Domingo, 18 de Junho de 2006

A tristeza é anticientífica

Jornal "Público" Sábado, 10 de Junho de 2006

 

A tristeza é anticientífica

Eduardo Prado Coelho

 

   É um livro estranho, inclassificável, perturbante e extremamente brilhante aquele que nos propõe Gonçalo M. Tavares. Chama-se "Breves Notas sobre Ciência" e é publicado pela Relógio d"Água. O leitor distraído (e todos os leitores têm tendência a sê-lo) poderá folhear e supor que se trata de uma obra de poesia - que vamos encontrar pequenos poemas em prosa. E, por exemplo, em dada altura, temos um breve bloco de texto que se intitula "A teoria da neve", e diz o seguinte: "Sabemos o que é a neve. Encanta, hoje. Brincamos com ela. Olhamos em volta e só vemos a sua cor branca. O nosso mundo foi ocupado pela neve. Sabemos, pois, o que é a neve. E sabemos o que é uma teoria científica. Só que o Inverno não é eterno."


   Cada um destes textos é belo, mas num sentido rigoroso do termo. É belo porque está impregnado de alegria. Toda a tristeza é anticientífica. E é belo porque "o cientista perfeito é também jardineiro: acredita que a beleza é conhecimento. (A pessoa bela tem um segredo. Descobriu algo)". E noutro poema podemos ler: "Embelezar é uma outra metodologia científica. A beleza é um dos gritos de Eureka."


   Então temos de ir por partes e começar por afirmar: este não é um livro de poesia. É um livro sobre a ciência. E é de certo modo (como poderia deixar de ser assim?) um livro científico. Mas não é nenhum tratado, longe disso, nem sequer um ensaio científico. É um livro, aliás, profundamente poético: que, sem ser poesia, se pode ler como se o fosse.


   Mais uma vez Gonçalo M. Tavares nos surpreende. Raramente encontramos autores literários com esta fulgurante inteligência das coisas. E com esta estranha e deslumbrante capacidade de inventar o formato dos livros, o livro como suporte, e simultaneamente a literatura e a escrita, em cada novo livro. Caso único, que por vezes nos deixa literalmente estupefactos. Ou, se preferirem, de boca aberta (mas porquê abrir a boca?).


   Estas "Breves Notas sobre a Ciência", sendo científicas e poéticas, são profundamente filosóficas. E é aí, nessa capacidade de pensar e de avançar por incursões naquilo que não se sabe, que o livro ganha uma dimensão impressionante. Para Gonçalo M. Tavares, a ciência cria abstracções, mas é fundamental que deixe um resto, porque só o resto permite um retorno ao real, à terra firme e pedregosa. "A abstracção é útil na ciência se deixares, como no conto infantil, migalhas para identificar o caminho de volta. Porém, por vezes, és tu mesmo que distraído, ou por apetite, devoras a própria possibilidade de regresso. E, além, perdido, ficas: nas ideias esplêndidas. (Quanto mais caminhas mais apetite tens, e o teu percurso é em círculos. Se com fome vês à tua frente uma migalha de pão, que fazes? Eis o cientista perdido na floresta.)


   Há várias instâncias em que nos devemos apoiar para assegurar a poluição das ideias puras. A sua fragilidade. O seu estatuto de coisa rasteira, rente à vida de todos os dias. E vamos encontrar pelo caminho a metáfora e os afectos. A opacidade da metáfora e a perturbação sempre turva da vida emocional. Tudo aquilo sem o qual a ciência é triste. O que implica uma crítica sistemática da ciência tal qual se faz em nome da ciência que se deveria fazer. Ao contrário do que se costuma pensar, "a ciência não caminha em direcção ao Mistério. Nem em direcção ao Estranho. A ciência caminha em direcção ao Familiar". Ora o conhecimento que nos traz alegria é aquele que infamiliariza. Porque: "Como seria possível caminhar em direcção ao Mistério? Em direcção ao que não sei. Se caminho em direcção ao Mistério é porque o mistério já foi desvendado por mim." Donde, só posso caminhar em direcção ao que não tem nome e o que não tem nome não se sabe onde está. Eu posso perguntar ao indígena: "É capaz de me dizer o caminho para Estarreja?" Mas não posso perguntar: "É capaz de me dizer o caminho para o que não tem nome?" Na ciência pode-se trabalhar em equipa, mas o que se descobre só nós o descobrimos. Entra pelo nosso corpo, envolve a nossa pele. E vai de pele em pele.


   Isso implica em Gonçalo M. Tavares uma espécie de referência a uma citação de Musil que tem sido ao longo da minha vida a minha citação fetiche. É o problema do que atrai e do que se rejeita. É uma dimensão quase de amiba. Onde tudo se enraiza: o clamor do inconsciente. "É o organismo - e o seus sistemas de repulsa e atracção - que decide se algo é verdadeiro ou falso. A Mentira é o que repugna o meu sistema orgânico detector da Verdade. Dizer, pois, que a mentira é mentira parece um exagero."
Há um atraso da ciência em relação a outras realidades mais viscerais mas mais essenciais. "A história das Ciências encontra-se sempre ligeiramente atrasada em relação à História dos Desejos." Isto implica que se pense sempre de um modo algo desfocado. Porque só a imprecisão é precisa - na medida em que a realidade é imprecisa, ela necessita da imprecisão para se expor. "A única forma de pensar, isto é, de avançar, é ser impreciso, inexacto em relação ao pensado." Gonçalo M. Tavares valoriza de um modo quase demencial a paixão no conhecimento: "Pode um homem apaixonado provar algo? Devemos acreditar nele, na sua objectividade (como se diz)? E pode um homem não apaixonado provar algo?" "Mas há outro modo de pegar no assunto: entender a paixão como método de prova."


   Donde, conhecer é olhar pelo canto do olho. E escrever com a mão esquerda. A ciência centra, estabiliza, estabelece uma morada, é doméstica e domesticável. O conhecimento extravasa, deixa-se dominar pela figura da estrela em explosão, olha tudo lateralmente. "Observar pelo canto do olho é, em ciência, começar a elaborar a hipótese. O que é observado pelo centro do olho é o evidente, o óbvio, aquilo que é partilhado pela multidão. Na Ciência, como no mundo das invenções, observar pelo canto do olho é ver o pormenor diferente, aquele que é o começo de qualquer coisa de significativo. Observar a realidade pelo canto do olho, isto é: pensar ligeiramente ao lado. A isto chama-se criatividade. Daqui saíram todas as teorias científicas importantes." E mais adiante: "A prova científica é uma espécie de centramento do olho. Depois de provado, aquilo que era olhado pelo canto do olho é agora olhado pelo centro do olho."
Goncalo M. Tavares distingue acertadamente (como Blanchot) os problemas e o Problema. A ciência resolve problemas, mas nada resolve o Problema. Escrever é descobrir que para certas coisas a ciência é inútil, que a poesia vive dessa inutilidade, e que só por isso é preciso continuar a escrever. O que Gonçalo M. Tavares faz de um modo compulsivo (ou quase). Para nossa alegria.

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