Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2004

Problema e resposta: Os neo-positivistas, a teoria da relatividade e a teoria quântica

Professor Neves: Espero ainda vir a tempo de lhe pedir que nos "descodifique", no nosso Blog, o excerto do livro de Manuel Maria Carrilho que abaixo lhe envio:

A teoria da relatividade foi - ou pareceu ser - para os neo-positivistas um aliado importante, porque viam nela, depois de décadas e décadas de impasses no campo da física, um salto decisivo: a "causalidade foi despojada do carácter antropomórfico de "influência" ou de "conexão necessária", e reduzida a uma relação condicional ou de correspondência funcional. Mais, em vez de leis naturais consideradas como estritamente válidas, apareceram leis estatísticas, e chegou-se mesmo, na esteira da teoria quântica, a duvidar cada vez mais de que se possa aplicar o conceito de uma legalidade estritamente causal aos fenómenos que se produzem em pequenas regiões do espaço-tempo. O conceito de probabilidade reduziu-se ao conceito, empiricamente apreensível, de frequência relativa". Carrilho (1994) citando Soulez, 1985, p.123. Esser Jorge, aluno do 1º.ano de Sociologia

Resposta:
Esser
Parece que a chave deste texto se situa logo no início: "A teoria da relatividade foi - ou pareceu ser - para os neo-positivistas um aliado importante". No facto de Carrilho também duvidar desta ideia. Ou seja, a teoria da relatividade (e quântica) pareceu ser um aliado porque melhorou (pode-se dizer assim, simplificando o argumento de Carrilho) o carácter científico da Física moderna. Mas a chave, volto a dizer, está no facto de também poder haver uma outra interpretação que defende o oposto. Por exemplo, o trabalho de Popper pode ir no sentido desta interpretação de melhoria, enquanto que a tese de Kuhn vai no sentido de duvidar desta tese. Espero ter ajudado. Bom trabalho, Esser!

José Pinheiro Neves

Pergunta: posso levar resumos, como consulta, para o exame?

Pergunta: Boa noite, Professor. Gostaria de saber, se possível, se poderia levar resumos, como consulta, para o exame? Obrigado desde já pela sua atenção e tenha um bom fim de domingo. Obrigado e aguardo resposta.


Resposta: Como sabe, sendo o exame de consulta, pode levar os elementos que bem entender. Não poderá, no entanto, utilizar qualquer tipo de dispositivo de comunicação com o exterior, como deve compreender.


Boa sorte!


José Pinheiro Neves


jpneves2004@yahoo.com.br

Pergunta: qual é a finalidade deste site?

Pergunta: olá, professor Neves, sou _____ do 1º ano de sociologia nº_____ . Queria-lhe perguntar: - qual foi o site que deu na última aula e qual é a sua finalidade? Penso que vai funcionar como um chat mas não tenho a certeza... Agradeço resposta.


Resposta: Este site, neste caso trata-se de um Blog, serve para, durante este ano lectivo, ir colocando materiais de apoio e para responder a questões numa lógica temporal. Contudo, os textos das aulas continuam a ser distribuídos via Textos de apoio devido a possíveis problemas com os direitos de autor.
Na prática, funciona assim: um aluno envia-me um mail com um texto, uma pergunta, enfim, até pode ser uma ideia. E eu respondo ou comento para o blog, colectivamente, não referindo o nome da pessoa, excepto se ela não quiser ficar anónima. Este funcionamento parece-me bom pois permite criar uma outra via de contacto entre nós. O que acha? Qualquer sugestão é bem-vinda.


José Pinheiro Neves


jpneves2004@yahoo.com.br

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2004

A teoria da relatividade e a teoria quântica na Física moderna

A teoria da Relatividade


Relatividade, teoria desenvolvida no início do século XX, que, originalmente, pretendia explicar certas anomalias no conceito do movimento relativo, mas, em sua evolução, converteu-se em uma das teorias básicas mais importantes das ciências físicas. Desenvolvida fundamentalmente por Albert Einstein, foi a base para que os físicos demonstrassem, posteriormente, a unidade essencial da matéria e da energia, do espaço e do tempo, e a equivalência entre as forças de gravitação e os efeitos da aceleração de um sistema.


Em 1905, Einstein publicou seu artigo sobre a teoria da relatividade especial, segundo o qual nenhum objeto do Universo se distingue por proporcionar um marco de referência absoluto em repouso. É igualmente correto afirmar que o trem se desloca em relação à estação e que a estação se desloca em relação ao trem. A hipótese fundamental em que se baseava era a inexistência do repouso absoluto no Universo, razão pela qual toda partícula ou objeto deve ser descrito mediante uma chamada linha de Universo, que traça sua posição em um contínuo espaço-tempo de quatro dimensões (três espaciais e uma temporal), na qual têm lugar todos os fatos do Universo. Também deduz que o comprimento, a massa e o tempo de um objeto variam com sua velocidade. Assim, a energia cinética do elétron acelerado converte-se em massa, de acordo com a fórmula E=mc2. Em 1915, desenvolveu sua teoria da relatividade geral, na qual considerava objetos que se movem de forma acelerada um em relação ao outro, para explicar contradições aparentes entre as leis da relatividade e a lei da gravitação. A teoria da relatividade especial afirma que uma pessoa, dentro de um veículo fechado, não pode determinar, por meio de nenhum experimento imaginável, se está em repouso ou em movimento uniforme. A da relatividade geral afirma que, se esse veículo é acelerado ou freado, ou se faz uma curva, o seu ocupante não pode assegurar se as forças produzidas se devem à gravidade ou a outras forças de aceleração. Simplesmente, a lei da gravidade de Einstein afirma que a linha de Universo de todo objeto é uma geodésica em um contínuo (uma geodésica é a distância mais curta entre dois pontos, ainda que o espaço curvo não seja, normalmente, uma linha reta; como ocorre com as geodésicas na superfície terrestre, são círculos máximos, mas não linhas retas). A linha de Universo é curva devido à curvatura do contínuo espaço-tempo na proximidade da Terra e a isso se deve a gravidade.

A teoria da relatividade geral foi confirmada de numerosas formas desde sua proposição. Vários cientistas têm tratado de unir a teoria da força gravitacional relativista com o eletromagnetismo e com outras forças fundamentais da física: as interações nucleares forte e fraca (ver Teoria do campo unificado). Em 1928, Paul Dirac expôs uma teoria relativista do elétron. Mais tarde, desenvolveu-se uma teoria de campo quântica chamada eletrodinâmica quântica, que unificava os conceitos da relatividade e a teoria quântica, no que diz respeito à interação entre os elétrons, os pósitrons e a radiação eletromagnética. Nos últimos anos, Stephen Hawking tem se dedicado a tentar integrar por completo a mecânica quântica com a teoria da relatividade.

Teoria Quântica

Teoria quântica, teoria física baseada na utilização do conceito de unidade quântica para descrever as propriedades dinâmicas das partículas subatômicas e as interações entre a matéria e a radiação. As bases da teoria foram assentadas pelo físico alemão Max Planck, o qual, em 1900, postulou que a matéria só pode emitir ou absorver energia em pequenas unidades discretas, chamadas quanta. Outra contribuição fundamental ao desenvolvimento da teoria foi o princípio da incerteza, formulado por Werner Heisenberg em 1927.

Planck desenvolveu o conceito de quantum como resultado dos estudos da radiação do corpo negro (corpo negro refere-se a um corpo ou superfície ideal que absorve toda a energia radiante, sem nenhuma reflexão). Sua hipótese afirmava que a energia só é irradiada em quanta, cuja energia é hu, onde u é a freqüência da radiação e h é o "quanta de ação", fórmula agora conhecida como constante de Planck.

O físico francês Louis Victor de Broglie sugeriu, em 1924, que uma vez que as ondas eletromagnéticas apresentam características corpusculares, as partículas também deveriam ter características ondulatórias. O conceito ondulatório das partículas levou Erwin Schrödinger a desenvolver uma equação de onda para descrever as propriedades ondulatórias de uma partícula e, mais concretamente, o comportamento ondulatório do elétron no átomo de hidrogênio.

Ainda que a mecânica quântica descreva o átomo exclusivamente por meio de interpretações matemáticas dos fenômenos observados, pode-se dizer que o átomo é formado por um núcleo rodeado por uma série de ondas estacionárias; essas ondas têm máximos em pontos determinados e cada onda estacionária representa uma órbita. O quadrado da amplitude da onda em cada ponto, em um momento dado, é uma medida da probabilidade de que um elétron se encontre ali. Já é possível dizer que um elétron é um ponto determinado em um momento dado.

A compreensão das ligações químicas foi radicalmente alterada pela mecânica quântica e passou a basear-se nas equações de onda de Schrödinger. Os novos campos da física — como a física do estado sólido, a física da matéria condensada, a supercondutividade, a física nuclear ou a física das partículas elementares — apoiaram-se firmemente na mecânica quântica. Essa teoria é na base de todas as tentativas atuais de explicar a interação nuclear forte (ver Cromodinâmica quântica) e desenvolver uma teoria do campo unificado. Os físicos teóricos, como o britânico Stephen Hawking, continuam esforçando-se para desenvolver um sistema que englobe tanto a relatividade como a mecânica quântica.

Texto extraído da enciclopédia Encarta 99 da Microsoft

 

 

Sobre as mudanças nas teorias da Física moderna

 



































 

FÍSICA

Em busca de uma teoria final


   Pesquisa pretende 
   unificar as forças
   básicas da
   natureza


Um dos maiores desafios da Física moderna é desenvolver uma teoria que descreva de forma unificada todos os fenômenos do Universo. O grande obstáculo é a incompatibilidade entre duas das principais teorias físicas deste século, a relatividade geral e a mecânica quântica. Esse desafio é o tema da pesquisa de Victor de Oliveira Rivelles, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (Ifusp) e dedicado ao problema desde os anos 80.

Cada uma dessas teorias desempenha perfeitamente seu papel quando é aplicada no contexto em que foi criada. Mas cada uma fracassa ao ser aplicada aos fenômenos descritos pela outra. Por que, então, modificá-las em vez de deixá-las como estão?
A idéia de unificação é a mola propulsora dos principais avanços da Física desde seus primórdios. Até o século 17, o movimento dos corpos terrestres e celestes era considerado distintamente. Os corpos terrestres tenderiam a parar depois de se movimentar por algum tempo, devido à sua natureza terrena. Já os corpos celestes, como o sol, a lua e os planetas, se moveriam eternamente – o que seria uma demonstração de seu caráter divino.

A mecânica clássica, formulada pelo físico inglês Isaac Newton (1642-1727), mostrou que os corpos terrestres e celestes obedecem às mesmas leis de movimento, ao dar uma descrição unificada para ambos. Suas idéias causaram uma mudança filosófica e religiosa profunda, pois mostraram, matematicamente, que o movimento dos corpos nos céus era puramente material. 
Ao sintetizar teorias que pareciam antagônicas, os cientistas conseguem descrever um número maior de fenômenos com menos hipóteses e também prever fenômenos futuros. Newton, por exemplo, baseado em sua teoria, previu a data
exata do retorno do cometa Halley. 
O físico alemão Albert Einstein (1879-1955), segundo seu
biógrafo Abraham Pais (em Einstein Viveu Aqui, Nova Fronteira, 1997, Rio de Janeiro), disse que a teoria física tem dois anseios: englobar o máximo possível de fenômenos e suas conexões e alcançar isso com base no menor número possível de conceitos independentes e relações arbitrariamente pressupostas.
 

  O objetivo fundamental da unificação de teorias físicas é, portanto, obter modelos mais eficazes para explicar e controlar a natureza. Foi o que Einstein obteve em 1915 ao formular a relatividade geral: uma teoria da gravitação mais abrangente que a de Newton. 
 

Duas teorias
incompatíveis

A mecânica quântica nasceu em 1900, com a teoria de Max Planck (1858-1947), segundo a qual a energia não se propaga num fluxo contínuo, mas por meio de pequenos pacotes de energia, os quanta. Isso permitiu dois avanços: a proposição de Albert Einstein, em 1905, de que a luz também se propagaria por meio de pacotes de energia e o modelo atômico do dinamarquês Niels Bohr (1892-1987). 
Ainda em 1905, Einstein formulou a teoria da relatividade restrita, baseada na proposição de que nenhum corpo pode alcançar velocidade superior à da luz no vácuo (300 mil km/s). Depois, mostrou a equação E=mc2 (energia é igual à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz). 

E, em 1915, lançou a teoria da relatividade geral, mostrando que a gravidade de um corpo deforma o espaço e o tempo a seu redor. Essa tese foi comprovada alguns anos depois num eclipse solar em Sobral, no Ceará: comparando-se posições de estrelas ao redor do sol antes e durante o eclipse, constatou-se que, vistas daqui, elas pareciam estar mais próximas devido à passagem dos raios de luz delas perto do campo gravitacional do sol. 
A relatividade geral inspirou outras teorias, como a da expansão do Universo, pelo norte-americano Edwin Hubble (1889-1953), em 1929, e a da formação dos buracos negros pelo indiano-norte-americano Subrahmanyan Chandrasekhar (1910- 1995), em 1931. Em 1997, Wei Cui, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e colaboradores da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, anunciaram a 
descoberta de buracos negros arrastando o espaço-tempo ao seu redor, o que comprovava previsões feitas a partir da relatividade geral 80 anos antes, quando ainda não havia incompatibilidade com a teoria quântica. Em 1924, o francês Louis-Victor de Broglie (1892-1987) propôs a dualidade onda-partícula, o que lhe valeu o Prêmio Nobel de Física cinco anos depois: mostrou que o elétron pode apresentar comportamento de onda e também de partícula.
 
Três anos depois foi a vez de Werner Heisenberg, com o princípio da incerteza. Contrariando toda a tradição da mecânica clássica, em que a posição e a velocidade de um corpo sempre poderiam ser determinadas precisamente, Heisenberg mostrou que no domínio quântico é impossível determinar ambas com precisão simultaneamente. Einstein jamais aceitou essa formulação.
 

Esta página foi extraída de: http://fma.if.usp.br/~rivelles/supercordas/ciencia55.htm
Domingo, 8 de Fevereiro de 2004

Diálogos criados nas aulas práticas de Metodologia para as ciências Sociais - 1º ano de Sociologia (2003/04)





Textos das aulas práticas de "Metodologia para as ciências Sociais" - 1º ano de Sociologia, Universidade do Minho


Ano lectivo de 2003/04 - 1º Semestre


1º turno, 4ªs 14-16h


Aula dia 19/11/2003


Francis BACON: Tudo bem?


David HUME: Sim, tudo bem.


BACON: Olha, vê lá o que me aconteceu! Estive a ler um livro teu que encontrei num alfarrabista.


HUME: E o que é que pensas dele?


BACON: Se bem entendi, falas do problema do conhecimento científico, defendendo que a formulação de uma lei geral a partir de acontecimentos particulares não nos pode dar uma certeza absoluta. Tu defendes que isso se baseia numa crença quase religiosa. Ora, eu não concordo porque considero que isso seria voltar atrás, ao tempo antigo, em que o conhecimento era baseado em falsas imagens da realidade, num conhecimento antecipatório, produzido por filósofos especulativos. Eu até compreendo a tua dúvida, mas penso que, com ela, não vamos a lado nenhum. Temos é de ir para a natureza e recolher informações, compará-las e depois tirar conclusões, fazer interpretações que permitam melhorar a nossa vida quotidiana


HUME: Eu concordo contigo: é muito importante conhecer o mundo. Eu próprio me interrogo e defendo que se faça uma investigação aprofundada. Aliás, como tu sabes, um dos meus amigos formulou, há uns tempos, aquilo que ele designou por leis do movimento. Toda a gente diz que esse Isaac Newton é um génio. Mas eu acho que entre o que tu dizes e o que ele diz há uma grande diferença. E é aí que eu coloco um problema, me interrogo. Tu, Bacon, partes de experiência sensível e, a partir daí, fazes induções. Mas essas induções têm sempre uma base sensível (o calor é o efeito de uma chama que pode ser vista). Ora, com o Netwton, o caso muda de figura: eu não posso ver a gravidade, ela é inobservável. Um dia destes hei-de falar-te disto com mais tempo. Posso adiantar-te apenas isto: nunca se pode ter a certeza em relação a acontecimentos que não observámos "in loco". E esta dúvida é ainda mais válida para causas de fenómenos que não podemos observar com os nossos sentidos. Consegues ver a gravidade? Como é que ela é? Uma coisa me anima: no Século XX e XXI alguns cientistas vão começar a partilhar esta minha induietação. Agora, como deves compreender, sinto-me um pouco isolado.


 


Aula dia 10/12/2003


Ludwig WITTGENSTEIN: Boa noite. Olha, explica-me uma coisa: achas que a filosofia serve para alguma coisa? Eu penso que a filosofia em vez de fazer parte de solução, ela própria é o problema.


Karl POPPER: Discordo totalmente do que acaba de dizer! A filosofia é a solução para a verdade, porque permite pensar o acto científico de forma a que este não se transforme num dogmatismo. O que eu quero dizer é o seguinte: a filosofia é uma espécie de ciência das ciências, pois reflecte sobre os princípios que devem orientar a ciência e, por isso, pode ser muito útil aos cientistas. Por exemplo, foi ao observar o trabalho de Einstein que eu descobri a minha "password", o meu "abre-te Sésamo": a ciência é uma actividade especulativa. Esta especulação vai ser fundamentada mas, o importante é a atitude científica ser capaz de lançar novas hipóteses. A teoria de Newton dizia que todo o mundo físico funcionava de acordo com determinadas leis. Dizia que "todos os cisnes eram brancos". Contudo, Einstein começa por fazer uma especulação e levanta a hipótese de poder existir um cisne preto. E, mais, para se conhecer esse cisne preto – um cisne preto em 40.000.000 de cisnes brancos- era necessário escolher um determinado momento, uma só observação. Ora, é este critério que deve distinguir a ciência da não ciência, autêntico espírito científico do engano. Ora, eu encontrei dois exemplos de pseudo-ciências sociais que têm uma maneira completamente diferentes de pensar – o marxismo e psicanálise – (e indirectamente, uma certa forma empirícista e indutiva de fazer ciência). Eu até preferi criticar estas pseudo-ciências sociais, porque se fosse criticar, no sentido do "vale tudo" — como mais tarde vai fazer o Kuhn — a ciência no seu todo, arriscava-me a cair num buraco negro – o relativismo ignorante e surrealista. Infelizmente, é isso que se passa contigo, meu colega. Nos seus primeiros escritos, ainda havia uma vontade positiva de tornar a linguagem num instrumento útil para a ciência, separando os enunciados com sentido dos sem sentido. Contudo, mais tarde, começou a entrar numa história relativista fora da realidade.


WITTGENSTEIN: Essas classificações de relativista vs absolutista não me dizem nada. Para mim, devemos ir em frente e encarar o problema que é a base de todos os problemas, ou seja, a linguagem. O que eu digo é muito simples: a linguagem não se caracteriza, no seu essencial, por uma relação significante/significado correspondencial. Quando, por exemplo, uma aluna como a Fátima olha para uma árvore, ela pode efectuar duas operações: a primeira é sensitiva, pois consiste apenas na captação da luz, que depois é transformada numa imagem mental, ou seja, numa visibilidade que é construída. Este momento é fundamental, pois é um conhecimento puro, directo. Pelo contrário, a operação seguinte, tal como disse a Andreia, é perigosa pois vai passar para o plano dos sons (marcas produzidas na nossa laringe) e dos grafos (marcas num papel), aquilo que se costuma designar por linguagem. Ora, entre um plano e outro há uma distância qualitativa fundamental, porque se passa da luz e da imagem para o som e o significante. Tu, Popper, cais num erro tremendo e, por isso, fazes parte do problema e não da solução – esqueces que, entre a luz/ver e o som/dizer (ou gesto/escrita) há uma distância incomensurável. Há sim uma coerência grupal que remete para jogos tribais. Ou seja, jogos em que há co-mensurabilidade (pode haver mais ou menos), há acordo em relação às regras do jogo. Chamo a isso os jogos de linguagem, em que os humanos (como tu) pensam que estão a "conhecer-descobrir o mundo". Esses jogos — nomeadamente os jogos de kinguagem que dizem que a verdade é descoberta — são acima de tudo formas coerentes de vida e não formas de conhecimento, pois têm o mesmo estatuto do ladrar do meu cão.


Este texto foi recolhido pela aluna do 1º ano, Liliana Cabral.


 


2º Turno (16-18h)


Diálogo entre Francis Bacon e David Hume - 19 de Novembro de 2003


Francis Bacon: Boa tarde.


David Hume: Boa tarde, vejo que traz no bolso o livro que acabei de publicar. Já o leu?


Bacon: Sim, estive a lê-lo com muita atenção e vi que tu tens um problema. Se eu bem entendi, tu encaras o conhecimento científico como algo problemático. Tu dizes que o partir de acontecimentos singulares para uma lei não é uma questão lógica, não há uma conexão evidente, mas sim algo que se baseia no hábito, numa crença. Mas por aí não vamos a lado nenhum, voltamos a filosofar, à discussão filosófica especulativa.


Hume: Bacon repara bem no que fizeste e compara o teu trabalho com o do Newton. Tu nunca falaste de leis gerais, regulares, nos teus livros, falas em interpretações, em começos de interpretação. Ora com Newton o caso muda de figura, pois já estamos perante leis com conexões necessárias, leis de regularidades. Além disso, enquanto tu falavas de causas que nós podíamos ver, coisas físicas, já o meu amigo Newtow fala de causas que nós não podemos ver – apenas sentimos os seus efeitos. Um exemplo é a gravidade. Vamos pensar assim. No teu caso, Bacon, o referente existe pois pode-se ver, por exemplo, a chama. Em Newton "a gravidade" não existe. É uma teoria que somos obrigados a aceitar, como algo verdadeiro. O referente da gravidade só pode ser observado como efeito geral, difuso: ou seja não é observável em si, como coisa. O meu problema é o modo como se designa em geral o problema da indução. Eu abordei a indução (apesar de quase não usar a palavra) não na perspectiva da sua caracterização epistemológica ou da sua eficácia prática — aspectos centrais da tua teoria, Bacon, e que continuarão mais tarde nos filósofos próximos da ciência empírica — mas na sua justificação racional e lógica. A passagem dos casos singulares observados à expectativa de ocorrências futuras similares e, portanto, à formulação de um enunciado geral constitui a minha grande dúvida, a base do meu cepticismo.


 


Aula Prática de Metodologia das Ciências Sociais


 


Discurso entre Karl Popper e Ludwig Wittgenstein ( 10/12/2003)


 


Popper: Boa tarde, Wittgenstein. Como tem passado? Acho os seus livros muito interessantes.


Wittgenstein: Se é má tarde ou boa tarde, é assunto sobre o qual não poderei ter uma certeza absoluta, ou, então, o dizer boa tarde remete apenas para um enunciado impossível de avaliar, pois é a expressão de um desejo.


Popper: Eu conheço a sua conversa. Para si, a linguagem é a origem de todos os problemas, de tal forma que acaba por cair no buraco negro do relativismo, no "vale tudo", porque, ao suspeitar da capacidade cognitiva da linguagem, arrasta-nos para um mundo onde todos os jogos de linguagem são equivalentes e onde a fronteira, entre a ciência e a não ciência, se torna muito diluída.


Este problema é visível quando dá o exemplo dos rinocerontes: quando tu dizes que é possível dizer uma frase com sentido e ela ser um facto sem recorrer à evidência empírica. Ora isto é chocante, porque negas a tradição científica. É evidente, que podemos criticar uma certa forma de fazer ciência, mas isso não significa que se relativize tudo. Tu não podes dizer, daquela forma categórica, que uma frase com sentido não é um problema empírico. Quanto muito podes fazer aquilo que fez Einstein, com a teoria da relatividade, em que, baseado apenas numa única hipótese, decidiu criar uma teoria alternativa à interpretação de Newton.


Usando uma analogia, o Newton é alguém que levanta a hipótese de todos os cisnes serem brancos, era uma constante, uma regularidade que era confirmada por milhares de observações. E um dia, um outro ser acorda e tem uma ideia sublime: "Bolas, talvez exista nos confins do universo um cisne negro". Ou seja, levantou a hipótese da teoria dos cisnes brancos não explicar a realidade, porque poderia haver um exemplo que falsificasse as regularidades previstas na cor dos ditos cisnes. O que me interessou em Einstein não foi a teoria em si, mas foi o caminho, o método que adoptou. Ora, o teu exemplo dos rinocerontes tem a sua lógica, mas tem que ser usado com cuidado. Tu, no fundo, talvez queiras dizer o mesmo que eu, mas tu exageras caindo no relativismo, na confusão total. O problema não está na linguagem, meu caro.


Wittgenstein: Popper, tu ficas a meio do caminho. Eu vou mostrar-te isso no exemplo dos rinocerontes que aparece num filme sobre a minha vida. Mas fazendo uma pequena alteração, ou seja, usando o argumento ao contrário.


Ou seja; vamos buscar um rinoceronte e colocá-lo na sala de aula. E eu dizia: "não há rinocerontes nesta sala. Não vejo nenhum rinoceronte nesta sala". O eu dizer a frase "não há rinoceronte...." é um facto que não se liga automaticamente à evidência empírica e física do dito cujo, na dita sala.


Contudo, proponho um pequeno exercício para tornar isto mais claro.


Primeiro, se fosse de noite e não tivesse luz eu teria razão, ou seja, a primeira condição ou o primeiro acontecimento é a existência de luz: seria escuro para todos. Logo, não haveria rinoceronte. Pelo menos, usando o sentido da visão. Certo?


Segundo, o acontecimento ou condição é poder existir a luz. É a luz física que me permite a formação de uma imagem (picture) sensorial visual.


Terceiro, a partir (da imagem sensorial visual) deste sensorial físico, nós (seleccionámos) escolhemos (traços) certas formas, visibilidades construídas (linguagem da luz).


Quarto, dá-se um grande salto: o acontecimento passa para o som; há um outro mundo que remete para outras entidades físicas é o som (mundo sensorial).


Quinto acontecimento: domesticação do som. É a fase seguinte para produzir um determinado som, um fonema. Um enunciado (acontecimento fonético na laringe).


Ora, o facto fonético é considerado equivalente a algo que passou por várias mediações: foi uma luz que passou pelos nossos olhos, que foi descodificada formando uma imagem algures no cérebro. Daí, a laringe emite um som que é moldado na nossa boca: abrindo-a ou fechando-a um pouco. Tudo isto não se passaria se não houvesse luz. Terámos de fazer uma outra mediação: usando o tacto. Mas seria igual?


Com isto, eu quero simplesmente criar algum espanto que vos permita pensar. Não apresento soluções. Apenas desconfio. E digo que estes dois mundos são aceites como correspondenciais, mas essa correspondência é devida a regras que associam sons a coisas, a correspondência é fruto de um jogo. Por isso digo que são duas realidades muito diferentes: o mundo físico e o mundo da linguagem, onde o mundo físico é sensorial e o mundo do enunciado remete para um acordo em relação a sons, são mundos que estão em dimensões diferentes.


De uma forma muito simples, acabo assim: o falar de um homem deve ser visto de uma forma animal porque não é muito diferente do ladrar de um cão. Mas há diferenças. Mas esse tema fica para outra altura. Até uma próxima oportunidade, Popper.


Este texto foi recolhido por Francelina Neiva, aluna do 1º ano.


 


 


 

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