Quarta-feira, 26 de Outubro de 2005

Resumo da Aula teórica nº 3 - 25 de Outubro de 2005

 

Universidade do Minho


Curso de Sociologia – 1º ano


Metodologia das Ciências Sociais


 


Aula teórica nº 3 - 25 de Outubro de 2005


As origens do conhecimento científico moderno – Francis Bacon e o seu debate com Aristóteles


 


A questão epistemológica na Sociologia é referida normalmente a partir de Comte (conectado com o positivismo) e mais tarde em torno do debate entre o objectivismo de Durkheim e a sociologia compreensiva de Max Weber. No entanto, o debate do século XIX tem origens mais recuadas. De tal forma que, se não tivermos em conta a sua génese, nos arriscamos a ficar limitados dentro de dicotomias do tipo realismo/construtivismo; objectividade/subjectividade; dedutivo/indutivo; empirismo/racionalismo, etc. Glosando Bruno Latour, diria que é necessário entender a génese destas caixas negras de forma a tornar possível um outro jogo de linguagem. Numa palavra, interessa entender a fase propedêutica na medida em que nos limita no debate actual.


Penso que estes argumentos tornam legítima a viagem que gostaria de propor aos textos de Francis Bacon e David Hume, considerados tradicionalmente como os fundadores do método científico moderno. Nos capítulos seguintes começarei por demonstrar que não estamos perante os "fundadores" ortodoxos da ciência moderna. Antes pelo contrário: a releitura que proponho irá mostrar que estes autores encontram alguns argumentos que contradizem a forma actual de fazer ciência. Ora, se este argumento tiver alguma plausibilidade, teremos de admitir que os debates posteriores terão igualmente de serem objecto de uma rescrita. No fundo, será esse objectivo fundamental deste capítulo mais epistemológico. Por agora irei apenas reler alguns textos fundamentais de Francis Bacon e David Hume. Mais tarde, veremos as consequências deste debate nos tempos mais próximos a partir de autores como Popper, por um lado, e Wittgenstein e Kuhn, por outro.


 


Francis Bacon: o " fundador" da ciência moderna?


 


Para responder a questão formulada pelo título, farei uma breve descrição dos traços fundamentais do debate que atravessou a filosofia das ciências e da epistemologia desde o século XVII ao século XX.


Antes de entrar nesse tema, terei de fazer uma pequena explicação acerca dos temas "filosofia das ciências" e "epistemologia".


Como muito bem assinalou, Manuel Maria Carrilho estas expressões têm sentidos diferentes em função das tradições culturais.


“Na tradição anglo-saxónica a expressão “filosofia das ciências” não se confunde, como na tradição continental e sobretudo na latina, com a de “epistemologia”. “Epistemology” designa naquela tradição o que, entre nós, se chama em geral teoria do conhecimento, e a “philosophy of science” é, mais especificamente, a parte da filosofia que se interessa pelos problemas que são suscitados pelo conhecimento científico, na diversidade dos seus domínios, dos seus métodos e dos seus objectivos” (Carrilho, 1994: 11) [Ver: Manuel Maria Carrilho, A filosofia das ciências. De Bacon a Feyerabend, Lisboa, Editorial Presença, 1994, pp. 13-17]


 


 


Ou seja, a filosofia das ciências não apresenta um carácter tão normativo como a epistemologia. Não se trata de sugerir uma teoria do conhecimento científico. No entanto, após os autores clássicos fundadores, Bacon e Hume, esta filosofia numa das suas correntes sempre foi atraída por essa tentação de definir o que era a verdadeira ciência. Durante muito tempo, o debate na filosofia das ciências principalmente a partir do surgimento do empirismo, centrou-se em torno do problema de saber qual é a importância do processo indutivo. Segundo Manuel Maria Carrilho,


“A filosofia das ciências nasce [...] com a tentativa de determinação das características do que é específico da cientificidade. [...] desenvolvendo-se em torno da oposição entre aqueles que — como Mill, Mach, Hempel — concebem a actividade científica como uma actividade em que as hipóteses decorrem, tanto quanto à sua formulação como no que se refere à sua justificação, de processos indutivos que partem do particular para o geral e que, além disso, por um lado identificam a determinação das causas com a da regularidade das ocorrências e, por outro, procuram reduzir as entidades teóricas a funções observáveis de que a indução, precisamente sempre parte; e aqueles que — como Whewell, Campbell, Popper — sustentam que a elaboração de teorias não é explicável a partir da indução e que, portanto, não se podem reduzir os conceitos teóricos à sua função lógica ou à sua base observacional”. (Ibid.: 11-12]


 


Apenas no século XX, se pode dizer que há uma espécie de retorno aos fundadores da filosofia das ciências, em que o debate se deixa de centrar em torno dos aspectos formais para se situar nos próprios fundamentos do conhecimento científico, entendo-o como algo de arbitrário e como fruto de circunstâncias históricas e civilizacionais.


“Durante as últimas três décadas dá-se, mais do que uma reformulação dos problemas tradicionais da filosofia das ciências, a constituição de uma problemática nova: sob o impacte das teorias de T. S. Kuhn e de P. Feyerabend — e da conjugação destas com algumas contribuições do que se tem chamado a filosofia pós-analítica — desenvolvem-se tematizações de novos problemas, começando assim a constituir-se um panorama que apresenta algumas interessantes singularidades” (Ibid.: 12).


 


 


Depois desta breve introdução, iremos em seguida fazer uma pequena apresentação de Bacon e das grandes linhas da sua obra. Por fim, faremos uma "re-visão" da sua concepção de ciência.


 


Francis Bacon (filósofo inglês, 1561-1626): traços fundamentais da sua obra.


 


O objectivo fundamental de Bacon é o de entrar em ruptura com a lógica aristotélica de leitura do mundo. Caracteriza essa visão antiga como sendo "antecipatória", propondo, em sua substituição, uma lógica de "interpretação". O que é a Antecipação? "A antecipação move-se entre coisas e acontecimentos particulares e princípios absolutamente gerais. [...] satisfaz-se com a indicação dos axiomas intermédios que permitem passar dos princípios ao mundo das coisas e vice-versa. Pelo contrário, a interpretação aposta antes no movimento gradual mas constante que, metodicamente enquadrado, permite chegar aos princípios a partir das coisas e dos acontecimentos particulares. [...] E aqui o que interessa a Bacon é realçar a eficácia da via interpretativa e a inutilidade, a esterilidade da via antecipadora” (Ibid.: 14).


Aparentemente Bacon sugere que uma indução mais empirista poderia constituir uma opção válida em relação a indução lógica aristotélica. Segundo alguns autores, esta operação constitui a parte mais original de Bacon como fundador do método científico. No entanto, consideram que ainda está atravessado por uma espécie de aristotelismo reformado. A sua indução não permite revelar as ordens das causas, pois ele sugere uma ordem formal. Usando as suas palavras, para Bacon não se trata de formular uma lei ou efectuar uma descrição verdadeira do que se passa, mas sim de um "começo de interpretação".


Como diz Manuel Maria Carrilho, “Bacon inflecte no sentido do aristotelismo reformado. É por isso que a indução não se limita a revelar as ordens das causas; Bacon dá outro passo e assimila esta ordem a uma ordem formal" (Carrilho, 1994: 16).


De facto, poderíamos pensar que Bacon estaria influenciado por uma lógica de defeito em relação ao formalismo aristotélico, seguindo a argumentação de Manuel Maria Carrilho. Ainda segundo o mesmo autor, "Bacon foi no entanto um pensador ainda marcado pela tradição filosófica que resistia à instauração desse mesmo espírito [científico]: daí os compromissos com o aristotelismo, daí também o desconhecimento do papel vital da matemática nas ciências emergentes” (Carrilho, 1994: 16).


Na minha opinião, esta abordagem de Bacon, como tendo algo de deficiente, não parece muito produtiva. Diria mesmo que se trata ainda de uma abordagem assente na lógica da grande narrativa científica. Glosando Lyotard, parece-me que uma leitura perlaborada de Bacon poderia mostrar-nos que este autor comunga, até certo ponto, das preocupações que mais tarde aparecerão em autores como David Hume, Wittgenstein, Kuhn, Feyerabend, etc. Para isso, irei seguir em pormenor a argumentação de Francis Bacon.


A obra principal de Bacon: " A nova lógica"


A sua obra "A nova lógica" fazia parte de uma obra mais global intitulada "A grande instauração" na qual Bacon pretendia fornecer uma enciclopédia dos saberes em torno de três faculdades: a memória, a imaginação e a razão. Um dos capítulos desta obra, dedicado à razão, destinava-se a propor uma formulação da lógica aristotélica. Daí o seu título — a nova lógica. Defendia uma estratégia metodológica que ultrapassasse a "falsa" indução aristotélica. Para isso, ele divide este capítulo em dois livros: o primeiro, que ele designa por parte destrutiva, consistia em denunciar os erros comuns, os fantasmas – "edolas" que impedem o conhecimento verdadeiramente indutivo. Ele nunca sugere, ao contrário de algumas interpretações, um conhecimento dito verdadeiro da natureza. O que ele sugere é que o seu método poderá estar mais próximo de uma interpretação válida da natureza. Para isso, era necessário "que os homens estivessem de novo em contacto com a natureza para ver as coisas com os olhos não contaminados" (Farrington, 1971: 99). [Ver: Benjamin Farrington, Francis Bacon. Filósofo de la revolución industrial, Madrid, Ed. Endymion, 1971. Ed original: Benjamin Farrington, Francis Bacon: Philosopher of Industrial Science (1949, reprinted 1979)].


No entanto, alguns aforismos de Bacon, nesta parte mais "destrutiva" da nova lógica, darão origem a alguns equívocos. Uma das frases de Bacon foi a seguinte: "o curso que proponho seguir para o descobrimento das ciências, é de tal forma que deixa escasso lugar a agudeza e poder do intelecto pois situa todas as inteligências quase ao mesmo nível". (Livro 1 da nova lógica, aforismo 61 citado por Farrington, 1971: 120). Mais à frente, Bacon faz uma afirmação que irá igualmente dar origem a interpretações contraditórias " porque enquanto que para traçar a mão uma linha recta ou um círculo perfeito se requer uma grande firmeza e pratica manuais, já com a ajuda de régua e compasso, pouco ou nada se precisa daquilo; exactamente o mesmo ocorre com o meu plano. (Ibid: 120-121)


Estas duas afirmações, retiradas do seu contexto poderão ser deficientemente interpretadas no sentido de mostrar que o seu método científico era incomparavelmente superior ao conhecimento filosófico anterior considerado como especulativo e não verdadeiro. Segundo Farrington, não parece ser essa intenção de Bacon, pois o que ele pretendia era mostrar que o seu método autenticamente indutivo poderia ser mais rico em termos de conhecimento do que a lógica grega antiga. Mas mais do que isso, o objectivo de Bacon nunca foi de criar uma ciência experimental, no sentido actual do termo, associado a uma lógica de laboratório ou de investigadores especialistas.


Não podemos esquecer que a componente da sua obra que Bacon pensava dedicar ao método indutivo iria ser constituída por nove partes. Paradoxalmente, ele dedicou mais linhas à parte mais destrutiva do que a parte construtiva. Como ele próprio disse, a nova lógica inseria-se num projecto global que implicava uma nova relação do homem com as coisas. O que ele designava um novo comércio com as coisas humanas e não humanas (entendendo comércio tudo aquilo que implique uma rede). De facto, o primeiro livro da nova lógica, "dedica-se à crítica de sistemas anteriores, e o próprio Bacon chama a este Pars Destruens. A parte destrutiva da sua obra. A parte construtiva, o método, as regras precisas para a indução, tinham no entanto que elaborar-se. Enumera Bacon nove partes do seu método e só trata de uma delas. Mas as oito restantes nunca foram escritas, nem sequer esboçadas em linhas gerais, embora Bacon tivesse vivido mais seis anos e escrito profusamente. The New Logic, como a maior parte do The Great Instauration continua sendo um fragmento" (Farrington, 1971: 119).


Quando entramos no segundo livro é interessante verificar que Bacon não começa por apresentar argumentos epistemológicos. Segundo ele, não se trata apenas de compreender a natureza. Mais importante é a relação entre homem e natureza no seu sentido mais global. De uma forma lata, poderíamos mesmo dizer que Bacon, mais do que um epistemólogo, é acima de tudo um sociólogo. Na verdade, no seu primeiro aforismo do segundo livro Bacon diz:


"Num corpo dado, gerar e sobre induzir uma nova natureza ou novas naturezas é a função e meta do poder humano. Descobrir a forma de uma dada natureza, ou a verdadeira diferença específica, ou a natureza-engendradora da natureza, ou a fonte de emanação (porque estes são os termos mais próximos da descrição da coisa), é a função do conhecimento humano". (Farrington, 1971: 123).


Podemos interrogar-nos sobre o significado que Bacon dá à esta frase "gerar ou sobre induzir uma nova natureza num dado corpo?" Segundo Farrington, Bacon defendia algo bastante prático: "os seus diversos escritos proporcionam abundante literatura sobre o tipo de empreendimento que Bacon tinha em mente. Entre eles encontramos, por exemplo, um projecto para fundir metais para uma grande variedade de propósitos. […] tudo isto se baseava na experiência prática de Bacon, na sua experiência com metais e minerais. Entrando mais em detalhe um dos seus projectos consistia em misturar o ferro com o pedra para conseguir o que chamaríamos de aço. Tem a esperança de produzir um metal que seja mais leve que o ferro e mais resistente a oxidação" [esse metal teria múltiplos usos: na cozinha, nas guerras, etc.] (Farrington, 1971: 123).


 Mas estas afirmações poderão ser entendidas a partir de um outro ponto de vista. Para Bacon, a relação que estabelecemos com a natureza, o poder de criar não estava separado da capacidade de conhecer. As duas estavam intimamente relacionadas, visto que tal como um escultor trabalha o mármore tendo em vista conseguir produzir uma estátua, também aquele que quer conhecer, actua segundo um processo semelhante. Valerá a pena determo-nos um pouco nesta argumentação porque ela, no limite, sugere a solução para um problema que a filosofia das ciências irá auto-criar nos anos posteriores.


 Pode parecer paradoxal, mas Bacon sugere já uma solução para um problema que ira ser criado depois da sua obra. Em que consiste este problema? Como veremos mais adiante com David Hume, consiste em saber se é possível um conhecimento universal e relativamente verdadeiro passível de um conhecimento antecipatório.


 


Bacon sugere diz-nos que conhecer uma coisa não é muito diferente do acto de a transformar. Esta frase numa primeira leitura poderá ser considerada ingénua, porque mistura um acto epistemológico com um acto físico. Mas, se reflectirmos com atenção, veremos que tanto o conhecer como o transformar são acima de tudo marcas (é interessante verificar que apenas quatro séculos depois, esta intuição de Bacon mereceu o estatuto de algo científico com a sociologia da ciência produzida por autores como Kuhn, Latour, etc).


Se relermos, com vagar, o aforismo introdutório de Bacon, podemos tornar mais plausível esta hipótese.


Enquanto que a primeira frase diz que a capacidade de gerar uma nova natureza é a função e o objectivo do poder humano, já o conhecimento humano consiste em descobrir, repito, a forma de uma dada natureza. E mais a frente num parêntesis Bacon acrescenta estas palavras: esta forma constitui um dos "termos mais próximos da descrição da coisa". Sublinhemos esta afirmação: encontramos nela primeiro a ideia de que os termos, a forma, são aproximações, tentativas de chegar à coisa. Além disso, estas tentativas têm um estatuto claro: não passam de descrições.


De facto, quando Bacon diz que é necessário descobrir a "forma" de uma dada natureza ou a verdadeira "diferença" ou então a natureza "engendradora" ou a fonte de emanação não está sugerir nada que se compare com o conhecimento posterior dito científico. Pelo contrário, ele ainda se integra na reflexão filosófica, no debate em torno da indução aristotélica.


Por isso, talvez valha a pena entender a origem dessa preocupação com as causas da coisa — aqui estou a acompanhar o pensamento de Farrington, embora o re-escreva.


Na verdade, Bacon parte das reflexões de Aristóteles sobre a quádrupla doutrina causal: causa material (no exemplo do escultor seria o mármore), a causa eficiente (o escultor), a causa formal (a forma que o escultor adoptou) e a causa final (a razão que levou o escultor a fazer a estátua).


Para Bacon, a última causa, a razão que leva a existência das coisas remete para algo abstracto e, como tal, não deverá merecer a nossa atenção. Tratava-se de um conhecimento especulativo que não tinha nada a ver com as necessidades de transformação de natureza. Por isso, o mais importante seria conhecer as três primeiras causas porque são elas a base de um conhecimento interpretativo, mais próximo da descrição da coisa.


E, entre estas três causas (material, eficiente e formal), a mais importante segundo Bacon é a formal, ou seja, o conhecimento humano é, acima de tudo, uma aproximação à coisa fundada em formas.


O conhecimento sugerido por Bacon embora assente numa lógica empírica, a partir da observação da natureza, sugeria algo para além dessa experienciação. Mas este algo, que iria permitir "conhecer" a "coisa", era designado com o termo forma. Esta palavra era entendida no seu sentido mais humilde, o mais próximo possível da experienciação directa e não como um conjunto de abstracções passíveis (as leis de Newton) de ser aplicadas ao inobservável [como, mais tarde, Hume acentuou] que padecem, no essencial, da mesma ambição de Aristóteles: a causa final.


 


Conclusão: Bacon separa-se claramente de Aristóteles e do seu conhecimento literato e antecipatório.


 


“Aristóteles falava de causa material, de causa eficiente, de causa formal e causa final, como das quatro pré condições necessárias para a existência ou compreensão de qualquer coisa […]. Bacon recusava este emprego das causas finais na filosofia natural. Não considerava útil perguntar para quê as coisas são como são [final]. Contudo, retia as outras três causas, como seria de esperar, mas dando-lhes uma volta.


 


O objectivo de Bacon […] era sobre induzir novas naturezas num dado corpo. Para fazer isso, era necessário ter um conhecimento das causas. Mas é possível colocar esse conhecimento e poder a dois níveis. Se, por exemplo, se sabe como tornar incorruptível o cristal e inoxidável o ferro, então conhecer-se-á tanto as causa materiais como as eficientes nos dois casos. As causas materiais seriam o cristal e o ferro, e as causas eficientes seriam o procedimento técnico que o tornava incorruptível e inoxidável, respectivamente. Isso seria o conhecimento ao nível inferior.


 


"Um homem que conheça as causa eficientes e materiais — disse Bacon — poderá misturar ou separar ou reajustar ou melhorar coisas já descobertas. Poderá inclusive fazer novas descobertas num material similar e preparado. Mas não poderá deslocar as linhas de união das coisas fixadas solidamente".


 


Este nível inferior do conhecimento constitui o domínio da experientia literata […] [antecipações da natureza].


 


Mas para Bacon isto não era suficiente. Como sabemos, ambicionava uma extensão do poder e do conhecimento humano mais revolucionária. […] Deveria ser possível, não só fazer que o ferro seja inoxidável, mas também evitar que qualquer substância tivesse tendência a detiorar-se ao ser exposta. Isto implicava conhecer, não só as causa material e eficiente, mas também a causa formal. Conhecer-se-ia a forma da permanência na sua natureza especial".


 


 


"Bacon não considerava impossível que, se se seguisse energicamente na linha científica que ele propunha, os homens alcançassem um profundo conhecimento da natureza, de tal forma que o seu poder sobre ela fosse ilimitado" (Farrington, 1971: 124-125)


 


 


O exemplo do estudo acerca do calor em que se separa da forma de investigar dos gregos antigos


 


Vejamos o exemplo da sua investigação sobre o calor a partir do que diziam os gregos clássicos.


 


"O próprio Bacon dirigiu umas investigações sobre a natureza do calor. (…) … as noções fundamentais correntes na filosofia natural haviam sido elaboradas pelos antigos a partir do conhecimento superficial dos factos. Ele designava o método indutivo dos gregos como sendo de Enumeração Simples. Podemos explicá-lo através do que os gregos diziam do calor e do frio. Analisavam eles as coisas existentes, considerando quatro elementos: a Terra, a Água, o Ar e o Fogo. Dois destes eram quentes por natureza: O ar e o Fogo; dois eram frios: a Terra e a Água e tudo era metido por força nesta classificação superficial. […]


 


 


 


O problema de Bacon era como abrir caminho em direcção a algo mais fundamental. Insistia em que a nova indução devia cobrir um campo muito mais amplo de factos e que devia trabalhar a informação obtida mediante um novo método que ele designava por método das exclusões.


 


 


"Começando as suas investigações, Bacon lança primeiro quase à sorte um grande número de exemplos que têm como denominador comum a presença do calor. (...) A isto chamava uma Tabela de Essência e Presença, e confiava em que o número e a variedade das suas observações pudessem ser úteis. (...) Por essência e presença entendia que tanto a causa profunda do calor como o fenómeno perceptível do calor estão presentes em cada caso" [127].


 


Em seguida produziu uma outra tabela em que fala dos casos que, em condições semelhantes, não têm calor; A Tabela do desvio ou ausência.


 


"A ideia básica era isolar o objecto de investigação falando de exemplos como aqueles em que o calor havia estado presente mas que se distinguiam de eles pela ausência de calor. (...) A luz do Sol aparecia como o primeiro exemplo de calor. A luz da Lua tinha em comum com a luz do Sol que ambas procedem de uma fonte celestial, mas parece carecer de calor. Isto pode ser importante. Bacon chamava a isto um exemplo negativo, e continua em busca de exemplos negativos.


 


Não poderia encontrar nenhum exemplo seguro de chama que carecesse de calor, mas menciona o ignis fatuus e o Fogo de São Telmo (fosforescência no mar: “Fosforescência; substantivo feminino; Física: propriedade que têm certos corpos sólidos de emitir radiações luminosas depois de terem sido expostos à acção da luz, especialmente ultravioleta; fenómeno luminoso que se observa em certas zonas oceânicas, devido à quantidade de animais fosforescentes à superfície”, in Dicionário de Língua Portuguesa, Porto Editora), e sugere que se investigue mais estes casos.


 


Também não pode encontrar nenhum exemplo de substância que não se aqueça por fricção, ou de animal que não seja quente. Passa por um longo processo, em suma, por um novo exame dos fenómenos naturais, sugerido pelos vinte e sete exemplos positivos nos quais encontrou que estava presente o calor, e encaminhado a encontrar condições semelhantes nas em que estivera ausente o calor. […] Na Tabela do desvio ou ausência".


 


 


"Na continuação passou a elaborar uma tabela das variações no grau do calor, tanto no mesmo corpo em tempos diferentes, como num corpo em comparação com outro. Este procedimento (...) leva a uma Tabela dos graus ou Tabela das comparações. Armado com estas tabelas, procede ao labor da Indução mediante o método das Exclusões. (...) Podemos dar uma ideia aproximada de como funcionava este método. Entendia por Exclusão, a recusa de uma teoria falsa.


De este modo, poderíamos perguntar:


 


é o calor unicamente um fenómeno celeste? Não; os fogos na terra são quentes.


 


É então um fenómeno apenas terrestre? Não, o sol é quente.


 


São quentes todos os corpos celestes? Não, a lua é fria.


 


 Depende o calor da presença num corpo quente de alguma parte constitutiva, como o antigo elemento do Fogo? Não, qualquer corpo se pode tornar quente por fricção.


 


Depende o calor da textura do corpo? Não; um corpo com qualquer textura pode ser aquecido.


 


E assim sucessivamente ". [128]


 


Depois de muitas observações, tratava-se de formular uma solução provisória com uma hipótese não como uma antecipação (caso dos gregos) mas com um começo de interpretação: "O calor é um movimento de partículas menores dos corpos, nas quais se reprime uma tendência a separar-se. Isto, desde logo, supõe um avanço revolucionário em relação à antiga doutrina grega". [129]


 


"Uma vez dadas as suas tabelas, ilustrado o seu método de exclusões (...) Bacon fornece em seguida uma lista de nove ajudas adicionais ao intelecto (...). Exemplos privilegiados; apoios à indução; rectificação da indução; variar a investigação segundo a natureza do sujeito; o que deveria ser investigado em primeiro ou último lugar; limites da investigação; Aplicação à prática; Preparações para a investigação; e, por fim, a Escala de Axiomas Ascendente e Descendente [129].


 


Destas nove ajudas, apenas maneja a primeira (...). As outras oito foram sacrificadas à sua decisão de abandonar a lógica e dedicar-se à secção seguinte de The Great Instauration" [129-140] e à escrita de romances de ficção científica (sobre a Atlântida).


 


 


 


 


Conclusão


 


Depois desta viagem pelo texto de Bacon, penso que estou em condições de avançar com as principais linhas de força do seu pensamento.


Em primeiro lugar, Bacon muito dificilmente poderá ser reduzido ao estatuto de fundador do método científico. A sua proposta de ciência parece-me ser bastante diferente do modelo empirista adoptado nos séculos anteriores.


Em segundo lugar, também não me parece correcta a tese que afirma que Bacon teria uma espécie de defeito que consistiria no seu lado mais "aristotélico". Pelo contrário, este autor tenta um equilíbrio difícil entre uma lógica empirista e uma lógica mais teoricista. Ao propor uma rescrita da indução aristotélica, Bacon ensaia um outro olhar sobre a dicotomia habitual que nos nossos dias atravessa os debates "epistemológicos".


Diria mesmo que, mais do que um equilíbrio, o que ele sugeriu foi uma nova maneira de colocar o problema do conhecimento tanto da coisa física como da coisa social. Por isso, em vez de procurarmos um conhecimento verdadeiro da coisa, talvez fosse mais sensato contentarmo-nos com descrições aproximadas da coisa que não ficariam reduzidas a descobrir causalidades materiais ou ligadas à acção. (causa eficiente.). Por isso, segundo este autor o conhecimento mais aprofundado deveria centrar-se no estudo das formas, entendendo estas mais como instrumentos provisórios passíveis de serem usados em descrições ou, como ele diria mais tarde, como começos de interpretação.


O que notável é que estes termos, que à primeira vista nos parecem ingénuos, vão ser escolhidos por autores muito mais recentes. Na verdade, o projecto de Bacon retomado parcialmente por David Hume ou por um conjunto de filósofos considerados marginais será ressuscitado, no século XX por cientistas — ver o caso de Kuhn, doutorado em física — e por sociólogos e filósofos, tais como Michel Serres ou Bruno Latour entre muitos outros.


 


David Hume e o problema do inobservável


 


De tudo o que escreveu Bacon, o que é que restou?


 


Paradoxal e contrariamente à interpretação proposta pelo capítulo anterior, apenas restou a sua "consagração" trágica como fundador do método científico moderno. No entanto, este processo não foi linear. Outras vozes, na maior parte dos casos pouco escutadas, se ergueram e sugeriram leituras alternativas, formas diferentes de encarar a questão epistemológica.


Uma dessas vozes foi David Hume que, no essencial, se aproximou bastante da abordagem de Bacon. No entanto, enquanto que no tempo de Bacon a ciência, tal como a conhecemos hoje, era ainda bastante incipiente, já no caso de Hume ele viu-se obrigado a entrar em debate com a abordagem empirista da ciência apoiada na linguagem matemática. Por esse motivo a estratégia de Hume é mais subtil e já não consiste em definir o que é ciência. Para Hume, tratava-se de interrogar as justificações racionais e lógicas que sustentavam a actividade dos cientistas do seu tempo.


Ao contrário do que estes diziam para Hume a justificação racional e lógica que sustentava a formulação de leis gerais — passar de um número reduzido de casos para a expectativa de estes casos se repetirem universalmente — é "um fenómeno que decorre simplesmente do hábito e das crenças que ele suscita (…). A ilusão de que esta [fundamentação lógica] é possível decorre de se confundir a conjunção dos acontecimentos com a sua conexão. E de se pensar que a determinação de causas e efeitos decorre da necessidade interna deste ultimo tipo de ligação entre acontecimentos" (Carrilho, 1994: 20).


Ver a próxima aula (2 de Novembro de 2005 – aula prática que substitui a teórica) acerca do “O problema de David Hume: um problema que nunca será resolvido!” que será colocada no blog da disciplina (http://metodologia.blogs.sapo.pt) até 31 de Outubro de 2005.


 


 

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