Quarta-feira, 24 de Novembro de 2004

Para o Trabalho prático: textos fundamentais de metodologia em francês na WEB

Podem encontrar vários textos originais (francês) sobre metodologia para as ciências sociais, que podem ser usado no trabalho prático, em:

http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/collection_methodologie/methodologie.html

Nota: o texto a escolher deverá ser comunicado ao docente. Irei também disponibilizar outras listas de textos em Português, Inglês e Espanhol.
Terça-feira, 23 de Novembro de 2004

Resumo da aula teórica de 22 de Novembro de 2004



•       Universidade do Minho


•       Curso de Sociologia – 1ºano - Metodologia das ciências sociais – Docente: José Pinheiro Neves


•       Resumo da aula teórica de 22 de Novembro de 2004 (2ªs, 16-18h - A4 – Comp. 1).


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•       Aula de 22/11/2004


•       Nesta aula, iremos ver como a filosofia das ciências se desenvolveu após as respostas iniciais de Bacon e Hume. Assim, a questão continua a ser a mesma. Qual é a definição de ciência de Kant e dos autores que, mais tarde, acentuaram a componente positivista (Mill, Comte, e outros, incluindo o neo-positivismo)? Como veremos em seguida, há diferenças entre Kant e os positivistas. No entanto, a leitura de Kant não é consensual. Apenas no século XX, se retomará o problema de Hume e será tida em conta uma interpretação de Kant mais construtivista.


•       1 – o ponto de vista de Kant;


•       2 – o ponto de vista dos diversos positivismos


      a) O positivismo lógico de Mill


      b) O empiro-criticismo de Macht


      c) o neo-positivismo lógico do Círculo de Viena.


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1 – O ponto de vista de Kant



 Immanuel Kant - Filósofo alemão (Königsberg 1724 - id. 1804).

Influenciado pelo racionalismo de Christian Wolff (expõe de forma dogmática a doutrina de Gottfried Wilhelm Leibniz).

O choque decisivo que o convence a envolver-se mais no trabalho filosófico é a leitura dos escritos de David Hume. Este autor «desperta-o do seu sono dogmático» e indica-lhe a tarefa essencial da época: perante os progressos prodigiosos realizados num século e metade pela filosofia natural - que chamamos hoje a física (Galileu, Newton) - e perante as perturbações das ideias morais, políticas e religiosas, trata-se de definir os poderes e os limites da razão: o que posso eu conhecer?  O que devo fazer? O que devo esperar?”

 “Com cinquenta e sete anos, em 1781, publica a sua obra fundamental: «A Crítica da razão pura». Desenvolve, numa argumentação meticulosa e com um rigor sem similar na progressão do pensamento, os princípios do " criticismo" e a teoria do conhecimento que corresponde aos sucessos das ciências experimentais.
O ponto de partida da investigação é uma verificação, que tem em conta a solidez da matemática, provada na antiguidade, os progressos recentes e incontestáveis da física, e, em oposição, a estagnação da especulação filosófica metafísica e teológica, desde a sua fundação com Platão e Aristóteles.



 


 


Kant formula esta questão fundamental:
      - quais condições em que pode haver conhecimento (isto é: como é necessário conceber o assunto para o conhecer e como conceber o objecto conhecido, ou a conhecer?), sendo naturalmente que este existe, dado que o percebemos, dado que Copérnico, Galileu e Newton construíram a física matemática, e dado que os metafísicos e os teológicos discutem a questão de Deus, da Alma e do mundo?
A análise crítica de Kant é demasiado detalhado para que se possa resumir as suas diversas etapas; mas, para se ter uma ideia da importância do seu criticismo, é suficiente assinalar os resultados principais do seu trabalho:

em qualquer conhecimento, há qualquer coisa de irredutível que não pode ser deduzido, que constitui a matéria do conhecimento e que pertence à experiência sensível;

2) esta efectua-se necessariamente no âmbito dos a priori do espaço e do tempo;
 
3) contrariamente ao que afirma o empirismo, o conhecimento não se reduz a um desenvolvimento da experiência sensível, dado que intervêm a actividade intelectual, o conhecimento que se tem do assunto, que organiza a priori o material sensível de acordo com regras formais; há uma ordem anterior (por exemplo, a relação da causa e efeito);

4) esta actividade intelectual é o próprio dinamismo do sujeito, do EU conhecedor”.


 


 


“Assim, o mundo percebido, sobre o qual o físico trabalha por abstracções para elaborar o saber experimental, é feito de uma matéria irredutivelmente dada e de uma forma que lhe impõe-lhe o acto de entendimento, de conhecimento”.

Desta maneira, Kant funda a ciência experimental: esta pressupõe, com efeito, que há uma ordem da natureza, as leis de causalidade, etc., e esta ordem é a que o intelecto impõe a partir do momento em que ele conhece; mas supõe também que, para conhecer determinada lei, é necessário recorrer à experiência sensível, ao contacto com o dado.

Desta maneira, Kant explica igualmente o falhanço da metafísica passada: esta, por conseguinte, baseia-se numa experiência limitada, faz funcionar a actividade intelectual no vazio, sem nunca recorrer mais à experiência, e, sempre à procura da " determinação integral ", produz o ser de razão, das entidades tais como: eu, o mundo e Deus, ao qual atribui arbitrariamente, e sem outro controlo que o raciocínio, determinada propriedade”.

In Vários (1999), “Kant Emmanuel, ou, en allemand, Immanuel” in: http://www.webencyclo.com/ , Editions Atlas.

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2 – O ponto de vista dos diversos positivismos.
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 A) O que é o positivismo? Não haverá diferentes positivismos?
 


O que é o positivismo? É uma tendência na filosofia que considera as ciências (empíricas) naturais como a única fonte do conhecimento e rejeita o valor cognitivo do estudo filosófico.

 Positivismo emergiu como resposta à inabilidade da filosofia especulativa (por exemplo, o clássico
idealismo alemão) para resolver os problemas filosóficos que se tinham levantado em consequência do desenvolvimento científico.



 


 


O positivismo foi fundado por Auguste Comte, que introduziu o termo positivismo. Historicamente, há três fases no desenvolvimento do positivismo.
 

1 - Os expoentes do primeiro positivismo foram Comte, E. Littré e P. Laffitte em França, J S Mills e Herbert Spencer em Inglaterra. Ao lado dos problemas da teoria do conhecimento (Comte) e da lógica (Mills), o lugar principal no primeiro Positivismo foi atribuído à sociologia (ideia de Comte de considerar a sociologia como base da ciência, da teoria orgânica de Spencer's da sociedade).


2 - A ascensão da segunda fase do Positivismo – empirico-criticismo –, entre 1870 e 1890, é associada a Ernst Mach e a Avenarius que renunciaram mesmo ao reconhecimento formal dos objectos reais objectivos, que era uma das características do primeiro Positivismo. Em Mach, os problemas da cognição foram interpretados do ponto de vista do psicologismo extremo, que se estava fundindo com o subjectivismo.




 


 


3 - A ascensão e a formação do último Positivismo, ou o neo-positivismo, estão ligadas à actividade do círculo de Viena (O. Neurath, Carnap, Schlick, Frank e outros) e da Sociedade de Berlinense para a Filosofia Científica (Reichenbach e outros), que combinou várias tendências: atomismo lógico, positivismo lógico, semânticas (perto destas tendências são o operacionalismo de Percy Bridgman e o pragmatismo de William James e outros).


O aspecto principal do terceiro positivismo centra-se no exame dos problemas filosóficos da linguagem, da lógica simbólica, da estrutura das investigações científicas. Renunciando ao psicologismo, os expoentes do terceiro positivismo tentaram reconciliar a lógica da ciência com a matemática, uma formalização dos problemas epistemológicos”.


Vários (2001), “Positivism”, in Dictionary of Philosophy, London, Progress Publishers,  in http://www.marxists.org/reference/subject/philosophy/help/mach1.htm , consultado em 20 de Outubro de 2001.


 


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Uma pequena nota: qual a diferença entre o empirismo (ou empiricismo) e o racionalismo?

A metafísica (filosofia) moderna, a partir de Descartes, coloca no centro da sua investigação a pergunta da natureza, o funcionamento e os limites do conhecimento, o debate limita-se entre duas posições extremas: o empirismo e o racionalismo.

O empirismo

A filosofia empirista (John Locke, David Hume) toma, como ponto de partida, a constatação que a experiência é indispensável.

E radicaliza-se afirmando que a experiência do espírito é como uma tábua rasa ou como uma superfície virgem sobre a qual o contacto com o real vem imprimir marcas, que gradualmente se aprofundam e se fixam até constituírem, pela repetição das semelhanças e das diferenças, noções.

Estas tornam-se assim, quando cada uma é associado a um nome, os eixos ao redor dos quais se organizam os conhecimentos. A linguagem transmite estes conhecimentos, que se aperfeiçoam em função de melhoramento progressivo da experiência.




 


 


O racionalismo

Opondo-se ao empirismo, o racionalismo clássico apresenta um forte argumento: esta concepção (o empirismo), convenientemente muito clara, pressupõe, pelo menos, uma actividade do espírito que classifica os vestígios nascidos de experiência, que reúne o semelhante e distingue o dissimilar, que possui por conseguinte princípios a partir dos quais são produzidas as noções.

Um espírito reduzido a uma simples mesa rasa recolheria sem ordem
(e sem nenhuma possibilidade de classificação a não ser o próprio dado) os vestígios múltiplos das experiências na sua diversidade indefinida.

É necessário pressupor que existe no espírito, criado por Deus ou por pela natureza, aquilo que Descartes chama "sementes de verdades", que formam o núcleo inato do conhecimento.

A experiência apenas intervém para despertar estas ideias primeiras e constitutivos, e para fornecer o material que, a partir destas, permitirá o fabrico das ideias complexas.


‘Empirisme et rationalisme’ in ©Webencyclo des Éditions Atlas 2001 - Tous droits réservés

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Empirismo, substantivo.

Doutrina filosófica de acordo com a qual o conhecimento decorre inteiramente da experiência sensível.

Este termo é procedente do grego empeiria, “experiência”.


 


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a) - Os expoentes do primeiro positivismo


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(o positivismo substantivo de Comte será referido na segunda parte do programa com Durkheim)


 


O PRIMEIRO POSITIVISMO
O LÓGICO


J. Stuart Mill  - o triunfo do indutivismo
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"Para a filosofia das ciências seria todavia  a análise do processo indutivo o aspecto  central que, mais tarde, haveria de ser retido e valorizado. E digo mais tarde porque no imediato ele foi ignorado para, no século seguinte, ser quase totalmente esquecido, particularmente devido ao vigor da defesa do indutivismo feita por J. Stuart Mill" [22].



 


 


"Pode-se dizer que, no essencial, Mill retoma a inspiração baconiana as elaborar o seu System of Logic (1843), no qual apresenta os procedimentos indutivos como métodos, conformes às exigências empiristas, da descoberta de leis e do estabelecimento da verdade. Atacando o intuicionismo e afastando-se das teses humianas, Mill apresenta o conhecimento científico como o modelo de racionalidade que (…) se deve procurar".
"Para Mill a indução baseia-se num pressuposto central, o da regularidade da natureza, segundo o qual o que aconteceu uma vez  voltará sempre, em circunstâncias semelhantes, a ocorrer de novo.


 


 


Métodos para evitar  erros quando se aplica a indução:

concordância; diferença; variações concomitantes; resíduos [23].


 


 


"O estabelecimento destes cânones da investigação científica deu origem à constituição de uma das mais importantes e difundidas concepções  da filosofia da ciência, o indutivismo, que se pode sintetizar enunciando os seus 3 princípios fundamentais:

1          antes de mais, o próprio princípio da indução que estabelece  que há uma forma de, a partir da acumulação de factos singulares, inferir enunciados universais, de tal modo que de enunciados verdadeiros que descrevem observações e experiências é possível inferir leis;
2          seguidamente o princípio de acumulação, que considera o conhecimento científico como o resultado de factos bem estabelecidos, a que progressivamente se acrescentaram outros sem que os primeiros se alterem;
3          por fim, o princípio de confirmação, que articula a plausibilidade das leis com o número de instâncias a que o fenómeno a que se refere a lei foi submetido. [24]



 


 


O debate entre Mill e Whewell (indução versus hipótese)


"Pode dizer-se que a filosofia das ciências dos séculos XIX-XX se caracteriza, no essencial, por uma permanente discussão destes princípios [do indutivismo], matizando-se as posições que vão da sua rejeição liminar até tentativas de reformulação que, de algum modo, prolongam a inspiração baconiana" [25].

É de realçar que, mesmo no tempo de Mill, esses debate esteve presente . Vejamos esse debate em pormenor porque ele será paradigmático da evolução posterior.


 


 


"É de resto à luz desta situação que, logo no século XIX, se deve compreender a controvérsia entre Mill e Whewell com o papel da teoria na condução da actividade científica; à insistência quanto à origem empírica do conhecimento contrapunha Whewell o papel interventor do sujeito.

Whewell sustentava que o conhecimento resulta da articulação das sensações com as ideias, sendo estas que organizam e orientam aquelas (…). E, assim concebida , a actividade científica não procede tendo por centro a indução, por muito que — como Mill fez, reformulando profundamente as tábuas — se sofistique a sua metodologia, mas antes tendo por motor a hipótese" [25].

Contudo, as teses dominantes foram as de Mill, nomeadamente na emergência do que se convencionou  chamar de positivismo lógico, como veremos em seguida.


 


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b) - A ascensão da segunda fase do Positivismo – empirico-criticismo


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Desenvolve-se entre 1870 e 1890, e é associada a Ernst Mach e a Avenarius que renunciaram mesmo ao reconhecimento formal dos objectos reais objectivos, que era uma das características do primeiro Positivismo. Em Mach, os problemas da cognição foram interpretados do ponto de vista do psicologismo extremo, que se estava fundindo com o subjectivismo.


"Vislumbra-se aqui a grande viragem que se dá na filosofia das ciências nas primeiras décadas do século XX. A sua origem encontra-se nas cidades de Berlim e de Viena: em Berlim, em torno da Sociedade de Filosofia Empírica, de Reichenbach, em Viena, em torno da Associação Ernst Mach, animada por Schlick” (Carrilho, 1994).


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c) - A ascensão e a formação do último Positivismo, ou o neo-positivismo (círculo de Viena – 1929)


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O positivismo lógico ou neo-positivismo (Círculo de Viena)


 


"O grupo de Viena, que pouco mais tarde se tornará o Círculo de Viena, adquirirá no entanto rapidamente uma acentuada preponderância, nomeadamente com a publicação, em 1929, de um texto que é assinado pelo filósofo Carnap, pelo matemático H. Hahn e pelo sociólogo O. Neurath, e que se intitula A concepção científica do  mundo: o Círculo de Viena.


 


 


"Com este texto  — que se tornará conhecido como o manifesto do Círculo e a que se atribui um papel fundador no movimento do empirismo lógico — procura-se sobretudo lançar as bases  de um vasto  movimento de reformulação da compreensão e análise do espírito humano, com destaque para o conhecimento científico. Visavam-se sobretudo dois objectivos:

         por um lado, estabelecer as bases da construção de uma ciência unitária;

         por outro, imunizar a ciência contra toda e qualquer contaminação metafísica (…) [26].



 


 


"O método que se adopta na prossecução de tais objectivos  é o método da análise lógica de Russel que (…) deveria conduzir à erradicação dos problemas tradicionais da filosofia (…) [27].



 


 


face a qualquer enunciado , se passar agora a procurar, não decidir  imediatamente a sua verdade ou falsidade mas, antes, determinar qual a sua significação. Deste modo, o que neste passo se estabelece é um novo critério, que é um critério de significação que visa fundamentalmente distinguir  dois tipos de enunciados: os que têm e os que não têm sentido.


 


 


"São enunciados com sentido os que podem ser verificados pela análise lógica remontando — se não se tratar de um enunciado analítico, tautológico — aos enunciados mais simples que se refiram aos dados da experiência;



 


 


“… são enunciados sem sentido os  que não têm referência na experiência intersubjectiva, não são verificáveis, limitam-se a exprimir "estados de alma" e a contribuição, por isso, para o desenvolvimento de domínios como os da arte, da música ou da poesia" [27].



 


 


"O positivismo lógico conjuga duas tradições, a tradição empirista que valoriza a experiência sensível como única base sólida de conhecimento e a tradição teórica de matriz lógica em que se situam Frege, Russel e ainda o Wittgenstein do Tractatus :



 


 


"Caracterizámos", diz o Manifesto, "a concepção científica do mundo por duas determinações. Em primeiro lugar, é empirista e positivista. O único conhecimento que existe vem da experiência, repousa sobre o que é dado imediatamente. Traça-se, deste modo, a fronteira que delimita o conteúdo  de qualquer ciência legítima. Em segundo lugar, a concepção científica do mundo caracteriza-se pela aplicação de um certo método que é o da análise lógica" [citação extraída de: A. Soulez (org.), Manifeste du Cercle de Vienne et autres écrits, Paris, PUF, 1985, p. 118] (…) [27].



 


 


 


•        "A Wittgenstein é em geral atribuída a paternidade do princípio de verificação — "para poder dizer: "p" é verdadeiro (ou falso), tenho que ter determinado, sob que condições eu chamo a "p" verdadeiro. E assim determino o sentido da proposição" (Tractatus, 4.063, cf. Também 5.604, 6.1 e 6.11) —, cuja importância para os trabalhos do Círculo foi determinante, apesar das querelas sobre o modo de o entender e de o aplicar que logo se desencadearam, nomeadamente em torno da sua versão mais estrita e canónica, que estipula de um modo preciso que a significação de uma proposição é  o seu método de verificação" [27-28].


 


 


 


Carnap e o aperfeiçoamento (torná-lo menos rígido) do método lógico
"É neste contexto que em 1928 Carnap procura, com a obra A Construção Lógica do Mundo, estabelecer um método que permite decidir de um modo claro em que situação se pode dizer que uma proposição tem ou não sentido, o que impunha previamente a formulação de um sistema no quadro do qual se considera que os enunciados falam apenas de conceitos, ou objectos, pelo que o que interessa é construir, a partir dos conceitos e das suas relações básicas, o sistema dessa totalidade conceptual. Carnap parte das experiências elementares de autoconsciência, do que, algo impropriamente, se pode designar por "ego", procurando a partir daqui, e passando pelos objectos dos sentidos, pelos objectos físicos e pelos objectos culturais, chegar à construção desse sistema" [28].


 


 


".. um enunciado com sentido é aquele que remete para os objectos do sistema construtivo (..) " (articula análise lógica com avaliação empírica da verdade). Parte também do fisicalismo nesta parte empírica (abandona o aspecto mais fenomenal): "..é possível definir em termos de elementos observáveis qualquer conceito científico…" [28]


 


 


Mas há um problema: existem enunciado científicos que não se podem verificar desta forma.

Solução de Carnap
: "distinguir na entre confirmabilidade e testabilidade conforme se pode proceder de facto às observações necessárias ou, apenas, imaginá-las" [28]
" distinguir entre questões internas — questões no âmbito do paradigma: "há algum número primo superior a 1?"; e questões externas — "os números existem?" [29].

Mas Carnap tende a afastar-se do seu objectivo inicial: "a indução não visa contribuir directamente para o estabelecimento de leis, mas antes estabelecer qual o grau de confirmação da hipótese em estudo…" [29].

Aparece cada vez mais o problema da significação que Popper (em certa medida), Wittgenstein, Kuhn e Rorty vão acentuar completando a viragem na escola analítica anglo-saxónica.


 


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Bibliografia



Manuel Maria Carrilho, A filosofia das ciências. De Bacon a Feyerabend, Lisboa, Ed. Presença, 1994, pp. 22-27

Vários (1999), “Kant Emmanuel, ou, en allemand, Immanuel” in: http://www.webencyclo.com/ , Éditions Atlas.

Vários (1999), “Empirisme et rationalisme” in: http://www.webencyclo.com/ , Éditions Atlas.

Vários (2001), “Positivism”, in Dictionary of Philosophy, London, Progress Publishers in http://www.marxists.org/reference/subject/philosophy/help/mach1.htm , Data de acesso: 20 de Outubro de 2001.





 


 


 

Terça-feira, 16 de Novembro de 2004

Aulas teórica de 15 de Novembro de 2004


 


•      Universidade do Minho


•      Curso de Sociologia – 1ºano – Metodologia das ciências sociais – Docente: José Pinheiro Neves


•      Resumos das aulas teóricas de 15 de Novembro de 2004 (2ªs, 16-18h - A4 – Comp. 1).


•      Aula de 15/11/2004


 


•      Nesta aula iremos ver duas formas de responder à questão:


•     O que é a ciência?


•      1 – O ponto de vista do fundador do método científico Francis Bacon;


•      2 – O ponto de vista de um filósofo que despertou Kant do seu sono dogmático: David Hume


•      3 - Conclusão.


  



 


•    1º – o ponto de vista de Francis Bacon


•      Francis Bacon, filósofo inglês, 1561-1626


 


•      No seu livro “A nova lógica”, Bacon procura caracterizar uma estratégia metodológica alternativa à lógica aristotélica até então largamente aceite. (... )[que passa por] distinguir duas vertentes da compreensão da natureza: a interpretação e a antecipadora.


 


•      Vida


•      Francis Bacon nasceu no dia 22 de Janeiro de 1561 na York House, Londres. A mãe era linguista e teóloga, e não tinha dificuldade em se corresponder em grego com bispos. Tornou-se instrutora do filho e não poupou esforços para que ele tivesse instrução. Bacon frequentou a Universidade de Cambridge, e viveu também em Paris. Começou a sua carreira de homem político e jurista, antes sob a rainha Isabel, e, depois, sob Jaime I, subindo até aos mais altos cargos: advogado geral em 1613, membro do Conselho particular em 1616, chanceler do reino em 1618. Foi agraciado por Jaime I com os títulos de Barão de Verulamo e Visconde de S. Albano.


 


 


 


•      Entretanto foi acusado de concussão [desvio de dinheiros praticado por funcionário público] e condenado pelo Parlamento a uma multa avultada. Perdoado pelo rei, retirou-se para as suas terras, dedicando-se inteiramente aos estudos. Faleceu em 1626.


 


•       P. 2


 


•      A antecipação move-se entre coisas e acontecimentos particulares e princípios absolutamente gerais. .. satisfaz-se com a indicação dos axiomas intermédios que permitem passar dos princípios ao mundo das coisas e vice-versa.


 


•      P. 3


 


 


•      Pelo contrário, a interpretação  aposta antes no movimento gradual mas constante que, metodicamente enquadrado, permite chegar aos princípios a partir das coisas e dos acontecimentos particulares. (...)


 


•       P.  4


•      Como é que chegou a esta ideia que será a base do nosso conhecido método científico?


 


 


•      Estranhamente, vou defender uma tese que coloca em causa esta ideia feita. Talvez Bacon tenha sugerido uma outra coisa DIFERENTE do método científico actual.


 


 


•      1º Bacon insere-se no debate filosófico da época. Sugere que se entre em ruptura com Aristóteles. Como?


 


•        P. 5


 


•      Bacon partiu de Aristóteles na quádrupla doutrina causal. Aristóteles falava de causa material, de causa eficiente, de causa formal e causa final, como das quatro pré condições necessárias para a existência ou compreensão de qualquer coisa.


•      Por exemplo, numa estátua a causa material é o mármore; a causa eficiente seria o escultor; a causa formal seria a forma que fez aquele que moldou o mármore, e a causa final seria a razão pela qual fez a estátua.


 


•        P.  6


 


•      Bacon recusava este emprego das causas finais na filosofia natural. Não considerava útil perguntar para quê as coisas são como são [final]. Contudo retia as outras três causas, como seria de esperar, mas dando-lhes uma volta.


•      O objectivo de Bacon (…) era sobre induzir novas naturezas num dado corpo. Para fazer isso, era necessário ter um conhecimento das causas. Mas é possível colocar esse conhecimento e poder a dois níveis. Se, por exemplo, se sabe como tornar incorruptível o cristal e inoxidável o ferro, então conhecer-se-á tanto as causa materiais como as eficientes  nos dois casos. As causas materiais seriam o cristal e o ferro, e as causas eficientes seriam o procedimento técnico que o tornava incorruptível e inoxidável, respectivamente. Isso seria o conhecimento ao nível inferior.


 


•       P. 7


•      "Um homem que conheça as causa eficientes e materiais — disse Bacon — poderá misturar ou separar ou reajustar ou melhorar coisas já descobertas. Poderá inclusive fazer novas descobertas num material similar e preparado. Mas não poderá deslocar as linhas de união das coisas fixadas solidamente".


•      Este nível inferior do conhecimento constitui o domínio da experientia literata (…) [antecipações da natureza].


 


•       P.  8


 


•      Mas para Bacon isto não era suficiente. Como sabemos, ambicionava uma extensão do poder e do conhecimento humanos mais revolucionária. (…) Deveria ser possível, não só fazer que o ferro seja inoxidável, mas também evitar que qualquer substância tivesse tendência a detiorar-se ao ser exposta. Isto implicava conhecer, não só as causa material e eficiente, mas também a causa formal. Conhecer-se-ia  a forma da permanência na sua natureza especial".


 


 


 


 


•      Vejamos o exemplo da sua investigação sobre o calor a partir do que diziam os gregos clássicos.


 


 


•      "O próprio Bacon dirigiu umas investigações sobre a natureza do calor. (…) … as noções fundamentais correntes na filosofia natural haviam sido elaboradas pelos antigos a partir do conhecimento superficial dos factos. Ele designava o método indutivo dos gregos como sendo de Enumeração Simples. Podemos explicá-lo através do que os gregos diziam do calor e do frio. Analisavam eles as coisas existentes, considerando quatro elementos: a Terra, a Água, o Ar e o Fogo. Dois destes eram quentes por natureza: O ar e o Fogo; dois eram frios: a Terra e a Água e tudo era metido por força nesta classificação superficial. (…)


 


•        P.  11


•      O problema de Bacon era como abrir caminho em direcção a algo mais fundamental. Insistia em que a nova indução  devia cobrir um campo muito mais amplo de factos e que devia trabalhar a informação obtida mediante um novo método que ele designava por método das exclusões.


 


•         P. 12


 


•      "Começando as suas investigações, Bacon lança primeiro quase à sorte um grande número de exemplos que têm como denominador comum a presença do calor. (...) A isto chamava uma Tabela de Essência e Presença, e confiava em que o número e a variedade das suas observações pudessem ser útil. (...) Por essência e presença entendia que tanto a causa profunda do calor como o fenómeno perceptível do calor estão presentes em cada caso" [127].


 


•      Em seguida produziu uma outra tabela em que fala dos casos que, em condições semelhantes, não têm calor; A Tabela do desvio ou ausência em proximidade.


 


 


 


•      "A ideia básica era isolar o objecto de investigação falando de exemplos  como aqueles em que o calor havia estado presente mas que se distinguiam de eles pela ausência de calor. (..) A luz do Sol aparecia como o primeiro exemplo de calor. A luz da Lua  tinha em comum com a luz do Sol que ambas procedem de uma fonte celestial, mas parece carecer de calor. Isto pode ser importante. Bacon chamava a isto um exemplo negativo, e continua em busca de exemplos negativos.


 


•      Não poderia encontrar nenhum exemplo seguro de chama que carecesse de calor, mas menciona o ignis fatuus  e o Fogo de São Telmo (fosforescência[1] no mar), e sugere que se investigue mais estes caos. Também não pode encontrar nenhum exemplo de substância que não se aqueça por fricção, ou de animal que não seja quente.
[1] “fosforescência; substantivo feminino; Física: propriedade que têm certos corpos sólidos de emitir radiações luminosas depois de terem sido expostos à acção da luz, especialmente ultravioleta; fenómeno luminoso que se observa em certas zonas oceânicas, devido à quantidade de animais fosforescentes à superfície”, in Dicionário de Língua Portuguesa, Porto Editora


 


•      Passa por um longo processo, em suma, por um novo exame dos fenómenos naturais , sugerido pelos vinte e sete exemplos positivos nos quais encontrou que estava presente o calor, e encaminhado a encontrar condições semelhantes nas em que estivera ausente o calor. (..) na Tabela do desvio ou ausência em proximidade".


 


•      "Na continuação passou a elaborar uma tabela das variações no grau do calor, tanto no mesmo corpo em tempos diferentes, como num corpo em comparação com outro. Este procedimento (...) leva a uma Tabela dos graus ou Tabela das comparações. Armado com estas tabelas, procede ao labor da Indução mediante o método das Exclusões. (...) Podemos dar uma ideia aproximada de como funcionava este método. Entendia por Exclusão, a recusa de uma teoria falsa.


 


•      De este modo, poderíamos perguntar: é o calor unicamente um fenómeno celeste? Não; os fogos na terra são quentes. É então um fenómeno apenas terrestre? Não, o sol é quente. São quentes todos os corpos celestes? Não, a lua é fria.. Depende o calor da presença num corpo quente de alguma parte constitutiva, como o antigo elemento do Fogo? Não, qualquer corpo se pode tornar quente por fricção. Depende o calor da textura do corpo? Não; um corpo com qualquer textura pode ser aquecido. E assim sucessivamente ". [128]


 


Depois muitas observações, tratava-se de formular uma solução provisória com uma hipótese não como uma antecipação (caso dos gregos) mas com um Começo de interpretação: " "O calor é um movimento de partículas menores dos corpos, nas quais se reprime uma tendência a separar-se. Isto desde logo, supõe um avanço revolucionário em relação à antiga doutrina grega". [129]


 


•      "Uma vez dadas as suas tabelas, ilustrado o seu método de exclusões (...) Bacon fornece em seguida uma lista de nove ajudas adicionais ao intelecto (...). Exemplos privilegiados; apoios à indução; rectificação da indução; variar a investigação segundo a natureza do sujeito; o que deveria ser investigado em primeiro ou último lugar; limites da investigação; Aplicação à prática; Preparações para a investigação; e, por fim, a Escala de Axiomas Ascendente e Descendente [129].


 


•      Destas nove ajudas, maneja só a primeira (...). As outras oito foram sacrificadas à sua decisão de abandonar a lógica e dedicar-se à secção seguinte de The Great Instauration" [129-140] e à escrita de romances de ficção científica (sobre a Atlântida)



 


•      Em seguida, iremos ver uma outra forma de responder à questão:


•     O que é a ciência?


 


•      2 – o ponto de vista de um filósofo que despertou Kant do seu sono dogmático: David Hume


 


 


•      "David Hume morreu aos sessenta e cinco anos, em 2 de Agosto de 1776. Conta-nos o seu melhor biógrafo, Ernest Mossner, que ao passar o seu funeral alguém na rua comentou: "Ora, era um ateu". Ao que outro respondeu:"Não importa, era um homem honesto". E, de facto, não têm conta os testemunhos acerca da sua impecável figura humana" (J. P. Monteiro, 1984: 12).


 


•      Iremos ver exemplos concretos da análise de Hume, a partir de Newton (o seu modelo de ciência). Pretende-se fundamentalmente tornar claro o projecto de Hume: que a actividade científica não se reduz à observação, à primazia do indutivo.


Haverá razões para afirmar que Hume, no textos em que caracteriza a sua ciência do homem, ou nos seus comentários gerais acerca da ciência, nos faz esperar que a sua prática científica seja conforme a um modelo observacionalista?


 


•      Procurarei mostrar que ele não faz nada disso e que, muito pelo contrário, sempre que se refere à ciência, ou à ciência em geral (com a excepção, naturalmente das ciências formais [matemática]), o que ele realmente nos faz esperar é precisamente o que efectivamente faz na sua ciência, ou seja, a invenção de hipóteses acerca de inobserváveis — os princípios, ou qualidades, ou poderes inobserváveis da natureza humana" [42].


 


•    "Ao inferirmos alguma causa particular a partir de um efeito, devemos proporcionar uma ao outro, e jamais nos deve ser permitido atribuir à causa quaisquer qualidades, a não ser as que são rigorosamente suficientes para produzir o efeito.


 


•      Um corpo de dez onças erguido em qualquer balança serve de prova de que o contrapeso excede dez onças, mas nunca pode fornecer uma razão de que ele exceda uma centena. Se a causa, para algum efeito, não for suficiente para o produzir, devemos ou rejeitar essa causa, ou acrescentar-lhe qualidades tais que lhe dêem uma justa proporção que lhe dêem uma justa proporção ao efeito.


Mas, se lhe atribuirmos mais qualidades ou afirmarmos que ela é capaz de produzir outros efeitos, podemos apenas conceder a permissão de conjecturas e supor arbitrariamente a existência de qualidades e energias, sem razão ou autoridade"

[in David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Edições 70, 1985, p. 132 ]






Assim para ele, em relação a "um objecto  ou a um acontecimento natural, toda  a nossa capacidade e toda a nossa penetração são incapazes, sem experiência, de descobrir, ou mesmo de conjecturar, que acontecimento resultará deles, ou a levar as nossas previsões para lá do objecto imediatamente presente à memória e aos sentidos.



Mesmo depois de um caso ou de uma experiência única, em que tenhamos observado que um acontecimento se segue a outro, não estamos autorizados a formar uma regra geral ou a prever o que acontecerá em casos análogos; porque se considerará correctamente como uma temeridade imperdoável julgar todo o curso da natureza por uma experiência isolada, ainda que precisa, ou certa.


Mas quando uma particular espécie de acontecimentos aparece sempre, em todos os casos, conjuntamente com uma outra, não hesitamos muito tempo para prever uma a partir do aparecimento da outra, e para utilizar este raciocínio que é o único que nos pode dar a certeza sobre uma questão de facto ou de existência.  Chamamos então um dos objectos causa e o outro efeito"



David Hume, Enquête sur l'entendement humain (1748), Trad. Francesa, Paris, Aubier Montaigne, 1969, p. 122, citado por Carrilho).





O PROBLEMA DE HUME




“A passagem dos casos particulares observados à expectativa de ocorrências futuras similares — e, portanto, à formulação de um enunciado geral — é um fenómeno que decorre simplesmente do hábito e das crenças que ele suscita, e que não é susceptível de qualquer fundamentação lógica”.  [20]






Um exemplo concreto da prática da ciência daquela época e da posição de HUME



A hipótese da gravidade




Hume refere-se à gravidade newtoniana em três textos. Num deles esse conceito é discutido juntamente com o da inércia:






 


1)                  "Constatamos através da experiência que um corpo em repouso ou em movimento permanece sempre no seu presente estado, até deste ser tirado por alguma nova causa, e que um corpo impelido tira tanto movimento do corpo impulsor como o que ele próprio adquire. Quando chamamos a isto vis inertiae, apenas assinalamos estes factos, sem pretendermos ter qualquer ideia de um poder inerte; do mesmo modo que, quando falamos de gravidade, indicamos certos efeitos, sem abranger esse poder activo".





Noutro texto da mesma obra , a gravidade é apresentada em paralelo com outros princípios naturais:
2)         "A elasticidade, a gravidade, a coesão das partes, a comunicação por impulso; são estas  provavelmente as causas e os princípios últimos que jamais descobriremos na natureza: e poderemos considerar-nos suficientemente felizes se, mediante rigorosa investigação e raciocínio, conseguirmos subir dos fenómenos particulares até,                               ou quase até,    esses princípios gerais" .


 


 


O terceiro texto é do Tratado da natureza humana e, nele, Hume apresenta os casos  em que o conhecimento se dá sem referência directa à experiência passada:
3)         "Podemos em geral observar que em todas as mais fixas e uniformes conjunções de causa e efeitos, como as da gravidade, do impulso, da solidez, etc., o espírito nunca dirige expressamente a sua atenção para qualquer experiência passada" [69].


 


Resumindo…

"Se examinarmos com atenção estes textos, veremos que é difícil, numa primeira observação, encontrar neles uma concepção única e clara da gravidade.
Porque no primeiro diz-se que ela é um efeito, ou efeitos; no segundo, ela aparece como uma causa; e no terceiro ela surge como uma conjunção de causas e efeitos". [69]





"Poderia parecer que os três textos correspondem a três distintas concepções de ciência" [70].
1 - Observacionalismo - forma extrema de positivismo



2 - anti-causalista - relações funcionais entre eventos [Russell]



3 - explicação - adoptada pelos criadores da ciência moderna.





"O estatuto epistemológico da gravidade, nos textos de Hume, aparece como um enigma. Para nos aproximarmos de algo parecido como uma decifração, torna-se necessário examinar mais profundamente a sua filosofia" [73]


"O significado de um termo não é o objecto por ele referido: este é apenas o seu referente. O termo "cadeira", por exemplo tem como referente o objecto que habitualmente designamos por esse nome, mas o seu significado não "é" esse objecto" [84].


Pergunta: "em que termos ela [esta distinção] pode ser aplicada ao problema humeano da gravidade?


Este termo tem como referente uma força inobservável, que é postulada como causa de uma série de fenómenos. Neste sentido, dizer que a gravidade é uma causa ou princípio geral é dizer que o seu referente é uma certa força de atracção, a qual assume, no interior da teoria, o papel explicativo de um princípio causal, e cuja existência real a teoria nos convida a aceitar.


 Da perspectiva referencial é irrelevante  a diferença entre uma causa inobservável como esta e uma causa observável.



O termo "fogo" refere o objecto observável que descobrimos, por inferência causal, ser a causa do calor, e o termo "gravidade" refere a causa inobservável que a nossa teoria descobriu ser a causa do movimento dos planetas e de outros fenómenos — sem que o segundo caso seja, em nada, menos legítimo do que o primeiro.


 


Mas do ponto de vista do significado há diferenças. (…)" [84].
Os termos teóricos distinguem-se dos termos observáveis na medida em que se referem a inobserváveis, e em que a justificação para se postular esses inobserváveis é que a existência destes é a melhor explicação possível para uma dada ordem de fenómenos

""Gravidade", tal como hábito, é um termo teórico.





 


Qual o significado deste termo teórico? …é empírico. (…) indicar o significado empírico de um termo teórico como gravidade consistirá em apontar para os efeitos (..) que são instrumentos dessa comprovação" [85].






1)                  ” do mesmo modo que, quando falamos de gravidade, indicamos certos efeitos, sem abranger esse poder activo".




2) “… e poderemos considerar-nos suficientemente felizes se, mediante rigorosa investigação e raciocínio, conseguirmos subir dos fenómenos particulares até, ou quase até, esses princípios gerias"




 


"Mas o acordo profundo [entre os textos 1 e 2] relaciona-se (..) com a [seguinte] concepção da ciência (…): (..) como explicação causal, usando termos teóricos como princípios gerais capazes de dar conta dos fenómenos visíveis" [86].




Será que isso é assim tão claro?



Voltemos agora ao texto 3 de Hume





"Este [terceiro texto] situa-se no nível da observação vulgar, não científica [refere-se à constatação vulgar  de que os graves caiem para a terra  — com a única diferença que aqui se trata de uma disposição observável dos corpos, e não de uma conjunção], e não se justifica qualquer suspeita de que ele, como poderia parecer, seja caudatário de ciência (…).


Não se trata de ver na gravidade apenas uma relação funcional, trata-se simplesmente (…) de dar um exemplo entre outros de uma conjunção entre causa e feitos observáveis que é familiar a todos (…) [88-89].



 


•      3 - Conclusão




A filosofia da natureza era ainda, tal como no tempo de Bacon, o equivalente da ciência moderna: os filósofos eram cientistas, ou então, como no caso de Hume, inspiravam-se na prática da cientistas com os quais tinham relações de proximidade — Newton.





Este contexto explica algumas contradições, a ambição gestaltica,  ainda — e felizmente — tipicamente renascentista, de não só conhecer mas melhorar, transformar o mundo Hume, tal como  parte Bacon, defendia um naturalismo muito próximo do ecologismo actual.



Um naturalismo "que encara o homem como parte integrante da natureza, e encontra nas forças e nos processos naturais a raiz da natureza humana, da capacidade de conhecer e da direcção dos desejos do homem. Numa recusa de todo o dualismo, o da alma e do corpo, ou o da acção e da natureza”.





A ambição de Hume era global: como conhecer e entender não só a natureza mas também os seres humanos, não no sentido de uma epistemologia rigorosa típica do positivismo posterior mas numa ética humanista (ver o texto sobre David Hume no livro Sociologia, do ISEG).



Este contexto também está presente numa certa ambiguidade, e nalgumas contradições presentes no uso que faz de termos como causa e efeito (ver os seus exemplos de leis de fenómenos físicos estudados por Newton como a gravidade terrestre, a atracção entres os corpos, etc.).



Bibliografia principal:


 


Carrilho, Manuel Maria, A filosofia das ciências. De Bacon a Feyerabend, Lisboa, Editorial Presença, 1994.


Farrington, Benjamin, Francis Bacon. Filósofo de la revolución industrial, Madrid, Ed. Endymion, 1971.


Hume, David, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Edições 70, 1985.


Monteiro, João Paulo, Hume e a Epistemologia, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984.


 


 


 


 


 

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