Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2003

Textos criados no ano lectivo anterior - as aulas práticas do 1º ano de Sociologia 2002/2003

Textos criados no ano lectivo anterior - as aulas práticas do 1º ano de Sociologia 2002/2003


Turno das 6ªs Feiras 11-13h
29/11/2002

Diálogo entre Hume e Newton.

O problema de Hume

Hume: Newton, estive a ler as tuas teorias e achei-as interessantes, mas só não entendi o problema da lei da gravidade. Como é que consegues explicar a gravidade se não consegues vê-la nem senti-la? O calor e a luz consigo ver, mas a gravidade não! Além disso, como é que podes ter a certeza que as tuas previsões de regularidade irão SEMPRE acontecer?


06/12/2002

Diálogo entre o Popper e o Hume.

Popper: Eu tenho uma solução para o teu problema!
Em primeiro lugar, penso que o teu problema tem fundamento, mas, no entanto, meu caro amigo Hume, estás a misturar a psicologia com a lógica.
A parte psicológica diz que a crença de Newton ( um pequeno nº de observações conduz a generalizações) se deve à questão dos hábitos (crença psicológica), e relativamente a isso não tenho nada a dizer. Pode ser verdadeiro ou falso mas esse problema não me interessa.
O que me interessa é saber se é possível produzir leis gerais a partir de um número limitado de observações. Ou seja, interessa-me é saber se a ciência se deve basear numa lógica de acumulação de observações para depois indutivamente (de baixo para cima) produzir leis gerais.
Acho que dever dar a volta ao problema da cientificidade. Aquilo que o Newton te queria impingir não era correcto porque não é possível fazer ciência dessa maneira. Queres saber como cheguei a esta conclusão?
Hume: Quero.
Popper: Recordaste dos teus diálogos com o Newton? Foi a partir deles que surgiu o teu problema. A minha solução também se baseou num diálogo com outro cientista chamado Einstein. Relativamente ao problema que um senhor chamado Rorty formulou mais tarde, eu vou acabar por dar-te razão. De facto, as coisas não são descobertas, como se houvesse uma realidade mesmo realidade que nós pudessemos chegar a saber como é feita. Mas também não vou passar para o outro lado, para o lado dos românticos e dos filósofos idealistas (relativistas), porque acredito que é possível um certo conhecimento científico, mas não da forma como propunha Newton.


20/12/20002

Diálogo entre o Kuhn e o Popper.

Kuhn: Olá Popper!
Popper: Olá!
Kuhn: Popper, tu até tens alguma razão, mas não concordo com o conceito que tu tens de ciência. Acabado de me doutorar em Física Teórica, resolvi estudar a história da ciência e constatei, para meu grande espanto, que, na longa história da ciência, não existe incrementação de conhecimento de uma forma linear. Ou seja, não podemos continuar a distinguir de uma forma ideal o que é a ciência e o que não o é. Eu não te estou a atacar, estou apenas a mostrar o que se passou na ciência em que, para minha surpresa, não encontrei um modelo ideal. Também não acho que as ciências sociais são "menos" científicas. A única diferença que encontrei entre as Ciências Sociais e as Ciências Exactas foi a seguinte: nas ciências exactas, os paradigmas normais tendem a substituir quase completamente os anteriores com maior eficácia. Ou seja, há mais discussão nas Ciências Sociais (mais incomensurabilidade), mas isso não significa que elas não sejam tão científicas porque a incomensurabilidade é como um vírus. O que acontece é que as Ciências Exactas pretendem ser imunes ao vírus da discussão subjectiva, mais conhecido pelo vírus da incomensurabilidade. Ora, isso é uma ilusão.


Docente responsável pela leccionação:
José Pinheiro Neves
email: jpneves2004@yahoo.com.br


Textos criados em 2002/03 nas aulas práticas de Metodologia - 2º turno

2º Turno - 16-18h




Diálogo entre Popper e Hume



Popper: Ainda bem que te encontro. Tenho andado a pensar no teu problema e acho que te posso ajudar


Hume: Obrigado. Mas diz lá como.


Popper: Dividi o teu problema em duas partes, problema lógico e problema psicológico. O teu problema, do ponto de vista psicológico, não tem solução. Se calhar, não me estou a explicar bem. Com a palavra psicológico quero dizer existencial, ou seja, não tem a ver com as tuas características psicológicas individuais, mas sim com uma espécie de dúvida demasiado gestáltica. O teu problema tem cabimento mas, infelizmente, não temos tempo para o resolver ou, pelo menos, não nos interessa, para já, resolver esse assunto. Por isso resolvi olhar só para o problema lógico.

Hume: Então, qual foi a conclusão a que chegaste acerca do problema lógico?

Popper: É necessário encontrar uma solução e não ficar só pelo problema. Tu colocavas o problema ao Newton, desta forma: “Como é que eu posso ter a certeza que a tua lei se aplica a todos os casos, mesmo aqueles que tu não observaste?” Tu levantaste o problema mas esqueceste-te de dar a solução! Ora, acho que tenho a solução. Eu consegui dar a volta ao problema porque, na verdade, o problema não tem solução e se ele não tem solução, temos de retardá-lo ao máximo. Se o teu problema fosse uma espécie de doença incurável, o que é que teríamos de fazer? Teríamos de conviver com o problema minimizando-o ao máximo.




Diálogo entre Popper e Kuhn


20/12/2002


Kuhn: Olá Popper, estás bom?

Popper: Tudo bem!!!

Kuhn: Estive a ler os teus livros e achei-os interessantes, mas acho que poderias ter sido mais claro.

Popper: Como assim?

Kuhn: Eu tirei o doutoramento em física e em seguida resolvi tirar uma pós-graduação em história das ciências e fiquei admirado porque o que encontrei não era o que eu esperava. De facto, o que eu esperava encontrar era uma história tal como diziam os manuais escolares. Além disso, comecei a ficar preocupado porque o que me diziam os meus colegas, sobre a história da ciência, não era totalmente exacto. Depois, comecei a pensar: porque é que mais ninguém fala disto? Tentei encontrar outras descrições parecidas, com a minha, e apenas encontrei algum apoio entre os historiadores da ciência, porque os filósofos andavam distraídos a distibguirem entre "boa" e "má" ciência, e os sociólogos tratavam a ciência como se fosse uma actividade sagrada não sendo passível, como actividade, de um estudo sociológico. A minha tese é simples: baseado nos dados históricos e nos meus conmhecimentos científicos percebi, com um espanto enorme, que a evolução da ciência se fazia na base de revoluçõesem que um paradigma (uma forma global de pensar a realidade) destronava outro, tornando-se dominante. O paradigma aqui não é uma teoria, é sim uma forma gestáltica de ver o mundo: “um exemplo é o que se passa entre a teoria da gravidade de Newton e a teoria da relatividade de Einstein”.

Popper: Mas então chegas a uma conclusão relativista e perigosa: já não há ciência, vale tudo e tudo é relativo. É isso?

Kuhn: Não é. O que quis mostrar não foi o critério ideal da ciência, estilo o D.Quixote da ciência - tal como tu fazes. Eu apenas mostrei, usando exemplos da história da ciência, como é que uma forma de fazer ciência predomina sobre outra. Ao contrário do que diziam os meus colegas, não se trata de dizer que uma descobre melhor a verdade, mas sim que uma forma permite resultados mais eficazes, permite encaixar melhor as peças do puzzle. É por isso que sendo tu o D. Quixote, eu sou como o Sancho Pança: apenas quis descrever aquilo que via com os meus olhos de físico, seguindo a ideia de Hume.







Docente responsável pela leccionação:
José Pinheiro Neves
email: jpneves2004@yahoo.com.br

Sábado, 13 de Dezembro de 2003

Texto a ser utilizado no teste do 1º Semeste - Fev de 2004

Texto a ser utilizado no teste do 1º Semeste

Público SUPLEMENTO Mil Folhas Sábado, 13 de Dezembro de 2003

"Fomos Instrumentalizados" a Pensar Que Religião e Ciência Estiveram em Confronto Desde Sempre

Entrevista a Clara Pinto Correia e José Pedro Sousa Dias realizada por António Marujo e Clara Barata

Afinal, ao contrário do que muita gente pensa, ciência e religião não passaram os séculos a digladiar-se. Pelo contrário: "Estiveram sempre associadas", até à ruptura do século XIX. Em "Assim na Terra Como no Céu" (ed. Relógio d'Água), Clara Pinto Correia e José Pedro Sousa Dias tentam fazer um percurso que leve o leitor a perceber que "grande parte da filosofia científica vinha" da religião ou que "a ideia de Deus ou do divino é parte integrante da ideia da natureza e dá substrato ao conhecimento" humano. O livro, nascido pela "persistência" de Clara Pinto Correia, como confessa Sousa Dias, deu já origem a um curso, um centro de estudos e a outros projectos que estão na calha.

PÚBLICO - Qual a motivação para escreverem este livro?

CLARA PINTO CORREIA - Quando comecei a estudar história da ciência, em 1994, estava tão convencida como qualquer cidadão comum de que a ciência e a religião tinham sido duas forças que se tinham digladiado. Fiquei surpreendida por notar que grande parte da filosofia científica vinha da Igreja. A maioria das pessoas envolvidas na investigação eram homens da Igreja - e os que não eram usavam as suas descobertas científicas para elogiar a perfeição do trabalho de Deus. Toda a biologia, do século XVII e XVIII, era pensada como estando ao serviço de Deus. Tive curiosidade de saber se teria sido só naquele período, se seria uma particularidade da revolução científica. Comecei a ler coisas sobre o deísmo e a teologia natural e da Idade Média. O discurso científico estava sempre ligado à atitude religiosa, não havia uma coisa sem a outra. Discuti isto com o meu orientador, Stephen Jay Gould, que me chamou a atenção para o facto de a maior parte dos livros sobre história das ciências por onde as pessoas se guiam hoje datarem do século XIX, logo a seguir ao grande cisma entre a religião e a ciência - causado pela biologia, pela expansão da idade da Terra, todo o questionamento da leitura do mundo segundo o [livro bíblico dos] Génesis. E, depois, por Darwin e a selecção natural e pela introdução de uma amoralidade profunda na natureza. Isso causou uma grande crispação entre a postura religiosa e a científica, causou graves perturbações para os próprios cientistas, que eram pessoas religiosas. O próprio Darwin é um caso notável de alguém que perde a fé no âmbito da sua pesquisa científica. Mas, ainda à data da primeira edição d' "A Origem das Espécies", escrevia cartas aos amigos manifestando a sua consternação, afirmando que não tinha procurado escrever de uma forma ateística. Os que escreveram sobre história da ciência eram herdeiros dessa crispação e isso foi introduzido nos livros de texto usados nas escolas. Por exemplo, a viagem de Colombo é descrita como um acto de heroísmo de um homem que ousa enfrentar a Igreja. Fomos todos instrumentalizados a pensar assim. Também fui percebendo que o entendimento de que há uma evolução da postura científica e religiosa é perfeitamente consensual para as pessoas que fazem história da ciência. Depois comecei a falar com o José Pedro, que, ao contrário de mim, é insuspeito, porque eu sou católica mas ele é ateu.

JOSÉ PEDRO SOUSA DIAS - Gosto de pegar nas fontes, ter uma boa percepção das mentalidades e isso leva-me a trabalhar sobre história da ciência em Portugal. Fascinava-me compreender como tinha surgido a primeira comunidade de investigadores em biomédicas, a partir do nada. O primeiro Nobel português é apenas uma parte do icebergue da investigação biomédica. A conclusão a que cheguei, e com a qual a Clara me conseguiu convencer, foi a de que a motivação religiosa, neste caso o materialismo do Miguel Bombarda, tinha tido um papel fundamental. P. - Mas olhando para o livro dá a sensação de que podiam ser dois livros. J.P.S.D. - Sim, foram feitos dessa forma.

C.P.C. - Somos pessoas diferentes e estudamos áreas diferentes: eu biologia e o José Pedro farmácia e medicina. Somos complementares e, dentro das ciências da vida, cobrimos o espectro fundamental.

P. - Ambos seguem três etapas de dois planos: "a semelhança do mundo" e "levanta-te e caminha". É com esses esquemas que unificam as duas perspectivas?

C.P.C. - Onde temos um fio condutor ao longo do livro é na cronologia. Esperamos dar uma perspectiva sobre como evoluiu o entendimento da Terra, da doença e da morte.

J.P.S.D. - A preocupação da humanidade de conhecer o que a rodeia vem da ideia da queda que tinha criado o mundo com um fim, [onde] o homem tem necessidades e problemas, como o adoecer.

P. - Afirmam que o papel da religião foi muito mais rico e variado do que se supõe...

J.P.S.D. - Para começar a conhecer a natureza, o homem teve de desenvolver conceitos: não conseguimos estabelecer leis científicas se não houver um sistema de pensamento. A ideia de Deus ou do divino é parte integrante da ideia da natureza e dá esse substrato ao conhecimento.

C.P.C. - Quando estamos perante um mundo que desconhecemos, a primeira forma de o compreender é através da religião. Todas as religiões tentam explicar a lógica e a moral do mundo. O José Pedro diz que já havia na antiga Mesopotâmia uma associação entre o pecado e a doença, que se mantém, mesmo que não acreditemos em Deus. Quando ficamos doentes perguntamos: 'Mas o que é que eu fiz para merecer isto?' Tendemos a pensar nas nossas desgraças como castigos. Na nossa civilização, toda a ciência que se faz até ao século XIX destina-se a conhecer melhor a obra de Deus. Newton escreve mais sobre Deus do que sobre a gravidade. O grande êxtase da descoberta da gravitação universal é o de se achar que se encontrou a face tangível de Deus, a força incrível que mantém os planetas nas suas órbitas. A obra de Newton era usada como um instrumento de conversão dos ateus, que demonstrava o quanto Deus é sábio e todo-poderoso. O choque do século XIX é o de o Génesis se tornar impossível como explicação para a constituição do mundo. De repente muda tudo. A natureza deixa de ter moral, deixa de haver um sentido pré-estabelecido para o mundo. A vida na Terra passa a ser infinita, e não era, era suposto ter seis mil anos. Um espaço infinito não é controlável. A preocupação de Kepler e Galileu, quando estudam as Plêiades, é estarem a concluir que o Universo é infinito. Ambos são grandes cientistas, mas são homens religiosos e sentem muito medo quando as observações deles os levam ao limiar do Universo infinito. Há uma carta de Kepler para Galileu a dizer algo como: "Ainda bem que conseguiste saber a localização exacta das Plêiades, pois isso permite estabelecer um limite para o Universo." P. - Fala de Galileu, mas ele está ausente do livro.

C.P.C. - Pois está. P. - E não só: fala-se de Newton mas não temos a voz dele, nem de Darwin. Porquê?

C.P.C. - Não queríamos cobrir toda a história da ciência e não estávamos interessados nos casos mais conhecidos, mas sim em demonstrar como estas duas coisas estiveram sempre associadas e de como é que se dissociaram.

J.P.S.D. - É possível que a culpa seja nossa... Mas, na introdução, dissemos que eram aspectos de interface. Provavelmente não tem holofotes suficientes para chamar a atenção, mas nunca foi nossa ideia traçar um panorama geral. P. - Citam dois autores (John Draper e Andrew White) dizendo que as suas obras parecem uma reencarnação da luta de Galileu contra a Igreja, "também ela com fortes laivos de mitologia mas assumida como verdade absoluta". Ao ler isto, ficamos à espera que essa mitologia seja desmontada...

C.P.C. - Sim, mas já há livros sobre isso. Também não estávamos interessados em fazer trabalho que já tinha sido feito. P. - Então o objectivo era falar do que as pessoas não conhecem.

C.P.C. - Mais importante do que isso: da base da evolução do conhecimento, que não é constituída pelas grandes luminárias, mas por quem faz o trabalho de sapa, que não é aparatoso, mas é o motor do conhecimento do mundo. Na minha parte, tinha muito trabalho sobre o Newton, e hesitei muito sobre se devia incluí-lo. E acordámos que não, porque não faz parte do âmbito deste livro. Era mais importante para nós dar um retrato de fundo, ver como é que as ideias evoluíram.

J.P.S.D. - Tradicionalmente, a história da ciência é feita por professores já com uma certa idade, fartos do laboratório, que preferem dedicar-se à investigação documental e trazem para a história da ciência uma visão "presentista". O conflito entre a ciência e a religião é, decididamente, uma ideia "presentista" - é ver o passado aos olhos do presente. O nosso objectivo era analisar a visão das pessoas e as mentalidades à luz da época. No que diz respeito à Inquisição, é fácil perceber que não há necessariamente um conflito entre dois mundos. Pode ser um conflito entre uma pessoa e uma instituição, mas o investigado e o perseguidor estão imbuídos das mesmas ideias. P. - No caso de Darwin, ele viveu uma atormentada luta entre aquilo em que acreditava e a teoria que desenvolveu.

C.P.C. - Mas isso também já está escrito. Não estávamos interessados em trabalhar com fontes secundárias. Para nós os dois, o pano de fundo é mais importante.

P. - É por isso que aparecem as narrativas medievais de viagem?

C.P.C. - Isso é o conhecimento popular. Estas histórias que circulam nos livros de cordel são as que toda a gente conhece. O Universo que passa por esses panfletos e livrinhos é o do homem medieval e renascentista. Era sobretudo esse Universo "light", no sentido de não ser o dos grandes investigadores, que a nós nos interessava estudar. É importante perceber o que, em cada período histórico, a maioria das pessoas, o comum do mortais, está a pensar. As grandes luminárias do pensamento não são o comum dos mortais.

P. - Depois da ruptura do século XIX, a religião e a ciência estão hoje condenadas a enfrentar-se?

J.P.S.D. - A necessidade que existia da interacção entre o pensamento religioso e científico não tem [hoje] muita validade. O que não significa que as duas visões se tenham de antagonizar.

C.P.C. - A separação que houve no século XIX foi muito dolorosa: os geólogos que contribuíram para o cisma eram religiosos e ficaram perturbados com os resultados da sua investigação. Mas tinha que se chegar a um ponto, na caminhada do conhecimento, em que a explicação divina deixa de ser necessária para entender o mundo. Era preciso aceitar, em qualquer momento da nossa jornada espiritual, que o mundo não tem uma moral, que não há regras pré-estabelecidas por um Criador omnipotente, que a natureza não é benéfica porque Deus a fez benéfica. Neste momento, ciência e religião estão separadas uma da outra, mas não quer dizer que tenham de entrar em conflito. Pelo contrário.

P. - Citam o uso metafórico que a religião faz da linguagem científica e vice-versa. Quando a religião coloca questões éticas à ciência, não significa que continua a haver tensão e, ao mesmo tempo, possibilidade de conversa entre esses dois mundos? J.P.S.D. - Na terapêutica, sim. [No caso das] pessoas que estão doentes e são tratadas, se têm ideias religiosas, essa interacção deve [ser tida em conta]. Qualquer que seja o contexto cultural em que o médico actue, tem de ter essa visão. É dos poucos aspectos da actividade científica em que essa interacção pode dar frutos. Não vejo muitos outros.

C.P.C. - O conflito tem mais a ver com este Papa do que com a essência do catolicismo. Temos tido no Vaticano, desde há 25 anos, uma pessoa reaccionária, desligada do mundo real, que não admite que a sida existe, que nem está aberta ao uso do preservativo. Não se pode esperar de uma pessoa destas que veja com bons olhos as terapêuticas anticoncepcionais, a manipulação de gâmetas e embriões. Mas isso é uma pessoa e são idiossincrasias de um determinado tipo de Igreja. P. - Mas se for para o islão ou para o judaísmo, também há muitas reservas em relação a algumas destas matérias.

C.P.C. - No islamismo, sim, nos grupos fundamentalistas. Mas isso, de certa maneira, é o que se passa com o catolicismo e o Papa. Os grupos fundamentalistas têm todos problemas porque estão em conflito com o mundo. A religião judaica, não fundamentalista, é até mais aberta ao progresso científico que a religião cristã. De cada vez que há um novo desenvolvimento, os rabis vão ao Talmude procurar a passagem que prevê, antecipa, explica esse momento - e encontram sempre uma. J

.P.S.D. - O que se passa hoje na relação da religião com a ciência [passa-se] em outros aspectos da sociedade. Penso hoje diferente do que pensava quando tinha 20 e tal anos: prefiro pessoas com valores religiosos a pessoas sem valores nenhuns. Enquanto a comunidade científica não conseguir substituir os valores religiosos por outros, prefiro que os mantenha. Não partilho da visão de alguns meios marxistas de que era preciso acabar com a religião.

P. - Isso significa que tem de haver limites na investigação?

J.P.S.D. - Não. Tem de haver limites na aplicação dessa investigação... C.P.C. - Aí, tu és mais fundamentalista do que eu. P. - Estão a pensar em questões como a clonagem... J.P.S.D. - Nós não podemos pegar na ciência e na tecnologia e fazê-la dar lucro a qualquer custo... C.P.C. - Isso sim, mas isso não são limitações, para isso [basta] vigilância. P. - Por exemplo: seleccionar embriões de acordo com características que os pais queiram... C.P.C. - Isso é incontrolável. A partir do momento em que a definição do sexo de embriões se tornou possível, vai haver sempre quem queira escolher a cor dos olhos, o sexo dos filhos... A natureza humana é muito tortuosa, há-de haver sempre pais a querer manipular molecularmente a inteligência dos filhos. Onde tem que haver limitações - que não se podem impor através de comissões de ética, têm de partir da vigilância e da organização social - é na monitorização da produtividade, através do que as novas tecnologias tornam possível. Por exemplo: imagine uma senhora da serra da Estrela que tem 20 ovelhas, que as tosquia todos os anos e vende a lã de maneira a ter suficiente lucro para poder continuar o seu trabalho. Se na Nova Zelândia se desenvolverem ovelhas transgénicas que dão lã três vezes por ano no dobro da quantidade, é uma questão de tempo até a lã da Serra da Estrela desaparecer. E essas coisas são perigosas.

P. - E que organização social pode evitar isso sem estar baseada em regras éticas ou políticas? C.P.C. - Esse é dos poucos casos em que tem de haver legislação, partindo dos movimentos de base dos cidadãos, que têm de pressionar os políticos. A nível europeu, para nos protegermos do excesso de globalização e de monopólio, deveríamos adoptar algumas restrições. Nestes aspectos concretos, devem aplicar-se limitações ao uso da ciência e da tecnologia - não ao seu desenvolvimento, porque não se pode proibir as pessoas de saber mais. Tentar proibir a continuação do estudo da clonagem humana, para se defender a sociedade de práticas imorais, é [semelhante] ao que fizeram os escolásticos no século XII em defesa do geocentrismo: também afirmaram que era preciso manter a Terra no centro do Universo, a bem da sociedade. Proibir a investigação, para mim, está fora de questão. Limitar algumas das aplicações dessa investigação, sim. J.P.S.D. - O meu incómodo em relação à pergunta tem a ver com o seguinte: é muito perigoso o historiador pôr-se na posição da pessoa que quer, em resultado do seu trabalho, imprimir algum rumo ao presente - da mesma forma que é perigoso ler este livro à luz do pensamento de hoje. Pensar que queremos trazer uma mensagem para os dias de hoje é perigoso.

P. - A Clara Pinto Correia escreve que a lei natural é a base do Estado burguês moderno. O mesmo argumento da lei natural é invocado pela Igreja Católica para se opor a alguns avanços científicos. Isto não é um paradoxo? C.P.C. - Há um livro de Roy Lewis, com o título "Porque É Que Eu Comi o Meu pai", em que, na tribo de hominídeos que ele inventa, há um macaco reaccionário que passa a vida a dizer que ter saído das árvores é contra a natureza. Há-de haver sempre pessoas que acham que o passo seguinte é contra as leis da natureza e há-de haver sempre quem queira avançar mais. Os homens que fizeram a Revolução Americana fizeram-na a pensar na lei natural. Eram quase todos deístas muito fervorosos - o lema da América continua a ser "in God we trust". Quando as pessoas, nesse período, concebem a lei natural, isso corresponde [à ideia de] um Deus que deixou de ser castigador, passou a ser uma entidade muito benéfica que quer a nossa felicidade e criou tudo à nossa volta para sermos felizes. E faz parte do agradecimento a Deus tentarmos enriquecer e ter o máximo de bens de consumo. A esta filosofia dá-se na época o nome de "lei natural". É irónico que se use o mesmo termo para expressar preocupação com o estarmos a violar os pressupostos da natureza através do nosso progresso.

© 2000 PÚBLICO Comunicação Social, SA

Docente responsável pela leccionação: José Pinheiro Neves email: jpneves2004@yahoo.com.br

Sábado, 6 de Dezembro de 2003

Texto para o Teste do 1º Semeste em Fev. de 2004

Texto a ser utilizado no Teste do 1º Semeste


Jornal "PÚBLICO"
SUPLEMENTO
Mil Folhas
Sábado, 06 de Dezembro de 2003
"Rumores da Morte da Ciência "
Desidério Murcho

Jorge Dias de Deus, autor de "Viagens no Espaço-Tempo" e "Ciência, Curiosidade e Maldição" (Gradiva), apresenta neste livro uma contribuição para o debate sobre as ciências motivado pelas ideias do sociólogo Boaventura Sousa Santos. O livro divide-se em duas partes, dedicadas à crítica da ciência e à sua negação. O autor defende que a crítica da ciência é importante e bem-vinda, mas radicalmente diferente da negação da ciência. Por "negação da ciência" entende-se o tipo de relativismo cognitivo ou epistemológico que Boaventura Sousa Santos e muitos outros autores defendem (ou defenderam, dado que o sociólogo parece aceitar agora que este relativismo é insustentável e até incompatível com os seus ideais políticos e sociais). Do ponto de vista deste relativismo, não há qualquer diferença radical entre a física, por exemplo, e a alquimia ou a astrologia: em ambos os casos, trata-se de práticas sociais que "inventam mundos".

Este debate intelectual, a que tem sido dado o nome absurdo de "Guerra das Ciências", é importante e que merece a nossa melhor atenção. Michael Ruse (autor de "O Mistério de Todos os Mistérios", Quasi) queixava-se há pouco tempo (na revista "American Scientist"), da incapacidade de Richard Dawkins para sair do discurso irónico e cheio de retórica vácua quando se trata de enfrentar este debate. E esta crítica é extensível a muitos cientistas - mas não a Jorge Dias de Deus. Com uma honestidade extraordinária, o autor procura ir ao encontro dos críticos da ciência, colhendo neles o que neles encontra de valor e procurando mostrar por que razão pensa que noutros aspectos tais críticos não têm razão. É verdade que o livro teria ganho com um maior conhecimento da bibliografia relevante - Michael Ruse, Susan Haack, Philip Kitcher, entre muitos outros filósofos - mas os cientistas têm tendência para ignorar a filosofia, considerando-a uma espécie de pré-história da Ciência. Ao procurar ir ao encontro dos críticos da ciência, o autor acaba por conceder mais do que é razoável conceder, pelo menos sem uma discussão cuidada. Por exemplo, o autor usa constantemente o termo "paradigma", sem explicar exactamente o que quer dizer com esta palavra. Por vezes, parece usar a palavra no sentido corrente de modelo ou ideal; outras vezes, parece usar o termo no sentido de Kuhn, aceitando sem discussão as teorias deste filósofo. E este é que é o problema.

O que provoca por vezes discussões azedas no que respeita à Guerra das Ciências é a acusação dirigida aos defensores do relativismo cognitivo de desonestidade intelectual - é esta a ideia central do livro de Sokal e Bricmont, "Imposturas Intelectuais" (Gradiva). Os relativistas cognitivos acusam por sua vez os cientistas de desonestidade intelectual - e o debate perde interesse, deslocando-se da universidade para a peixaria (ou para o parlamento, já agora). Curiosamente, o verdadeiro problema que precisa de ser discutido é o papel da crítica na vida intelectual e os processos de controlo de erros. É por isso que o prefácio de Jorge Buescu a "O Mistério do Bilhete de Identidade" (Gradiva) vale por mil discussões sobre a Guerra das Ciências. Porque neste prefácio o autor explica o que caracteriza a ciência: a crítica constante (o que implica a recusa da tradição e da autoridade como argumentos últimos) e o controlo sistemático de erros (o que implica "blind refereeing" e, uma vez mais, abertura à crítica). Quando se vê as coisas deste modo a diferença entre física e astrologia torna-se evidente: ao contrário do que acontece no primeiro caso, não há no segundo qualquer abertura à crítica, tudo depende da interpretação de textos "sagrados" que não podem ser colocados em causa, e não há a prática generalizada de tentar encontrar erros nos trabalhos dos colegas.

O respeito pela argumentação e pelas provas, em substituição da tradição e da autoridade, foi introduzido pelos gregos antigos no séc. V a.C. Nas fontes gregas vemos sistematicamente os autores a criticar-se mutuamente, distanciando-se do que consideram erros, explicando por que razão são erros, argumentando e apresentando provas. Nos textos de outras civilizações nunca encontramos tal coisa, segundo G.E.R. Lloyd ("The Revolutions of Wisdom", University of California Press). E isto é que marca a diferença entre a ciência e a bruxaria. Mas isto é igualmente o que marca a diferença entre qualquer prática académica séria (história ou química, filosofia ou física) e os usos ideológicos da academia ou as práticas pseudo-académicas, como a astrologia, a bruxaria, a alquimia, etc.

Tentando ir ao encontro dos críticos da ciência, Jorge Dias de Deus aceita, aparentemente, as ideias de Kuhn. Mas o problema é precisamente que, nos círculos relativistas, as ideias de Kuhn têm o estatuto de Verdade Revelada. Talvez Kuhn até tenha razão, mas não se pode ter a ingenuidade de pensar que as suas ideias estão firmemente estabelecidas nem que não há poderosos argumentos contra elas. É por isso que as acusações de desonestidade intelectual fazem sentido: em alguns casos, os críticos da ciência ignoram os argumentos e provas contrários às suas ideias preferidas, e escondem-se na citação e referência dogmática aos autores com os quais concordam, repetindo-se expressões análogas a "Como dizia Kuhn...". Acontece que Kuhn dizia e Popper negava e Haack nega os dois e não há maneira de fugir do trabalho académico sério: a análise cuidadosa, paciente e tão conscienciosa quanto possível das razões a favor e contra tais ideias. Este é o espírito crítico que nasceu com a filosofia e se tornou a alma da academia moderna - mas que tarda a tornar-se prática corrente em Portugal.

Quase no fim do livro, o autor argumenta contra a ideia de que a relatividade de Einstein, a incerteza de Heisenberg e o teorema da incompletude de Gödel provocaram uma crise na ciência. Esta ideia é cara aos relativistas cognitivos, mas resulta de confusões e desconhecimento. À relatividade de Einstein pode-se chamar "teoria das invariâncias", pois não se trata de dizer que "tudo é relativo" mas antes que algumas coisas não são relativas (como a velocidade da luz). O princípio da incerteza de Heisenberg não coloca em causa o determinismo nem declara que a realidade é uma construção social ou do observador - se o fosse, ninguém teria aceitado a teoria quântica, que levanta problemas de integração com a restante física. O teorema de Gödel não mostrou que não há verdades. O que mostrou, pelo contrário, foi que as teorias formalistas e construtivistas em matemática são falsas ou pelo menos muitíssimo implausíveis: quem pensa que a ciência é uma mera construção social tem no teorema da incompletude de Gödel um poderoso inimigo.

Como Mark Twain afirmou quando circularam notícias da sua morte, a notícia da Morte da Ciência (e da Morte da Filosofia e da Razão) foi um pouco exagerada. E num mundo em que tantos irracionalismos provocam mortes e sofrimento diários, professar o relativismo cognitivo é socialmente irresponsável - apesar de dar muito lucro e poder.

Da Crítica da Ciência à Negação da Ciência
AUTOR Jorge Dias de Deus
EDITOR Gradiva 119 págs., 9,50 euros
(c) 2000 PÚBLICO Comunicação Social, SA

Docente responsável pela leccionação: José Pinheiro Neves email: jpneves2004@yahoo.com.br

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