ser confirmada ou não confirmada pela experiência. Nesta obra de Wittgenstein estas proposições têm um carácter hipotético e são vulneráveis a alguma dúvida.


 


 


 


•      As proposições fundacionais, tidas como necessariamente válidas, não são, elas próprias, derivadas de qualquer proposição anterior, mas servem às vezes como suporte de outras.


•      Mas este suporte não deve ser, todavia, pensado como uma verdade de onde se inferem outras verdades: como vamos ver logo a seguir, elas são da ordem da convicção e da imagem do mundo.


 


 


 


•      Ao contrário das hipóteses avançadas nas proposições empíricas, as proposição fundacionais não dependem de experiências actuais e verificáveis para a sua validade, mas constituem, pela organização biológica e pela educação, as bases da estrutura noética do ser humano e, por isso, a base das suas certezas” (Sumares, 1994: 33-34).


 


 


 


•     “Quero encarar aqui o homem como um animal; como um ser primitivo a quem se reconhece instinto mas não raciocínio. Como uma criança num estado primitivo.


•     Qualquer lógica suficientemente boa para um meio de comunicação primitivo não é motivo para que nos envergonhemos dela. A linguagem não surgiu de uma espécie de raciocínio”.


 


•     E um pouco mais tarde, diz Wittgenstein: </SP

Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

Resposta ao exercício da aula teórica nº4 - 2 Nov. 2005, da aluna Keisy Pacheco

Exercícios de preparação para o teste a partir da aula teórica nº 4 - 2 Nov. 2005


Faça uma re-escrita dos seguintes textos de Hume usando palavras e exemplos que lhe sejam familiares. O importante é entender o que escreve. Utilize o dicionário de língua portuguesa.


Envie, até 15 de Novembro de 2005,  para o e-mail do blog: jpneves2006@yahoo.com.br


As melhores respostas serão colocadas neste blog.

 

•Texto 1

“Um corpo de dez onças erguido em qualquer balança serve de prova de que o contrapeso excede dez onças, mas nunca pode fornecer uma razão de que ele exceda uma centena. Se a causa, para algum efeito, não for suficiente para o produzir, devemos ou rejeitar essa causa, ou acrescentar-lhe qualidades tais que lhe dêem uma justa proporção ao efeito.”(1985, XI)

•

Texto 2

•..."mas se lhe atribuirmos mais qualidades ou afirmarmos que ela é capaz de produzir outros efeitos, podemos apenas conceder a permissão de conjecturas e supor arbitrariamente a existência de qualidades e energias, sem razão ou autoridade.”(1985, XI)

•

Bibliografia

Hume, David, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Edições 70, 1985 [secção II, secção IV, secção V e secção XI].

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Resposta de Keisy Pacheco :


Hume diz que o peso de um corpo de dez onças é inferior ao seu contrapeso (conjecturado pela experiência). Todavia, acrescenta que não se pode concluir que o mesmo (contrapeso) exceda uma centena. Neste sentido, Hume demonstra que não podemos formar uma regra geral (deduzir que o contrapeso excede qualquer quantidade de onças), através de uma experiência única (pelo facto de exceder as dez onças), mesmo que se trate de casos semelhantes.


Além disso, aconselha que, neste caso, o melhor a fazer é rejeitar a causa (já que o efeito pretendido é outro), de modo a atingir a justa proporção (a centena). Em suma, Hume especifica a importância de não tomar, por analogia, as experiências isoladas como certezas, de que qualquer causa levará a determinado efeito.


Keisy Pacheco


Nº 47791


1º ano do Curso de Sociologia da Universidade do Minho

Domingo, 13 de Novembro de 2005

Texto de uma aluna a responder a um desafio lançado na aula teórica nº 2

Richard Rorty acredita na conciliação entre racionalistas e empiristas da seguinte forma: espaço e tempo existem de facto, isto porque são criação do próprio homem. Portanto, se foram criados, à partida existem, nem que seja apenas nas concepções humanas.


 


Porque é que esta frase do Richard Rorty modifica radicalmente o debate entre os que dizem que "a verdade é descoberta" e os que dizem "a verdade é construída"?


Rorty diz que há algo que existe – Espaço e Tempo (são realidade) mas o Espaço e Tempo são criados pelo homem (são construções).


Desta forma, Rorty confronta as ideias de uns e outros, demonstrando que ambos estão errados, pois o problema surge logo no ponto de partida.


Como conseguir chegar à meta (neste caso à verdade), se o ponto de partida está desalinhado (o problema é mal colocado)!?


 


Torna-se difícil explicar por palavras, o que F. Rorty quer dizer, pois a linguagem do ser humano tem limitações, já a mente…


 


 


A aluna do Curso de Sociologia


Dália Isabel


n.º 47800


 


 


 


 

Terça-feira, 8 de Novembro de 2005

Resumo da Aula teórica nº 5 – 8 de Novembro de 2005

 

 


•      Universidade do Minho


•      Curso de Sociologia – 1ºano - Metodologia das ciências sociais - Resumo da aula teórica nº 5 – 8 de Novembro de 2005 (3ªs, 14-16h).


•      Nesta aula, iremos ver como a filosofia das ciências se desenvolveu após as respostas iniciais de Bacon e Hume.


•      Assim, a questão continua a ser a mesma. Qual a a definição de ciência de Kant e dos autores que, mais tarde, acentuaram a componente positivista (Mill, Comte, e outros, incluindo o neo-positivismo)? Como veremos em seguida, há diferenças entre Kant e os positivistas. No entanto, a leitura de Kant não é consensual. Apenas no século XX, se retomará o problema de Hume e será tida em conta uma interpretação de Kant mais construtivista.


•      1 – o ponto de vista de Kant;


•      2 – o ponto de vista dos diversos positivismos.


 


1 – Immanuel Kant - Filósofo alemão (Königsberg 1724 - id. 1804).
Influenciado pelo racionalismo de Christian Wolff (expõe de forma dogmática a doutrina de Gottfried Wilhelm Leibniz).O choque decisivo é a leitura dos escritos de David Hume. Este autor «desperta-o do seu sono dogmático» e indica-lhe a tarefa essencial da época. Perante os progressos prodigiosos realizados num século e metade pela filosofia natural - que chamamos hoje a física (Galileu, Newton) - e perante as perturbações das ideias morais, políticas e religiosas, trata-se de definir os poderes e os limites da razão: o que posso eu conhecer? O que devo fazer? O que devo esperar?”
 “Com cinquenta e sete anos, em 1781, publica a sua obra fundamental: «A Crítica da razão pura». Desenvolve os princípios do " criticismo" e a teoria do conhecimento que corresponde aos sucessos das ciências experimentais.

O ponto de partida da investigação é uma verificação, que tem em conta a solidez da matemática, provada na antiguidade, os progressos recentes e incontestáveis da física, e, em oposição, a estagnação da especulação filosófica metafísica e teológica, desde a sua fundação com Platão e Aristóteles.


 


 


Kant formula esta questão fundamental: - quais condições em que pode haver conhecimento (isto é: como é necessário conceber o assunto para o conhecer e como conceber o objecto conhecido, ou a conhecer?), sendo naturalmente que este existe, dado que o percebemos, dado que Copérnico, Galileu e Newton construíram a física matemática, e dado que os metafísicos e os teológicos discutem a questão de Deus, da Alma e do mundo?
A análise crítica de Kant é demasiado detalhado para que se possa resumir as suas diversas etapas; mas, para se ter uma ideia da importância do seu criticismo, é suficiente assinalar os resultados principais do seu trabalho:
1) em qualquer conhecimento, há qualquer coisa de irredutível que não pode ser deduzido, que constitui a matéria do conhecimento e que pertence à experiência sensível;
2) esta efectua-se necessariamente no âmbito dos a priori do espaço e do tempo;
 3) contrariamente ao que afirma o empirismo, o conhecimento não se reduz a um desenvolvimento da experiência sensível, dado que intervêm a actividade intelectual, o conhecimento que se tem do assunto, que organiza a priori o material sensível de acordo com regras formais; há uma ordem anterior (por exemplo, a relação da causa e efeito);
4) esta actividade intelectual é o próprio dinamismo do sujeito, do EU conhecedor”.


 


 


“Assim, o mundo percebido, sobre o qual o físico trabalha por abstracções para elaborar o saber experimental, é feito de uma matéria irredutivelmente dada e de uma forma que lhe impõe-lhe o acto de entendimento, de conhecimento”.

Desta maneira, Kant funda a ciência experimental: esta pressupõe, com efeito, que há uma ordem da natureza, as leis de causalidade, etc., e esta ordem é a que o intelecto impõe a partir do momento em que ele conhece; mas supõe também que, para conhecer determinada lei, é necessário recorrer à experiência sensível, ao contacto com o dado.

Desta maneira, Kant explica igualmente o falhanço da metafísica passada: esta, por conseguinte, baseia-se numa experiência limitada, faz funcionar a actividade intelectual no vazio, sem nunca recorrer mais à experiência, e, sempre à procura da " determinação integral ", produz o ser de razão, das entidades tais como: eu, o mundo e Deus, ao qual atribui arbitrariamente, e sem outro controlo que o raciocínio, determinada propriedade”.

In Vários (1999), “Kant Emmanuel, ou, en allemand, Immanuel” in: http://www.webencyclo.com/ , Editions Atlas.



 


 


2 – O ponto de vista dos diversos positivismos.

 A) O que é o positivismo? Não haverá diferentes positivismos?
 Uma tendência na filo
sofia que considera as ciências (empíricas) naturais como a única fonte do conhecimento e rejeita o valor cognitivo do estudo filosófico.

 Positivismo emergiu como resposta à inabilidade da filo
sofia especulativa (por exemplo, o clássico idealismo alemão) para resolver os problemas filosóficos que se tinham levantado em consequência do desenvolvimento científico.



 


 


O positivismo foi fundado por Auguste Comte, que introduziu o termo positivismo. Historicamente, há três fases no desenvolvimento do positivismo.
1 - Os expoentes do primeiro positivismo foram Comte, E. Littré e P. Laffitte em França, J S Mills e Herbert Spencer em Inglaterra. Ao lado dos problemas da teoria do conhecimento (Comte) e da lógica (Mills), o lugar principal no primeiro Positivismo foi atribuído à sociologia (ideia de Comte de considerar a sociologia como base da ciência, da teoria orgânica de Spencer's da sociedade).
2 - A ascensão da segunda fase do Positivismo – empirico-criticismo –, entre 1870 e 1890, é associada a Ernst Mach e a Avenarius que renunciaram mesmo ao reconhecimento formal dos objectos reais objectivos, que era uma das características do primeiro Positivismo. Em Mach, os problemas da cognição foram interpretados do ponto de vista do psicologismo extremo, que se estava fundindo com o subjectivismo.


 


 


3 - A ascensão e a formação do último Positivismo, ou o neo-positivismo, estão ligadas à actividade do círculo de Viena (O. Neurath, Carnap, Schlick, Frank e outros) e da Sociedade de Berlinense para a Filosofia Científica (Reichenbach e outros), que combinou várias tendências: atomismo lógico, positivismo lógico, semânticas (perto destas tendências são o operacionalismo de Percy Bridgman e o pragmatismo de William James e outros).
O aspecto principal do terceiro positivismo centra-se no exame dos problemas filosóficos da linguagem, da lógica simbólica, da estrutura das investigações científicas. Renunciando ao psicologismo, os expoentes do terceiro positivismo tentaram reconciliar a lógica da ciência com a matemática, uma formalização dos problemas epistemológicos”.

Vários (2001), “Positivism”, in Dictionary of Philosophy, London, Progress Publishers,  in http://www.marxists.org/reference/subject/philosophy/help/mach1.htm , consultado em 20 de Outubro de 2001.


 


 


Uma pequena nota: qual a diferença entre o empirismo (ou empiricismo) e o racionalismo?

A metafísica (filo
sofia) moderna, a partir de Descartes, coloca no centro da sua investigação a pergunta da natureza, o funcionamento e os limites do conhecimento, o debate limita-se entre duas posições extremas: o empirismo e o racionalismo.
1. O empirismo:
A filo
sofia empirista (John Locke, David Hume) toma, como ponto de partida, a constatação que a experiência é indispensável. E radicaliza-se afirmando que a experiência do espírito é como uma tábua rasa ou como uma superfície virgem sobre a qual o contacto com o real vem imprimir marcas, que gradualmente se aprofundam e se fixam até constituírem, pela repetição das semelhanças e das diferenças, noções.
Estas tornam-se assim, quando cada uma é associado a um nome, os eixos ao redor dos quais se organizam os conhecimentos. A linguagem transmite estes conhecimentos, que se aperfeiçoam em função de melhoramento progressivo da experiência.


 


 


2. O racionalismo
Opondo-se ao empirismo, o racionalismo clássico apresenta um forte argumento: esta concepção (o empirismo), convenientemente muito clara, pressupõe, pelo menos, uma actividade do espírito que classifica os vestígios nascidos de experiência, que reúne o semelhante e distingue o dissimilar, que possui por conseguinte princípios a partir dos quais são produzidas as noções. Um espírito reduzido a uma simples mesa rasa recolheria sem ordem (e sem nenhuma possibilidade de classificação a não ser o próprio dado) os vestígios múltiplos das experiências na sua diversidade indefinida. É necessário pressupor que existe no espírito, criado por Deus ou por pela natureza, aquilo que Descartes chama "sementes de verdades", que formam o núcleo inato do conhecimento. A experiência apenas intervém para despertar estas ideias primeiras e constitutivas, e para fornecer o material que, a partir destas, permitirá o fabrico das ideias complexas.
in ©Webencyclo des Éditions Atlas 2001 - Tous droits réservés


 


 


Empirismo, substantivo.

Doutrina filosófica de acordo com a qual o conhecimento decorre inteiramente da experiência sensível.

Este termo é procedente do grego empeiria, “experiência”.


 


 


O PRIMEIRO POSITIVISMO
O LÓGICO

J. Stuart Mill  - o triunfo do indutivismo

"Para a filo
sofia das ciências seria todavia  a análise do processo indutivo o aspecto  central que, mais tarde, haveria de ser retido e valorizado. E digo mais tarde porque no imediato ele foi ignorado para, no século seguinte, ser quase totalmente esquecido, particularmente devido ao vigor da defesa do indutivismo feita por J. Stuart Mill" [22].


 


 


"Pode-se dizer que, no essencial, Mill retoma a inspiração baconiana as elaborar o seu System of Logic (1843), no qual apresenta os procedimentos indutivos como métodos, conformes às exigências empiristas, da descoberta de leis e do estabelecimento da verdade.
Atacando o intuicionismo e afastando-se das teses humianas, Mill apresenta o conhecimento científico como o modelo de racionalidade que (…) se deve procurar".
"Para Mill a indução baseia-se num pressuposto central, o da regularidade da natureza, segundo o qual o que aconteceu uma vez  voltará sempre, em circunstâncias semelhantes, a ocorrer de novo.


 


 


"O estabelecimento dos cânones da investigação científica deu origem à constituição de uma das mais importantes e difundidas concepções  da filosofia da ciência, o indutivismo, que se pode sintetizar enunciando os seus 3 princípios fundamentais:



 


 


1          antes de mais, o próprio princípio da indução que estabelece  que há uma forma de, a partir da acumulação de factos singulares, inferir enunciados universais, de tal modo que de enunciados verdadeiros que descrevem observações e experiências é possível inferir leis;


 


 


 


•      2     seguidamente o princípio de acumulação, que considera o conhecimento científico como o resultado de factos bem estabelecidos, a que progressivamente se acrescentaram outros sem que os primeiros se alterem;


 


•      3     por fim, o princípio de confirmação, que articula a plausibilidade das leis com o número de instâncias a que o fenómeno a que se refere a lei foi submetido. [24]


 


O debate entre Mill e Whewell (indução versus hipótese)

"Pode dizer-se que a filosofia das ciências dos séculos XIX-XX se caracteriza, no essencial, por uma permanente discussão destes princípios [do indutivismo], matizando-se as posições que vão da sua rejeição liminar até tentativas de reformulação que, de algum modo, prolongam a inspiração baconiana" [25].
É de realçar que, mesmo no tempo de Mill, esses debate esteve presente . Vejamos esse debate em pormenor porque ele será paradigmático da evolução posterior.


 


 


"É de resto à luz desta situação que, logo no século XIX, se deve compreender a controvérsia entre Mill e Whewell acerca do papel da teoria na condução da actividade científica; à insistência quanto à origem empírica do conhecimento contrapunha Whewell o papel interventor do sujeito.

Whewell sustentava que o conhecimento resulta da articulação das sensações com as ideias, sendo estas que organizam e orientam aquelas (…). E, assim concebida , a actividade científica não procede tendo por centro a indução, por muito que — como Mill fez, reformulando profundamente as tábuas — se sofistique a sua metodologia, mas antes tendo por motor a hipótese" [25]. Contudo, as teses dominantes foram as de Mill, nomeadamente na emergência do que se convencionou  chamar de positivismo lógico, como veremos em seguida.


 


 


O positivismo lógico ou neo-positivismo (Círculo de Viena)


"Vislumbra-se aqui a grande viragem que se dá na filo
sofia das ciências nas primeiras décadas do século XX. A sua origem encontra-se nas cidades de Berlim e de Viena: em Berlim, em torno da Sociedade de Filosofia Empírica, de Reichenbach, em Viena, em torno da Associação Ernst Mach, animada por Schlick.


 


 


"O grupo de Viena, que pouco mais tarde se tornará o Círculo de Viena, adquirirá no entanto rapidamente uma acentuada preponderância, nomeadamente com a publicação, em 1929, de um texto que é assinado pelo filósofo Carnap, pelo matemático H. Hahn e pelo sociólogo O. Neurath, e que se intitula

A concepção científica do  mundo


 


 


"Com este texto  — que se tornará conhecido como o manifesto do Círculo e a que se atribui um papel fundador no movimento do empirismo lógico — procura-se sobretudo lançar as bases  de um vasto  movimento de reformulação da compreensão e análise do espírito humano, com destaque para o conhecimento científico. Visavam-se sobretudo dois objectivos:

         por um lado, estabelecer as bases da construção de uma ciência unitária;

         por outro, imunizar a ciência contra toda e qualquer contaminação metafísica (…) [26].


 


 


"O método que se adopta na prossecução de tais objectivos  é o método da análise lógica de Russel que (…) deveria conduzir à erradicação dos problemas tradicionais da filosofia (…) [27].



 


 


"… face a qualquer enunciado , se passar agora a procurar, não decidir  imediatamente a sua verdade ou falsidade mas, antes, determinar qual a sua significação. Deste modo, o que neste passo se estabelece é um novo critério, que é um critério de significação que visa fundamentalmente distinguir  dois tipos de enunciados: os que têm e os que não têm sentido.


 


 


"São enunciados com sentido os que podem ser verificados pela análise lógica remontando — se não se tratar de um enunciado analítico, tautológico — aos enunciados mais simples que se refiram aos dados da experiência;



 


 


“… são enunciados sem sentido os  que não têm referência na experiência intersubjectiva, não são verificáveis, limitam-se a exprimir "estados de alma" e a contribuição, por isso, para o desenvolvimento de domínios como os da arte, da música ou da poesia" [27].



 


 


"O positivismo lógico conjuga duas tradições, a tradição empirista que valoriza a experiência sensível como única base sólida de conhecimento e a tradição teórica de matriz lógica em que se situam Frege, Russel e ainda o Wittgenstein do Tractatus :



 


 


"Caracterizámos", diz o Manifesto, "a concepção científica do mundo por duas determinações. Em primeiro lugar, é empirista e positivista. O único conhecimento que existe vem da experiência, repousa sobre o que é dado imediatamente. Traça-se, deste modo, a fronteira que delimita o conteúdo  de qualquer ciência legítima. Em segundo lugar, a concepção científica do mundo caracteriza-se pela aplicação de um certo método que é o da análise lógica" [citação extraída de: A. Soulez (org.), Manifeste du Cercle de Vienne et autres écrits, Paris, PUF, 1985, p. 118] (…) [27].



 


 


 


•      "A Wittgenstein é em geral atribuída a paternidade do princípio de verificação — "para poder dizer: "p" é verdadeiro (ou falso), tenho que ter determinado, sob que condições eu chamo a "p" verdadeiro. E assim determino o sentido da proposição" (Tractatus, 4.063, cf. Também 5.604, 6.1 e 6.11) —, cuja importância para os trabalhos do Círculo foi determinante, apesar das querelas sobre o modo de o entender e de o aplicar que logo se desencadearam, nomeadamente em torno da sua versão mais estrita e canónica, que estipula de um modo preciso que a significação de uma proposição é  o seu método de verificação" [27-28].


 


 


 


Carnap e o aperfeiçoamento (torná-lo menos rígido) do método lógico
"É neste contexto que em 1928 Carnap procura, com a obra A Construção Lógica do Mundo, estabelecer um método que permite decidir de um modo claro em que situação se pode dizer que uma proposição tem ou não sentido, o que impunha previamente a formulação de um sistema no quadro do qual se considera que os enunciados falam apenas de conceitos, ou objectos, pelo que o que interessa é construir, a partir dos conceitos e das suas relações básicas, o sistema dessa totalidade conceptual.
Carnap parte das experiências elementares de autoconsciência, do que, algo impropriamente, se pode designar por "ego", procurando a partir daqui, e passando pelos objectos dos sentidos, pelos objectos físicos e pelos objectos culturais, chegar à construção desse sistema" [28].


 


 


".. um enunciado com sentido é aquele que remete para os objectos do sistema construtivo (..) " (articula análise lógica com avaliação empírica da verdade). Parte também do fisicalismo nesta parte empírica (abandona o aspecto mais fenomenal): "..é possível definir em termos de elementos observáveis qualquer conceito científico…" [28]


 


 


Mas há um problema: existem enunciado científicos que não se podem verificar desta forma.
Solução de Carnap:
"distinguir entre confirmabilidade e testabilidade conforme se pode proceder de facto às observações necessárias ou, apenas, imaginá-las" [28]
" distinguir entre questões internas — questões no âmbito do paradigma: "há algum número primo superior a 1?"; e questões externas — "os números existem?" [29].
Mas Carnap tende a afastar-se do seu objectivo inicial: "a indução não visa contribuir directamente para o estabelecimento de leis, mas antes estabelecer qual o grau de confirmação da hipótese em estudo…" [29].
Próximas aulas: aparece cada vez mais o problema da significação que Popper (em certa medida), Wittgenstein, Kuhn e Rorty vão acentuar completando a viragem na escola analítica anglo-saxónica.


 


 


Bibliografia

Manuel Maria Carrilho, A filosofia das ciências. De Bacon a Feyerabend, Lisboa, Ed. Presença, 1994, pp. 22-27

Vários (1999), “Kant Emmanuel, ou, en allemand, Immanuel” in: http://www.webencyclo.com/ , [consultado em 20 de Outubro de 2001], Éditions Atlas.

Vários (1999),  in: http://www.webencyclo.com/ , [consultado em 20 de Outubro de 2001], Éditions Atlas.

Vários (2001), “Positivism”, in Dictionary of Philosophy, London, Progress Publishers in http://www.marxists.org/reference/subject/philosophy/help/mach1.htm , [consultado em 20 de Outubro de 2001].


 

Quarta-feira, 2 de Novembro de 2005

Exercícios de preparação para o teste a partir da aula teórica nº 4 - 2 Nov. 2005

 
•Exercícios de preparação para o teste a partir da aula teórica nº 4 - 2 Nov. 2005
 
•Faça uma re-escrita dos seguintes textos de Hume usando palavras e exemplos que lhe sejam familiares. O importante é entender o que escreve. Utilize o dicionário de língua portuguesa.
Envie, até 15 de Novembro de 2005,  para o e-mail do blog: jpneves2006@yahoo.com.br
 
As melhores respostas serão colocadas neste blog.
 
 
•Texto 1
 
•"Um corpo de dez onças erguido em qualquer balança serve de prova de que o contrapeso excede dez onças, mas nunca pode fornecer uma razão de que ele exceda uma centena. Se a causa, para algum efeito, não for suficiente para o produzir, devemos ou rejeitar essa causa, ou acrescentar-lhe qualidades tais que lhe dêem uma justa proporção ao efeito" (1985, XI).
•
 
Texto 2
 
•"...mas se lhe atribuirmos mais qualidades ou afirmarmos que ela é capaz de produzir outros efeitos, podemos apenas conceder a permissão de conjecturas e supor arbitrariamente a existência de qualidades e energias, sem razão ou autoridade" (1985, XI).
•
 
Bibliografia
 
•Hume, David, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Edições 70, 1985 [secção II, secção IV, secção V e secção XI].
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Uma pergunta sobre os métodos de avaliação

Uma aluna escreveu:
Boa tarde professor.
Sou uma aluna do segundo ano de Sociologia mas que ainda tem a cadeira
leccionada pelo senhor professor ( Metodologia das Ciencias Sociais).
Por vezes, é impossivel assistir às suas aulas por questões exteriores à
universidade. Gostaria de saber, se o método de ensino, os métodos de
avaliação, assim como os métodos dos exames e o trabalho prático, são iguais  aos do ano lectivo passado, para me poder orientar melhor e organizar o meu estudo.
Com os melhores cumprimentos, esperando por uma resposta.

Resposta:

Olá!

No essencial, o programa e os objectivos serão muito semelhantes. Pode, no entanto, acompanhar as aulas (com essas pequenas alterações) através do weblog da disciplina disponível em:

http://metodologia.blogs.sapo.pt
 
Saudações cordiais
 
do
 
José Pinheiro Neves
 

 

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