Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005

Resumo da Aula teórica nº 4 - 4ª feira, 2 de Novembro de 2005 - O problema levantado por David Hume à ciência de Newton

 

Universidade do Minho


Curso de Sociologia – 1º ano – Metodologia das Ciências Sociais


Aula teórica nº 3 - 4ª feira, 2 de Novembro de 2005 (excepcionalmente será dada nas aulas práticas de 4ª feira das 14-16h e 16h-18h).


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O ponto de vista de um filósofo que despertou Kant do seu sono dogmático: David Hume


 


"David Hume morreu aos sessenta e cinco anos, em 2 de Agosto de 1776. Conta-nos o seu melhor biógrafo, Ernest Mossner, que ao passar o seu funeral alguém na rua comentou: "Ora, era um ateu". Ao que outro respondeu:"Não importa, era um homem honesto". E, de facto, não têm conta os testemunhos acerca da sua impecável figura humana" (Monteiro, 1984: 12).


 


Iremos ver exemplos concretos da análise de Hume, a partir de Newton (o seu modelo de ciência). Pretende-se fundamentalmente tornar claro o projecto de Hume defendendo que a actividade científica tem por base um problema: aceita o inobservável.


 Vamos ler um texto de Hume:




"Ao inferirmos alguma causa particular a partir de um efeito, devemos proporcionar uma ao outro, e jamais nos deve ser permitido atribuir à causa quaisquer qualidades, a não ser as que são rigorosamente suficientes para produzir o efeito.


Um corpo de dez onças erguido em qualquer balança serve de prova de que o contrapeso excede dez onças, mas nunca pode fornecer uma razão de que ele exceda uma centena. Se a causa, para algum efeito, não for suficiente para o produzir, devemos ou rejeitar essa causa, ou acrescentar-lhe qualidades tais que lhe dêem uma justa proporção que lhe dêem uma justa proporção ao efeito.


Mas, se lhe atribuirmos mais qualidades ou afirmarmos que ela é capaz de produzir outros efeitos, podemos apenas conceder a permissão de conjecturas e supor arbitrariamente a existência de qualidades e energias, sem razão ou autoridade" [in David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Edições 70, 1985, p. 132].


Assim para ele, em relação a "um objecto ou a um acontecimento natural, toda a nossa capacidade e toda a nossa penetração são incapazes, sem experiência, de descobrir, ou mesmo de conjecturar, que acontecimento resultará deles, ou a levar as nossas previsões para lá do objecto imediatamente presente à memória e aos sentidos.


Mesmo depois de um caso ou de uma experiência única, em que tenhamos observado que um acontecimento se segue a outro, não estamos autorizados a formar uma regra geral ou a prever o que acontecerá em casos análogos; porque se considerará correctamente como uma temeridade imperdoável julgar todo o curso da natureza por uma experiência isolada, ainda que precisa, ou certa.


Mas quando uma particular espécie de acontecimentos aparece sempre, em todos os casos, conjuntamente com uma outra, não hesitamos muito tempo para prever uma a partir do aparecimento da outra, e para utilizar este raciocínio que é o único que nos pode dar a certeza sobre uma questão de facto ou de existência. Chamamos então um dos objectos causa e o outro efeito" David Hume, Enquête sur l'entendement humain (1748), Trad. Francesa, Paris, Aubier Montaigne, 1969, p. 122, citado por Carrilho).


 


O PROBLEMA DE HUME


 


“A passagem dos casos particulares observados à expectativa de ocorrências futuras similares — e, portanto, à formulação de um enunciado geral — é um fenómeno que decorre simplesmente do hábito e das crenças que ele suscita, e que não é susceptível de qualquer fundamentação lógica”. [20]


 


Um exemplo concreto da prática da ciência daquela época e da posição de HUME


 


A hipótese da gravidade


 


Hume refere-se à gravidade newtoniana em três textos. Num deles esse conceito é discutido juntamente com o da inércia:


 


1.                    "Constatamos através da experiência que um corpo em repouso ou em movimento permanece sempre no seu presente estado, até deste ser tirado por alguma nova causa, e que um corpo impelido tira tanto movimento do corpo impulsor como o que ele próprio adquire. Quando chamamos a isto vis inertiae, apenas assinalamos estes factos, sem pretendermos ter qualquer ideia de um poder inerte; do mesmo modo que, quando falamos de gravidade, indicamos certos efeitos, sem abranger esse poder activo".


 


Noutro texto da mesma obra, a gravidade é apresentada em paralelo com outros princípios naturais:


2.                    "A elasticidade, a gravidade, a coesão das partes, a comunicação por impulso; são estas provavelmente as causas e os princípios últimos que jamais descobriremos na natureza: e poderemos considerar-nos suficientemente felizes se, mediante rigorosa investigação e raciocínio, conseguirmos subir dos fenómenos particulares até, ou quase até, esses princípios gerais".


 


O terceiro texto é do Tratado da natureza humana e, nele, Hume apresenta os casos em que o conhecimento se dá sem referência directa à experiência passada:


3.                    "Podemos em geral observar que em todas as mais fixas e uniformes conjunções de causa e efeitos, como as da gravidade, do impulso, da solidez, etc., o espírito nunca dirige expressamente a sua atenção para qualquer experiência passada" [69].


 


Resumindo


 


"Se examinarmos com atenção estes textos, veremos que é difícil, numa primeira observação, encontrar neles uma concepção única e clara da gravidade.


Porque no primeiro diz-se que ela é um efeito, ou efeitos; no segundo, ela aparece como uma causa; e no terceiro ela surge como uma conjunção de causas e efeitos". [69]


"Poderia parecer que os três textos correspondem a três distintas concepções de ciência" [70].


 


1.                    Observacionalismo ¾ forma extrema de positivismo


2.                    Anti – causalista ¾ relações funcionais entre eventos [Russell]


3.                    Explicação ¾ adoptada pelos criadores da ciência moderna.


 


"O estatuto epistemológico da gravidade, nos textos de Hume, aparece como um enigma. Para nos aproximarmos de algo parecido como uma decifração, torna-se necessário examinar mais profundamente a sua filosofia" [73].


"O significado de um termo não é o objecto por ele referido: este é apenas o seu referente. O termo "cadeira", por exemplo tem como referente o objecto que habitualmente designamos por esse nome, mas o seu significado não "é" esse objecto" [84].


 


Pergunta: "em que termos ela [esta distinção] pode ser aplicada ao problema humeano da gravidade?


 


Este termo tem como referente uma força inobservável, que é postulada como causa de uma série de fenómenos. Neste sentido, dizer que a gravidade é uma causa ou princípio geral é dizer que o seu referente é uma certa força de atracção, a qual assume, no interior da teoria, o papel explicativo de um princípio causal, e cuja existência real a teoria nos convida a aceitar.


Da perspectiva referencial é irrelevante a diferença entre uma causa inobservável como esta e uma causa observável.


O termo "fogo" refere o objecto observável que descobrimos, por inferência causal, ser a causa do calor, e o termo "gravidade" refere a causa inobservável que a nossa teoria descobriu ser a causa do movimento dos planetas e de outros fenómenos — sem que o segundo caso seja, em nada, menos legítimo do que o primeiro.


Mas do ponto de vista do significado há diferenças. [84].


Os termos teóricos distinguem-se dos termos observáveis na medida em que se referem a inobserváveis, e em que a justificação para se postular esses inobserváveis é que a existência destes é a melhor explicação possível para uma dada ordem de fenómenos


“Gravidade", tal como hábito, é um termo teórico. Qual o significado deste termo teórico? …é empírico. (…) Indicar o significado empírico de um termo teórico como gravidade consistirá em apontar para os efeitos (...) que são instrumentos dessa comprovação" [85].


1.                    ” Do mesmo modo que, quando falamos de gravidade, indicamos certos efeitos, sem abranger esse poder activo".


2.                    “…E poderemos considerar-nos suficientemente felizes se, mediante rigorosa investigação e raciocínio, conseguirmos subir dos fenómenos particulares até, ou quase até, esses princípios gerias".


"Mas o acordo profundo [entre os textos 1 e 2] relaciona-se (…) com a [seguinte] concepção da ciência (…): (...) como explicação causal, usando termos teóricos como princípios gerais capazes de dar conta dos fenómenos visíveis" [86].


 


Será que isso é assim tão claro?


 


Voltemos agora ao texto 3 de Hume


 


"Este [terceiro texto] situa-se no nível da observação vulgar, não científica [refere-se à constatação vulgar de que os graves caiem para a terra — com a única diferença que aqui se trata de uma disposição observável dos corpos, e não de uma conjunção], e não se justifica qualquer suspeita de que ele, como poderia parecer, seja caudatário de ciência (…).


Não se trata de ver na gravidade apenas uma relação funcional, trata-se simplesmente (…) de dar um exemplo entre outros de uma conjunção entre causa e feitos observáveis que é familiar a todos (…) [88-89].


 


1.                  Conclusão


 


A filosofia da natureza era ainda, tal como no tempo de Bacon, o equivalente da ciência moderna: os filósofos eram cientistas, ou então, como no caso de Hume, inspiravam-se na prática de cientistas com os quais tinham relações de proximidade — Newton.


Este contexto explica algumas contradições, a ambição gestaltica, ainda — e felizmente — tipicamente renascentista, de não só conhecer mas melhorar, transformar o mundo Hume, tal como parte Bacon, defendia um naturalismo muito próximo do ecologismo actual.


Um naturalismo "que encara o homem como parte integrante da natureza, e encontra nas forças e nos processos naturais a raiz da natureza humana, da capacidade de conhecer e da direcção dos desejos do homem. Numa recusa de todo o dualismo, o da alma e do corpo, ou o da acção e da natureza”.


A ambição de Hume era global: como conhecer e entender não só a natureza mas também os seres humanos, não no sentido de uma epistemologia rigorosa típica do positivismo posterior mas numa ética humanista (ver o texto sobre David Hume no livro Sociologia, do ISEG).


Este contexto também está presente numa certa ambiguidade, e nalgumas contradições presentes no uso que faz de termos como causa e efeito (ver os seus exemplos de leis de fenómenos físicos estudados por Newton como a gravidade terrestre, a atracção entres os corpos, etc.).


 


Questão principal:


Haverá razões para afirmar que Hume, nos textos em que caracteriza a sua ciência do homem, ou nos seus comentários gerais acerca da ciência, nos faz esperar que a sua prática científica seja conforme a um modelo observacionalista, indutivista da ciência moderna (a prática dos cientistas desde Newton)?


 


A resposta é negativa.


Procurei mostrar que Hume, apresenta a ciência, ou aciência em geral (com a excepção, naturalmente das ciências formais [matemática]), como uma "a invenção de hipóteses acerca de inobserváveis — os princípios, ou qualidades, ou poderes inobserváveis da natureza humana" [42]. 


Esta é a base do problema de Hume, referido mais tarde pela filosofia da ciência do século XX (Popper e Kuhn).


 


 


 


 


Bibliografia


 


Carrilho, Manuel Maria, A filosofia das ciências. De Bacon a Feyerabend, Lisboa, Editorial Presença, 1994


Farrington, Benjamin, Francis Bacon. Filósofo de la revolución industrial, Madrid, Ed. Endymion, 1971.


Hume, David, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Edições 70, 1985.


Monteiro, João Paulo, Hume e a Epistemologia, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984.


 


 

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