Quarta-feira, 21 de Abril de 2004

"Constructivismo Social, Hermenéutica y la Sociología del Conocimiento" - Artigo de um sociólogo ale

Constructivismo Social, Hermenéutica y la Sociología del Conocimiento
Bernt Schnettler

Resumen:
El hecho de que la sociología del conocimiento se uniera con la hermenéutica es una de las particularidades de la sociología alemana. La así denominada "sociología hermenéutica del conocimiento" está fundamentada en una tradición de ciencias sociales de expreso carácter centroeuropeo, basada a su vez en la tradición humanística, orientándose igualmente en base al análisis empírico. Partiendo de la teoría de WEBER, la "sociología hermenéutica del conocimiento" recibió su fundamentación fenomenológica por medio de SCHÜTZ y su perfil como sociología del conocimiento por medio de BERGER y LUCKMANN. El objetivo de la "sociología hermenéutica del conocimiento" es la reconstrucción de las "construcciones sociales de la realidad". Aquellos que representan esta corriente sociológica comparten la convicción de que una teoría "pura", desvinculada de la investigación empírica, carece de justificación epistemológica. Acorde a su convicción, los autores expresan un profundo escepticismo frente a cualquier aspiración de establecer una teoría general ahistórica de las ciencias sociales. Por ello se explica la urgente necesidad de continuar con la reflexión sobre las bases epistemológicas, la metodología y los métodos de investigación social a seguir. Las diversas contribuciones en el libro tratan de esclarecer los hechos y potenciar con ello el progreso de la disciplina. Según la opinión de los editores del libro se puede concebir la "sociología hermenéutica del conocimiento" como un escepticismo metódico hacia cualquier pretensión de un "conocimiento positivo". Éste pretende provocar un "desencantamiento de las construcciones sociales de la realidad", incluyendo una autocrítica dirigida contra las construcciones propias de los sociólogos. La concepción y práctica científica adoptadas por la "sociología hermenéutica del conocimiento" son de decidido carácter cooperativo, enfatizando el trabajo en equipo – sin llegar, sin embargo, a un colectivismo opresivo – presentándose como una forma de trabajo adecuada para afrontar con éxito los importantes retos que se le avecinan a las ciencias sociales. Tanto su pluralismo interno, su interés y disponibilidad en cooperar con otras corrientes teóricas, como también su capacidad para destapar las causas que llevan al sin sentido social, constituyen destacadas ventajas de la "sociología hermenéutica del conocimiento" frente a otras tradiciones de análisis sociológico más herméticas.

Palabras clave: metodología, métodos, teoría, ciencias sociales, "Sociología Hermenéutica del Conocimiento"


Citação bibliográfica completa:
Schnettler, Bernt (2002, Junho), "Constructivismo Social, Hermenéutica y la Sociología del Conocimiento", Recensão de: Ronald Hitzler, Jo Reichertz & Norbert Schröer (Eds.) (1999). Hermeneutische Wissenssoziologie. Standpunkte zur Theorie der Interpretation [Sociología hermenéutica del conocimiento. Aspectos de una teoría de la interpretación] [10 parágrafos]. Forum Qualitative Sozialforschung / Forum: Qualitative Social Research [On-line Journal], 3(4). Disponível em: http://www.qualitative-research.net/fqs-texte/4-02/4-02review-schnettler-s.htm [data de acesso: 2004, Abril, 20]

Para ver este artigo completo, siga esta ligação na internet:
http://www.qualitative-research.net/fqs-texte/4-02/4-02review-schnettler-s.htm

Quem é o autor? [se tiverem dúvidas podem enviar-lhe um e-mail]
Bernt SCHNETTLER, M.A., nació en 1967, estudió Sociología y Psicología en la Universidad de Constanza, Filosofía e Hispanística en Madrid. Actualmente trabaja como personal docente en la Universidad de Constanza (Alemania) y en la Universidad de St. Gallen (Suiza). Campos de investigación: sociología de la religión, sociología de la organización, métodos cualitativos de la investigación social.

Contacto:

Bernt Schnettler

Fachbereich Geschichte und Soziologie Universität Konstanz D-78457 Konstanz

E-mail: bernt.schnettler@uni-konstanz.de

Terça-feira, 13 de Abril de 2004

"A nossa consciência normal do tempo" Henri Bergson

"Aquilo que demonstra concretamente que a nossa concepção ordinária da duração tende a uma invasão gradual do espaço no domínio da consciência pura, é o facto de, para arrancar ao eu a faculdade de perceber um tempo homogéneo, ser suficiente retirar-lhe essa capa mais superficial de factos físicos que ele emprega como reguladores". "O sonho coloca-nos precisamente nestas condições, porque o sonho, ao reduzir o jogo das funções orgânicas, modifica especialmente a superfície de comunicação entre o eu e as coisas exteriores. Então não medimos a duração, mas sentimo-la; de quantidade passa ao estado de qualidade; a apreciação matemática do tempo transcorrido deixa de fazer-se, cedendo o lugar a um instinto confuso, capaz, como todos os instintos, de cometer grosseiros desprezos e também às vezes de proceder com uma segurança extraordinária". "Inclusive no estado de vigília, a experiência diária deverá ensinar-nos a estabelecer a diferença entre a duração-qualidade, aquela que a consciência alcança de modo imediato, a de que provavelmente se apercebe o animal, e o tempo por assim dizer materializado, o tempo feito quantidade por um desenvolvimento no espaço. No momento em que escrevo estas linhas, soa a hora num relógio vizinho; mas o meu ouvido, distraído, não se apercebe dela até que já soaram vários toques; mas no entanto não as contei. E, não obstante, basta-me um esforço de atenção retrospectivo para fazer a soma dos quatro toques que já soaram, e juntar-lhes os que oiço. Se, entrando em mim mesmo, me interrogo então cuidadosamente sobre o que acaba de ocorrer, dou-me conta que os primeiros quatro sons haviam alcançado o meu ouvido e inclusive comovido a minha consciência, mas as sensações produzidas por cada um deles, em vez de justapôr-se, haviam-se fundido uns nos outros, de tal modo que dotavam o conjunto de um aspecto próprio, de tal modo que faziam dele uma frase musical. Para avaliar retrospectivamente o números de toques, tratei de reconstruir essa frase mediante o pensamento; a minha imaginação fez soar um toque, logo dois, logo três e quando cheguei ao número exacto de quatro, a sensibilidade, consultada, respondeu que o efeito diferia qualitativamente. Havia comprovado, portanto, a sucessão dos quatro toques dados, mas de forma muito diferente da adição e sem fazer intervir a imagem de uma justaposição de termos distintos. Em poucas palavras, o número de toques foi percebido como qualidade, e não como quantidade; a duração apresenta-se assim à consciência imediata e conserva esta forma enquanto não cede o lugar a uma representação simbólica, extraída de extensão". "... distinguimos duas formas de multiplicidade, duas apreciações muito diferentes da duração, dois aspectos da vida consciente. Por debaixo da duração homogénea, símbolo extensivo da autêntica duração, uma psicologia atenta distingue uma duração cujos momentos heterogéneos se penetram; por debaixo da multiplicidade numérica dos estados conscientes, uma multiplicidade qualitativa; por debaixo de eu em estados bem definidos, um eu em que a sucessão implica fusão e organização. No entanto, nós contentámo-nos na maioria das vezes com o primeiro, ou seja, com a sombra do eu projectada no espaço homogéneo. A consciência, atormentada por um insaciável desejo de distinguir, substitui o símbolo à realidade, ou só percebe a realidade através do símbolo. Como o eu, assim reflectido, e também subdividido, se adequa melhor às exigências da vida social em geral e à linguagem em particular, ela prefere-o e perde paulatinamente de vista o eu fundamental". Henri Bergson, Essai sur les données inmédiates de la conscience, Paris, PUF, 39ª Ed., 1889, pp. 94-96
Quinta-feira, 8 de Abril de 2004

Avaliações de Fevereiro de 2004





Avaliação
do teste de 13 Fev 2004 - Metodologia - 1ºano - Curso de Sociologia da UM
Nome Est. Aluno Ex. 13 Fev. 2004
30983 Alcina Marta da Silva Pinheiro trabalhador-estudante  
41451 Alexandrina da Silva Reis ordinário  
41457 Amaro Pereira Leite ordinário  
41999 Ana Filipa Correia Rodrigues ordinário 13
38828 Ana Filipa da Silva Vasconcelos ordinário R
41456 Ana Filipa Ferreira da Silva ordinário 18
41454 Ana Filipa Lourenço Rosa ordinário  
31757 Ana Isabel da Cunha Garcia ordinário 12
39855 Ana Isabel Freitas de Castro ordinário 10
41452 Ana Isabel Machado Costa
Magalhães
ordinário 11
41450 Ana Mafalda Ribeiro Lourenço ordinário 18
42313 Ana Rafaela Alves Ferreira ordinário 16
38799 Ana Rita Pereira Martins ordinário R
41453 Ana Sofia Fernandes da Cunha ordinário R
41459 Ana Sofia Monteiro Mont Alverne
Gama
ordinário 12
41499 Andreia da Conceição Marques
Lobo
ordinário 13
41503 Andreia Sofia Ribeiro da Cunha
Sampaio
ordinário 12
41943 Ângela Manuela de Sousa Gomes ordinário R
41506 Ângela Miranda Oliveira ordinário 12
41822 Ângela Sofia Dias da Silva ordinário 11
41501 Aníbal José Fernandes de
Mendonça Gonçalves
ordinário 13
41725 António Abreu Pereira trabalhador-estudante 17
42315 Arlindo Jorge Ribeiro e Sá
Pereira
trabalhador-estudante  
41508 Bernardete Alcina Vaz Ferreira ordinário 13
41509 Carina Emília Vaz Fernandes ordinário 18
31098 Carla Batista Carvalho ordinário  
37105 Carla Márcia Coutinho Teixeira ordinário  
35809 Carla Sofia Gomes de Azevedo ordinário  
41507 Carlos André Vieira Ferreira ordinário 13
31649 Carlos Duarte Miranda da Silva trabalhador-estudante  
41511 Carlos Manuel Ribeiro de Andrade trabalhador-estudante 16
41504 Catarina Daniela Nunes Calisto ordinário R
42316 Catarina Manuela Cardoso ordinário 12
41505 Catarina Prazeres da Silva ordinário R
25251 Célia Diana Ferreira de Carvalho trabalhador-estudante  
41510 Cláudia Sofia Alves Franco ordinário 10
41497 Daniela Fernanda Sousa Vieira de
Almeida
ordinário R
41498 David Emanuel Pacheco Nunes ordinário 16
41502 Diana da Cunha Borges ordinário R
41823 Diana Isabel Cerqueira Carvalho trabalhador-estudante R
41467 Eduarda Susana Abreu de Freitas ordinário 11
41475 Elisabete Pinheiro Teixeira ordinário 10
35403 Emanuel Fernando Miranda Tavares ordinário D
41726 Esser Jorge de Jesus Silva trabalhador-estudante 19
38758 Eugénia Isabel Sousa Vilela
Machado Lopes
ordinário 12
41474 Francelina Odete Machado de
Oliveira Neiva
trabalhador-estudante 13
38315 Gonçalo Manuel Marinho de
Oliveira Fernandes
ordinário 14
41817 Gracinda Maria Ribeiro Lima de
Barros
trabalhador-estudante R
41825 Helena Marisa Oliveira Meira trabalhador-estudante R
42314 Helga Cristina Garcia Fernandes ordinário 17
31119 Hélio Jesus Pereira Videira ordinário  
41473 Ingrid Martins e Sousa ordinário 16
40112 Isabel Cristina Araújo Pereira ordinário R
41470 Joana Raquel Lopes Sengo Freixo
de Oliveira
ordinário 10
41468 Joaquim Filipe de Sousa Barbosa trabalhador-estudante  
41727 José Pedro Pereira Novais trabalhador-estudante  
38356 José Pedro Sá Pereira da Silva ordinário R
41477 Lara Vanessa Martins da Costa ordinário 12
41495 Lígia Maria Veloso da Cunha ordinário 13
41466 Liliana Alexandra Teixeira
Pereira
ordinário 10
41465 Liliana Soraia Sousa Cabral delegado de turma 14
41819 Luís Filipe Vieira Soares trabalhador-estudante 18
42311 Luisa Maria da Silva Pinto ordinário 15
41816 Madalena Sofia Gomes Cunha ordinário 17
41464 Manuel Fernando Azevedo Pereira trabalhador-estudante R
41463 Maria da Glória Leite de Araújo trabalhador-estudante R
41462 Maria de Fátima Almeida Barbosa ordinário 16
26345 Maria Elisabete Pereira Ribeiro trabalhador-estudante  
39763 Maria Ivone Carvalho Ferreira trabalhador-estudante  
42319 Marisa Sofia Fernandes Ribeiro ordinário 10
42317 Marlene Cristina Gonçalves Lopes ordinário 13
41486 Marta Isabel da Cunha Gonçalves ordinário 16
42318 Mónica Raquel da Costa Machado ordinário 16
41488 Nádia Toledo Paula ordinário 15
41469 Nancy Alves Pereira ordinário 19
41494 Natália Maria Rodrigues Braga ordinário 13
41818 Nuno Ricardo Esteves de Sousa trabalhador-estudante R
41942 Patrícia Domingas Jordão Falcão ordinário 10
33864 Paula Sofia Alfacinha Muacho ordinário  
41821 Pedro Daniel Rodrigues da Costa trabalhador-estudante 10
41820 Pedro Rúben da Silva Barbosa
Freitas Vieira
trabalhador-estudante  
41492 Regina Ferreira Alves ordinário 11
41490 Rosa Maria Ferreira Dias ordinário R
35859 Rui Maciel Simão ordinário 15
21309 Rui Pedro Samarão Pinheiro trabalhador-estudante R
39132 Sandra Patrícia Fernandes
Carvalho
ordinário  
41826 Sandrina de Brito Esteves
Oliveira
trabalhador-estudante 10
41478 Sara Filipa Araújo Fernandes ordinário 11
41487 Sara Lima Franqueira ordinário 10
37065 Sérgio Oliveira Macieira ordinário R
41496 Sílvia Andreia da Mota Gomes ordinário 16
41485 Sílvia Barroso Gonçalves Poças ordinário 12
41484 Sílvia Mota Arada ordinário 13
42312 Susana Isabel da Silva Ferreira ordinário R
41483 Telma Filipa Moreira da Costa ordinário 15
40070 Teresa Dora de Lima Sá Barros ordinário 13
41482 Vanda Raquel Castro Araújo ordinário 10
40380 Vânia Helena Lopes Correia ordinário  
41481 Vânia Maria Moreira de Sousa ordinário 16
41480 Vera de Jesus Barros Carneiro ordinário 10
41824 Vera Lúcia Fernandes Roque ordinário R
41479 Vítor Hugo Miranda Gramoso ordinário  
41728 Vítor José Andrade Lopes da
Cunha
trabalhador-estudante 16


Domingo, 4 de Abril de 2004

O poder da duração

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O poder da duração



Philippe Zarifian



 


 


Instalar-se na duração.



Bergson desenvolve, sobre a questão da duração, diversas aproximações muito convergentes.



 


a) A duração é, acima de tudo, o impulso do passado. E, no caso de um ser humano, é o impulso da memória, em larga parte inconsciente e todavia plenamente presente, como condensação da totalidade da nossa história passada. A nossa duração não é um instante que substitui um outro instante: desta forma, não haveria mais nada que o presente, sem prolongamento do passado na actualidade, sem evolução, sem duração concreta. A duração é o prolongamento contínuo do passado que rói o que vem a seguir e que aumenta enquanto avança [como uma bola de neve].


(…)



 


b) A duração é também, e inseparavelmente, transformação permanente do ser, ser preso no seu movimento de transformação interna. É a nossa individualidade que se alinha a cada instante com a experiência acumulada, que muda sem cessar. Mudando, ela impede um estado fechado em si, idêntico a ele mesmo em superfície, em área, que não se repete jamais em profundidade. É por isso que a nossa duração é irreversível. Nós não seríamos capazes de reviver uma parcela, porque seria necessário começar por apagar a lembrança de tudo o que se seguiu, se desenrolou [com base nos momentos anteriores].


(…)



Bergson apresenta-nos este exemplo simples e divertido. Se quero preparar um copo de água açucarada, tenho algo a fazer – devo esperar que o açúcar derreta. Este pequeno facto é muito importante. Porque o tempo que tenho de esperar não é mais este tempo matemático que seria aplicável efectivamente ao longo da história inteira do mundo material, num momento único essa duração é muito estendida como um golpe no espaço. Coincide com a minha impaciência, ou seja, com certa porção da minha duração em mim, que não é alongada nem contraída à vontade. Mais: não é pensada, é vivida. Devo respeitar uma certa relação entre a duração de açúcar que derrete e a minha própria duração. A impaciência não é outra coisa que o sentir deste constrangimento, a necessidade deste respeito quando ele me incomoda. O indivíduo moderno é particularmente impaciente quando deseja, de uma forma desmedida e frequentemente destrutiva, que o mundo se conforme às suas intenções.



 


 


 


c) A duração é envelhecimento. Este termo por si não designa outra coisa que não seja o nosso avanço irreversível na nossa própria duração. Não é obrigatório tomá-lo com uma conotação negativa. E este envelhecimento é, ele mesmo, acompanhado de um movimento inverso, de renovação permanente. Esta questão é posta a todas as coisas. O universo inteiro envelhece a cada instante. Ao mesmo tempo, não existe lei material ou biológica universal que se aplique tal e qual, automaticamente, a não importa que entidade. Não há mais do que direcções onde a vida lança as espécies em geral. A duração é essa mesma direcção, varia segundo as entidades consideradas e não segue um caminho linear. Cada espécie viva específica (mas é igualmente verdadeiro para as entidades inorgânicas), no acto mesmo pelo qual se constitui, afirma o seu próprio movimento. Não é difícil mostrar que uma árvore não envelhece, dado que os seus ramos terminais continuam sempre jovens, sempre capazes de gerar, por estaca, árvores novas. Mas num tal organismo - que é de resto mais uma sociedade do que um indivíduo, - algo envelhece, podem ser apenas as folhas e o interior do tronco. E cada célula, considerada à parte, evolui de maneira determinada. Podemos, na cultura ocidental do homem moderno apressado e eternamente jovem, fugir à própria ideia de duração e de envelhecimento. Não obstante, essa ideia acaba sempre por nos apanhar. E, na verdade, não é tão bonita uma árvore já velha?



 


(…)



d) A duração é génese, é produção. Face às leis que se satisfazem em estabelecer, do exterior, relações entre os factos, entre momentos recortados na duração, a apreensão da própria duração pressupõe colocar-se do ponto de vista da génese dos fenómenos. É necessário, para isso, distinguir entre a duração substancial das coisas e o tempo disperso no espaço. É necessário ver, no espaço ele mesmo, e na geometria que visa representá-lo, um termo ideal na direcção do qual as coisas materiais se desenvolvem, mas onde elas não são desenvolvidas. Em vez tomar os factos como elementos que se dispersam progressivamente sobre um plano, que são externos uns aos outro e externos ao espírito e que se tenta reconstituir estabelecendo entre si relações, a apreensão da duração pressupõe, pelo contrário, um conhecimento pelo interior, que as apreenderia na sua erupção mesma em vez de as tomar uma vez elas acontecidas, que escavaria assim por debaixo do espaço e do tempo espacializado, que chegaria aos movimentos internos. É necessário partir da duração para ir aos momentos, em vez partir dos momentos para os ligar em duração. A duração real é aquela onde cada forma deriva das formas anteriores juntando aí mais algo, e explica-se por elas na medida em que ela pode ser explicada. Uma experiência de pensamento, que visa apreender esta duração, procura apenas, para além do tempo espacializado onde cremos perceber os rearranjos contínuos entre as partes (tudo muda, mas nada muda), a duração concreta onde se opera sem cessar uma refundação radical de tudo. Ela segue o real em todos as sinuosidades. Não nos conduz, como o método de reconstrução das relações entre os factos isolados, à generalidades abstractas cada vez mais elevadas, andares sobrepostos de um magnífico edifício. Pelo contrário, ela visa apreender a génese e a novidade ao mesmo tempo, solidariamente, no curso de uma mesma duração.



(…)



O acto de desenhar e de pintar, por exemplo, não tem nenhuma relação com o de montar os fragmentos de uma imagem já desenhada, já pintada. Instalar-se na duração, é isso: apanhar o pintor na génese e no movimento mesmo da sua criação artística. Então será possível compreender porque a sua criação é única, ao mesmo tempo que é determinada por uma qualquer pressão social, que é uma condensação da sociabilidade num movimento singular.



Como dizia Espinosa, e Bergson está, sobre este ponto, muito próximo dele, é necessário ir, não dos efeitos às causas, mas das causas aos efeitos. Ou mais exactamente, tomar as causas na sua potência de efeitos. Certamente, esta frase contradiz o sentido comum, e nomeadamente o provérbio que diz que não há efeitos sem causas, fumo sem fogo. Este provérbio é justo no que afirma, sem dúvida, mas inadequado como maneira de pensar os fenómenos. A partir do fumo nunca se reconstituirá em que realmente consiste o fogo. Pode-se opôr-lhe um novo provérbio, o que afirma que não há causa sem efeitos, não há fogo sem fumo. A causa eficiente não é outra coisa: uma causa tomada no seu potencial interno de efeitos, uma causa tomada na duração. A pintura do pintor é a potência de pintar deste indivíduo no acto. E a duração é a melhor testemunha desta potência.



É por isso que de resto, tal como o indica Bergson, é impossível, rigorosamente falando, prever o futuro, dado que cada momento traz o inédito, que se combina com a nossa memória e nos transforma. Se as previsões são apenas extrapolações sobre o futuro a partir de dados e pensamentos presentes (e por conseguinte, de certa forma, uma negação do tempo), se não podemos prever que será o quadro do pintor (e ele mesmo não o pode), podemos no entanto interrogar-nos sobre este futuro, instalando-nos nos potenciais e tendências de transformação, nos processos de produção, instalando-nos na duração



Podemos antecipar, conjecturar, mas não rigorosamente prever. É provavelmente sobre este ponto que a ruptura com o pensamento mecanicista é mais forte. Como poder supor conhecer previamente uma situação que seja única no seu tipo, que ainda não se produziu e que nunca se reproduzirá? A antiga visão dos factos astronómicos, físicos, químicos, todos os que fazem parte de um sistema onde se pensava que eles justapunham-se simplesmente, elementos supostos imutáveis, onde se produziam apenas mudanças de posição, onde não se via o absurdo teórico que era imaginar que as coisas estavam paradas num lugar, onde consequentemente o mesmo fenómeno total ou, pelo menos, os mesmos fenómenos elementares podiam simplesmente repetir-se de acordo com leis conhecidas previamente, podiam assim ser previstos. Mas esta antiga visão da física, apesar da sua utilidade prática, já foi ultrapassada.



 


 


A expansão do universo, um universo que se revela cada vez mais caótico e movimentado, ensina-nos a ver as coisas diferentemente, pensar o universo inteiro como que se ele entrasse num devir [Nota do tradutor: do latim devenire, "chegar a"], que podemos antecipar, mas não prever. Certamente, é verdade que a astronomia continua a prever e esse conhecimento é válido. No entanto, estamos perante um problema de escala de tempos. Por isso, a astrofísica renovou profundamente a visão astronómica.



Actualmente, nenhum cientista em física atribui qualquer crédito à regularidade repetitiva dos movimentos espaciais. Estes são tomados pelo contrário na sua duração, por conseguinte, na sua degradação, mutação, desaparecimento potencial. Que as mutações operam por diferenças e variações infinitesimais ou que procedem por crises, permanece em debate sobre um plano científico. Mas o princípio em si já não é contestado (com excepção, no estado actual do saber científico, das ciências sociais que se têm atrasado consideravelmente neste aspecto). Neste sentido, pode dizer-se acerca do movimento do universo, do curso da vida, da orientação do viver humano, como da consciência que dele podemos ter, que a cada momento inventam algo na (e apesar da) conservação do passado.



Mas contra esta ideia da originalidade e imprevisibilidade absoluta das formas uma larga parte da nossa tradição cultural se insurge. E a oposição é particularmente forte, é necessário reconhecê-lo, na Sociologia, ciência que acabou por assumir o rosto de uma ciência das formas de regulação do social, que tem muita dificuldade em fazer uma ruptura com o pensamento antigo, que tem um prazer evidente em apreender as regularidades. Era de resto um dos raros assuntos sobre o qual Émile Durkheim e Max Weber convergiam metodologicamente, com uma igual rejeição dos acontecimentos (que podiam, conceptualmente falando, apenas ser reduzidos a contingências e excepções deixadas aos historiadores).



 


e) Da duração ao devir. O devir é infinitamente variável Este aqui que vai do amarelo ao verde não se assemelha àquele outro que vai do verde ao azul: são movimentos qualitativos diferentes. Aquele que vai da flor ao fruto, não se assemelha ao que vai da larva à ninfa e da ninfa ao insecto perfeito: são movimentos evolutivos diferentes. A acção de comer ou de beber não se assemelha à acção de bater: são movimentos extensivos diferentes. Estes três géneros diferentes do devir diferem profundamente. O artifício da nossa percepção, bem como o artifício da nossa inteligência ou da nossa linguagem, consistem muitas vezes em fazer extrair destes devires muito variáveis a representação do devir em geral, devir indeterminado, simples abstracção que por ela mesma não diz nada. A esta ideia, sempre igual e algures obscura, ou inconsciente, nós juntamos agora, e em cada caso particular, uma ou muitas imagens claras que representam os estados e que servem para distinguir todos os devires uns dos outros. É nesta composição de um estado específico e determinado com a mudança em geral e indeterminada, que substituímos [Nota do tradutor: e esquecemos] a especificidade da mudança.



(…)



O devir do amarelo ao verde: é um devir qualitativo, releva para as qualidades (para as extremidades). O devir da flor em fruto: é devir evolutivo, releva para a passagem de uma forma a outra. O devir da acção de beber: é um devir extensivo que releva para a intenção, finalidade. As formas que o espírito isola e armazena nos conceitos, não duram muito, elas tendem a confundir-se com a sua própria definição. Simmel, embora seja um imenso sociólogo, não escapa a esta tentação na sua teoria estrutural das formas sociais. Mais tarde, dela partem também alguns sociólogos claramente menos inspirados do que Simmel na tentação nominalista ou convencionalista. Definem formas abstractas e supõem que elas não são mais do que convenções, de puros produtos do espírito ou de combinações sociais. Congelam a realidade nestas convenções e crêem ter tudo dito. Carimbam generalizações vazias sobre os seres sociais concretos que se congelam assim na sua simples enunciação. Serão assim os trabalhadores e os patrões, os dominantes e os dominados, etc. (a lista é mais longa do que podem ser os modos de categorização). É interessante verificar que este abuso da categorização poderá fazer reviver o mito liberal do indivíduo livre: o indivíduo esmagado pela sua categoria ou pela função ou funcionalidade do seu papel ensaia a sua libertação, do jogo de ping pong que nos enterra na ignorância. Indivíduo? Sociedade? É necessário dizê-lo claramente: esta questão que a sociologia clássica acreditou poder resolver é desajustada [não tem sentido].



Nesta visão sociológica, os humanos serão reduzidos a não passarem de portadores das suas formas, das suas representações ou de uma categorização, de uma lista; ou, ainda pior, de seres providos inicialmente de uma total liberdade. Que absurdo e que impasse teórico! Atentemos bem nesta frase de Bergson: "há um devir da criança em homem. Há um devir dos devires. Porque existe a duração". Há, existe devir da criança ao homem. Existe o devir dos devires. Porque hà, existe a duração.



Ter em conta a duração, muda tudo.



A imanência, uma vida, disse Deleuze. A imanência, um devir… [diria Bergson].



 


 


(Extraído de: Philippe Zarifian, Temps et modernité, Paris, Éditions L'Harmattan, 2001)



Este texto está neste sítio da "web":



http://perso.wanadoo.fr/philippe.zarifian/page88.htm



[trata-se de uma página pessoal de um sociólogo francês que podem traduzir para português em: http://trans.voila.fr/ ]



Tradução de Vítor Andrade Cunha aluno do 1º ano do curso de Sociologia da Universidade do Minho (nº41728).



[2 de Abril de 2004]



 




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