Sábado, 24 de Dezembro de 2005

O mundo de Sofia (Excertos acerca de David Hume)

Ver neste site: http://geocities.yahoo.com.br/mcrost08/o_mundo_de_sofia_21.htm

 O mundo de Sofia (Excertos acerca de David Hume)    

O mundo de Sofia

De Jostein Gaarder

Cia. das Letras, São Paulo, 1998

 Tradução de João Azenha Jr.

Capítulo 21 (Excerto) Hume (Páginas 287-301.)

Alberto tinha os olhos fixos na mesinha que havia entre os dois. Em dado momento, virou-se e olhou para o céu emoldurado pela janela. — O tempo está carregado — disse Sofia. — Sim, está muito abafado. — Vamos falar agora sobre Berkeley? — Ele foi o segundo dos empíricos britânicos. Mas como Berkeley é um capítulo à parte, vamos nos concentrar primeiramente em David Hume, que viveu de 1711 a 1776. Sua filosofia é considerada ainda hoje a mais importante filosofia empírica. Além disso, Hume é de fundamental importância, pois inspirou o grande filósofo Immanuel Kant na execução de seu próprio projeto filosófico. — E o fato de eu estar muito mais interessada na filosofia de Berkeley não conta? — Não, não conta. Hume cresceu nas proximidades de Edimburgo, na Escócia, e sua família queria muito que ele fosse um jurista. Ele próprio afirmava, porém, que sentia “uma insuperável aversão a tudo, menos à filosofia e à erudição”. Como os grandes pensadores franceses Voltaire e Rousseau, Hume viveu em pleno Iluminismo e viajou muito pela Europa, antes de voltar a se estabelecer em Edimburgo. Sua obra mais importante, Tratado sobre a natureza humana, foi publicada quando Hume tinha vinte e oito anos. Ele mesmo dizia, porém, que desde os quinze já tinhas as idéias para este livro. — Estou vendo que preciso me apressar. — Você já começou. — Mas se um dia eu tiver minha própria filosofia, ela será completamente diferente de tudo o que tenho ouvido até agora. — Você está sentindo falta de alguma coisa em especial? — Em primeiro lugar, todos os filósofos de que ouvi falar até agora foram homens. E os homens parecem viver num mundo só deles. Eu estou mais interessada no mundo real: flores, animais e crianças, que nascem e crescem. Os seus filósofos falam sempre do homem enquanto ser humano e vira e mexe aparece um tratado sobre a natureza humana. Só que este homem, este ser humano, parece sempre ser um homem de meia-idade, e a vida começa com a gravidez e o nascimento. Acho que até agora vi poucas fraldas e ouvi muito pouco choro de nenê nesta história toda. Acho, também, que esta história tem muito pouco amor e amizade. — Neste ponto você tem toda a razão. Mas talvez Hume seja exatamente um filósofo que pensa um pouco diferente. Mais do que qualquer outro, ele toma o mundo cotidiano como ponto de partida para a sua reflexão. Acredito até que Hume foi muito sensível ao modo como as crianças, esses novos cidadãos do mundo, experimentam a vida. — Então vamos lá. Quero ouvir. — Como empírico, Hume considerava sua tarefa eliminar todos os conceitos obscuros e os raciocínios intrincados criados até então por esses filósofos homens a que você se referiu. Naquela época, circulavam por escrito e oralmente toda a sorte de antigos resquícios de concepções medievais e conceitos das filosofias racionalistas do século XVII. Hume queria retornar à forma original pela qual o homem experimentava o mundo. Para ele, nenhuma filosofia que não aquela a que chegamos pela reflexão sobre o nosso cotidiano seria capaz de nos conduzir para além dessas mesmas experiências cotidianas. — Até agora tudo isto soa muito promissor. Será que você poderia dar um exemplo? — Na época de Hume, acreditava-se amplamente na existência dos anjos. Por anjo entendemos uma forma humana alada. Você já viu um anjo, Sofia? — Não. — Mas você já viu uma forma humana, não viu? — Que pergunta boba… — E você já viu asas? — Claro, só que nunca numa pessoa. — Pois bem, para Hume, o “anjo” é uma noção complexa. Ela se constitui de duas experiências diferentes, que ocorrem simultaneamente na imaginação humana, já que na realidade estão dissociadas. Em outras palavras, esta noção é falsa e como tal deve ser rejeitada. Do mesmo modo, temos de proceder a uma verdadeira limpeza em nossos pensamentos e idéias, pois, como Hume afirmou, “se tomamos um livro sobre a doutrina divina, ou sobre metafísica, devemos perguntar o seguinte: ele contém algum raciocínio abstrato sobre tamanho ou números? Não. Contém algum raciocínio sobre fatos e sobre a vida que seja baseado em experiências? Não. Atira-o, então, ao fogo, pois tudo o que ele contém não passa de fantasmagoria e ilusão”. — Muito drástico. — Sim, mas depois dessa limpeza toda sobra o mundo, Sofia, e muito mais vivo e de contornos mais nítidos do que antes. Hume queria retornar ao modo como a criança experimenta o mundo, antes de o espaço de sua mente ser tomado por pensamentos e reflexões. Você não disse que muitos dos filósofos sobre os quais falamos vivem num mundo só deles e que você se interessa mais pelo mundo real? — Sim, foi mais ou menos isso. — Pois bem, estas palavras poderiam ter sido de Hume. Mas vamos acompanhar mais de perto o seu raciocínio. — Estou ouvindo. — A primeira coisa que Hume constata é que o homem possui impressões, de um lado, e idéias, de outro. Por impressão ele entende a percepção imediata da realidade exterior. Por idéia ele entende a lembrança de tal impressão. — Você pode me dar um exemplo? — Se você queima a mão no fogão, o que você experimenta é uma impressão imediata. Mais tarde pode ser que você se lembre de que se queimou, e esta lembrança Hume a chama de idéia, noção. A diferença entre elas é que a impressão é mais forte e mais viva do que a lembrança que se tem dela mais tarde. Podemos chamar a impressão sensorial de original, e a idéia, ou a lembrança que se tem dela, de uma cópia pálida do original. Afinal, a impressão é a causa direta da idéia guardada na mente. — Até aqui deu para acompanhar. — Mas Hume também chama a atenção para o fato de tanto a impressão quanto a idéia poderem ser ou simples ou complexas. Você ainda se lembra do exemplo da maçã quando conversamos sobre Locke? Como tal, a experiência direta de uma maçã é uma impressão complexa. Da mesma forma, a idéia que a mente fazde uma maçã também é uma idéia complexa. — Desculpe-me interrompê-lo, mas isto é mesmo importante? — Se é importante? E como! Embora os filósofos tenham se ocupado de uma série de problemas aparentemente banais, você não pode recuar diante da oportunidade de participar da construção de um raciocínio. Na certa Hume teria concordado com Descartes quanto ao fato de um raciocínio ter de ser construído a começar pela sua base. — Eu me rendo… — Hume está preocupado com o fato de que às vezes formamos idéias e noções complexas, para as quais não há correspondentes complexos na realidade material. É dessa forma que surgem noções falsas sobre coisas que não existem na natureza. Já citamos o exemplo do anjo. E anteriormente falamos também do crocofante. Outro exemplo pode ser Pégaso, o cavalo alado. Em todos esses exemplos, temos de admitir que foi nossa mente, sozinha, que construiu essas coisas, juntando a impressão de um par de asas com a impressão de um cavalo, por exemplo. Esses dois componentes foram experimentados por nós um dia e entraram para o teatro da mente como impressões “verdadeiras”. No fundo, a mente não inventou nada. Ela só teve o trabalho de pegar tesoura e cola para construir essas noções falsas. — Entendo. E entendo também que isto pode ser muito importante. — Ótimo. Hume quer estudar cada noção, cada idéia, a fim de verificar se sua composição encontra um correlato na realidade. Nesse sentido, ele pergunta: de que impressões surgiu esta idéia? Em primeiríssimo lugar, ele precisa decompor uma noção complexa em suas noções simples constituintes. É assim que ele pretende chegar a um método crítico de análise das idéias do homem. E também é assim que ele pretende “fazer uma faxina” nos nossos pensamentos e idéias. — Você teria um ou dois exemplos? — Na época de Hume, as pessoas tinham uma noção muito clara do céu. Talvez você ainda se lembre das palavras de Descartes, segundo as quais as noções claras e distintas seriam, em si, garantia para a existência do correspondente desta idéia na realidade. — Já disse que não sou do tipo que se esquece facilmente das coisas. — Não é difícil ver que a noção de “céu” é uma noção extremamente complexa. Vamos citar apenas alguns elementos: no “céu” existem um “portão de pérolas”, “ruas de ouro”, “exércitos de anjos” etc. etc. E podemos ir mais além em nosso trabalho de decomposição dos elementos em seus fatores constituintes, pois também o “portão de pérolas”, as “ruas de ouro” e os “exércitos de anjos” são noções complexas. Somente quando nos damos conta de que nossa noção complexa de “céu” se compõe de noções simples tais como “portão”, “pérola”, “rua”, “ouro”, “figuras humanas vestidas de branco” e “asas” é que podemos nos perguntar se algum dia já experimentamos na realidade essas “impressões simples”. — E na verdade já as experimentamos. Só que depois nós as combinamos para formar uma imagem onírica. — Exatamente. Pois quando sonhamos, usamos tesoura e cola, por assim dizer. Para Hume, porém, todo o material que usamos para compor nossas imagens oníricas chegou um dia à nossa consciência por meio de impressões simples. Uma pessoa que nunca viu ouro não consegue imaginar o que seja uma rua de ouro. — Muito inteligente da parte dele. E quanto à “noção clara de Deus”, de Descartes? — Também para isto Hume tem uma resposta. Digamos que, para nós, Deus é uma criatura infinitamente inteligente, sábia e boa. Temos aí, portanto, uma noção complexa formada por algo infinitamente inteligente, infinitamente sábio e infinitamente bom. Se nunca tivéssemos experimentado a inteligência, a sabedoria e a bondade, não poderíamos ter tal conceito de Deus. E pode ser também que nossa imagem de Deus nos fale de um pai severo, mas justo. Quer dizer, outra noção complexa composta por “pai”, “severo” e “justo”. E assim por diante. Depois de Hume, muitos críticos da religião chamaram a atenção para o fato de tal noção de Deus ser atribuída ao modo como nós, quando crianças, “experimentamos” nosso próprio pai. Para esses críticos, a noção de um pai levou à noção de um Pai do Céu. — Talvez isto seja verdade. Mas eu nunca aceitei que Deus fosse necessariamente um homem. E para compensar isto, minha mãe às vezes diz “pelo amor da Deusa”, ou coisa parecida. — Portanto, Hume quer atacar todo e qualquer pensamento ou idéia que não possa ser atribuído a uma impressão sensorial correspondente. Ele costumava dizer que queria banir para bem longe esse absurdo que durante tanto tempo dominara o pensamento metafísico, acabando por condená-lo ao descrédito. Mas também na vida cotidiana empregamos conceitos complexos, sem nos perguntarmos se eles têm alguma validade. É o caso, por exemplo, da noção de um Eu, ou de um núcleo da personalidade. Foi esta a noção que serviu de base para a filosofia de Descartes. Ela foi a noção clara e nítida sobre a qual ele construiu toda a sua filosofia. — Espero que Hume não tenha tentado negar que eu sou eu, pois nesse caso ele não passaria de um cabeça-oca. — Sofia, se eu pudesse escolher uma única coisa para você aprender de todo este curso de filosofia, eu diria para você aprender a não tirar conclusões precipitadas. — Continue. — Não… você mesma pode aplicar o método de Hume para analisar o que entende por seu “eu”. — Nesse caso preciso começar perguntando se a noção de “eu” é simples ou complexa. — E você tem uma resposta para esta pergunta? — Bem, tenho de admitir que me sinto extremamente complexa. Por exemplo, no que se refere ao humor, sou muito inconsistente. E também acho difícil decidir por alguma coisa. Além disso, posso gostar de uma pessoa hoje e detestá-la amanhã. — Sua noção de “eu” é complexa, portanto. — Certo. Em seguida tenho de perguntar se tenho uma impressão complexa correspondente a esta noção complexa de “eu”. E acho que tenho. Acho que sempre tive. — Isso faz de você uma pessoa insegura? — Não sei. É que estou mudando o tempo todo. Por exemplo, não sou hoje a mesma Sofia de quatro anos atrás. Meu humor e a forma como eu mesma me vejo modificam-se de um minuto para outro. É como se de repente eu passasse a ser outra pessoa, completamente diferente. — Quer dizer que é falsa a sensação de que nossa personalidade possui um núcleo constante. Nossa noção de eu compõe-se, na verdade, de uma longa cadeia de impressões isoladas, que nunca conseguimos vivenciar simultaneamente. Hume fala de um “feixe de diferentes conteúdos de consciência, que se sucedem numa rapidez inimaginável e que estão em constante fluxo e movimento”. Nossa mente seria, então, “uma espécie de teatro”, no qual estes diferentes conteúdos “se sucedem em suas entradas e saídas de cena, e se misturam numa infinidade desordenada de posições e de tipos”. Para Hume, portanto, o homem não possui uma “base” de personalidade, atrás ou abaixo da qual se desenrola a cena de que são atores as percepções e as sensações. É como as imagens numa tela de cinema: elas se alternam tão rapidamente que não vemos que o filme de compõe de imagens isoladas. Na verdade, essas imagens não estão conectadas. O filme é uma soma de instantes. — Acho que desisto. — Isto significa que você desiste da idéia de que sua personalidade tem um núcleo constante, imutável? — Acho que sim. — E um minuto atrás você tinha uma opinião completamente diferente! Bem, resta acrescentar que a análise de Hume da consciência humana e a sua recusa em aceitar um núcleo constante e imutável para a personalidade já tinham sido defendidas dois mil e quinhentos anos antes, do outro lado do mundo. — Por quem? — Por Buda. É muito intrigante como os dois se expressam de forma parecida. Buda considerava a vida humana uma sucessão ininterrupta de processos físicos e mentais, que modificavam as pessoas a cada momento. O bebê de colo não é a mesma pessoa em idade adulta; hoje não sou o mesmo de ontem. Buda pregava que não posso dizer que alguma coisa me pertença, assim como não posso dizer que este sou eu. Não há, portanto, um eu, e a personalidade não possui um núcleo rígido, imutável. — Sim, a semelhança com Hume é surpreendente. — Como conseqüência direta da noção de um eu imutável, muitos racionalistas consideravam evidente o fato de o homem possuir uma alma imortal. — Mas isto também é uma noção falsa? — Pelo menos é o que dizem Hume e Buda. Você sabe o que dizem que Buda teria dito a seus seguidores pouco antes de morrer? — Não. Como posso saber? — “Todas as coisas complexas estão condenadas à decadência.” Hume poderia ter dito a mesma coisa. Ou mesmo Demócrito. Seja como for, sabemos que Hume rejeitou toda e qualquer tentativa de provar a imortalidade da alma ou a existência de Deus. Isto não significa que ele considerava impossíveis ambas as coisas; significa apenas que considerava um absurdo racionalista achar que seria possível provar a fé religiosa com a razão humana. Hume não era cristão; também não era um ateu convicto. Ele era o que chamamos de agnóstico. — E o que significa isto? — Um agnóstico é uma pessoa que não sabe se Deus existe. Em seu leito de morte, Hume recebeu a visita de um amigo que lhe perguntou se ele acreditava numa vida após a morte. Contam que Hume respondeu que também era possível um pedaço de carvão ser atirado ao fogo e não se queimar. — Entendo… — Foi a resposta típica de um homem que não abria mão da sua imparcialidade. Ele só aceitava como verdade aquilo que podia experimentar pelos sentidos, mas todas as demais possibilidades continuavam em aberto. Hume não rejeitava nem a fé em Jesus Cristo, nem a crença em milagres. Só que em ambos os casos trata-se de crença e não de razão. Podemos dizer que os últimos elos que ligavam a crença ao conhecimento foram quebrados pela filosofia de Hume. — Você disse que ele não rejeitou categoricamente a idéia do milagre. — O que também não significa que ele acreditava em milagres. Em muitas passagens, Hume afirma que os homens têm evidentemente uma forte necessidade de acreditar em acontecimentos que hoje chamaríamos de “sobrenaturais”. Só que todos os milagres de que ouvimos falar aconteceram em algum lugar distante de onde estamos, ou então há muitos, muitos anos. Hume só se recusa a acreditar em milagres porque nunca experimentou um milagre. Da mesma forma, e inversamente, ele também nunca experimentou o fato de que milagres não acontecem. — Explique melhor. — Hume chama de milagre a um evento que pressupõe a ruptura das leis da natureza. Mas também não podemos afirmar que experimentamos as leis da natureza. Podemos experimentar, isto sim, que uma pedra cai no chão quando a soltamos. Da mesma forma, se ela não caísse, poderíamos experimentar o fato de ela não cair. — Eu chamaria isto de milagre, ou então de algo sobrenatural. — Quer dizer que você acredita em duas naturezas: uma natureza e uma “sobrenatureza”. Será que com isto você não está tomando o caminho de volta ao discurso racionalista? — Pode ser, mas acho que a pedra cai no chão toda a vez que a soltamos. — E por quê? — Agora você está sendo impiedoso. — Não estou não, Sofia. Para um filósofo nunca é errado fazer perguntas. Pode ser que este seja justamente o ponto mais importante da filosofia de Hume. Responda-me: como você pode ter tanta certeza de que a pedra sempre cai no chão? — É que eu já vi isto tantas vezes que tenho certeza absoluta. — Hume diria que você já experimentou muitas vezes que uma pedra cai no chão quando a soltamos. Só que você não experimentou o fato de que ela irá sempre cair. Em geral dizemos que a pedra cai ao solo por força da gravidade. Só que nós nunca experimentamos esta lei. Tudo o que experimentamos é que as coisas caem. — E não é a mesma coisa? — Não exatamente. Você disse que acredita que a pedra irá sempre cair porque já viu isto muitas vezes. E é exatamente isto que preocupa Hume. Você está tão acostumada com um evento se seguindo ao outro que acha que ele vai acontecer todas as vezes que você soltar uma pedra. É assim que surgem as noções do que chamamos de “leis imutáveis da natureza”. — Será que ele realmente acha possível que uma pedra não caia no chão quando a soltarmos? — Na certa ele estava tão convencido quanto você de que a pedra cairia no chão a cada nova tentativa. Mas ele apenas chama a atenção para o fato de não termos experimentado o porquê de as coisas serem assim. — Não estamos de novo nos afastando um pouco dos bebês e das flores? — Não, ao contrário. Você pode muito bem tomar as crianças como testemunhas para as afirmações de Hume. Quem você acha que ficaria mais surpreso se a pedra flutuasse no ar por um ou dois segundos, vocêou um bebê de um ano? — Eu ficaria mais surpresa. — E por que, Sofia? — Talvez porque eu entenda melhor do que a criança que isto contraria a natureza. — E por que a criança não entende isto? — Porque ela ainda não aprendeu o que é a natureza. — Ou porque a natureza ainda não se tornou um hábito para ela. — Entendo o que você quer dizer. Hume queria levar as pessoas a observar melhor as coisas. — Vou lhe dar uma tarefa: se você e um bebê assistirem juntos a um grande número de mágica, um número de levitação, por exemplo, quem você acha que se divertiria mais com o número? — Acho que… eu. — E por quê? — Porque eu saberia que o que vejo é impossível. — Muito bem. A criança não acha graça no fato de a levitação contrariar as leis da natureza, simplesmente porque ela ainda não as conhece. — Sim, acho que é por isso mesmo. — E ainda estamos no ponto crucial da filosofia da experiência de Hume. Ele teria acrescentado que a criança ainda não se tornou escrava de suas expectativas. A criança tem, portanto, menos preconceitos do que você. Podemos perguntar até mesmo se a criança não seria o maior filósofo. É que uma criança não possui opiniões preconcebidas. E isto, minha querida Sofia, é a maior virtude da filosofia. A criança experimenta o mundo tal como ele é, sem acrescentar coisas ao que experimenta. — Sempre me sinto muito mal quando reconheço que tenho algum preconceito. — Quando Hume aborda a questão da força do hábito, ele se concentra na chamada lei da causa. Segundo esta lei, tudo o que acontece precisa ter uma causa. Hume cita o exemplo de duas bolas de bilhar. Quando você empurra com o taco uma bola preta para cima de uma bola branca que estava em repouso, o que acontece com a bola branca? — Quando a preta atinge a branca, a branca começa a se mover. — E por que ela começa a se mover? — Porque foi atingida pela bola preta. — Neste caso, dizemos que o impacto da bola preta é a causa do início do movimento da bola branca. Mas não devemos nos esquecer de que só podemos falar com certeza sobre coisas que experimentamos. — Eu mesma já experimentei isto várias vezes. É que a Jorunn tem uma mesa de bilhar no porão. — Hume diz que você só experimentou o fato de que a bola preta bate na branca e que a branca começa a rolar sobre a mesa, e não a causa em si do movimento da bola branca. Você experimentou o fato de um acontecimento se suceder temporalmente ao outro, mas não experimentou que o segundo evento ocorre por causa do primeiro. — Esta não é uma diferença sutil demais? — Não, é uma coisa muito importante. Hume insiste em que a expectativa de que um evento se suceda ao outro não está nas coisas em si, mas em nossa mente. Novamente, a criança não arregalaria os olhos de espanto se uma bola atingisse a outra e ambas ficassem paradas sobre a mesa. Quando falamos de “leis da natureza” ou de “causa e efeito” estamos falando na verdade de hábitos humanos e não de algo racional. As leis da natureza não são racionais nem irracionais. Elas simplesmente são. A expectativa de que a bola branca de bilhar entre em movimento quando atingida pela preta não é, portanto, uma coisa inata. Não nascemos com expectativas já prontas acerca de como o mundo é, ou de como as coisas se comportam no mundo. O mundo é como é, e nós vamos experimentando isto pouco a pouco. — Começo a ter novamente a sensação de que isto tudo não é assim tão importante. — Mas isto pode ser importante quando, movidos por nossas expectativas, somos tentados a tirar conclusões precipitadas. Hume não rejeita o fato de existirem leis naturais imutáveis. Só que como não somos capazes de experimentar tais leis em si, podemos facilmente tirar conclusões erradas. — Você poderia citar alguns exemplos? — O fato de eu ver uma manada de cavalos pretos não significa que todos os cavalos sejam pretos. — Nesse ponto você tem razão. — E mesmo o fato de durante toda a minha vida eu só ter visto corvos pretos não significa que não haja corvos brancos. Para um filósofo e para um cientista pode ser importante provar que não existem corvos brancos. Se quiser, você pode até dizer que a procura por um corvo branco é a tarefa mais importante de toda a ciência. — Entendo. — Quando se trata da relação entre causa e efeito, é provável que muitos considerem o raio a causa do trovão, pois o trovão sempre se segue ao raio. Este exemplo não é muito diferente do exemplo das bolas debilhar. Mas será que o raio é mesmo a causa do trovão? — Não exatamente. De fato, o raio e o trovão acontecem ao mesmo tempo. — Pois tanto o raio quanto o trovão são conseqüências de uma descarga elétrica. Mesmo tendo sempre experimentado que o trovão se segue ao raio, isto não significa que o raio é a causa do trovão. Na verdade, ambos são provocados por um terceiro fator. — Entendo. — Um empírico de nosso século [XX], Bertrand Russell, deu um exemplo um pouco mais grotesco: um pintinho, que todos os dias vive a experiência de ganhar comida quando o avicultor vem ao galinheiro, vai acabar tirando a conclusão de que existe uma relação entre os passos do avicultor no galinheiro e a comida na tigela. — Mas um dia ele não aprende a achar seu próprio alimento? — Um dia o avicultor entra no galinheiro e torce o pescoço do frango. — Ui, que horror! — O fato de as coisas se sucederem temporalmente às outras não significa, portanto, que exista uma relação de causa e efeito entre elas. Uma das mais importantes tarefas da filosofia é advertir as pessoas quanto ao perigo das conclusões precipitadas. Além disso, as conclusões precipitadas podem levar a várias formas de superstição. — Como? — Você vê um gato preto atravessando a rua. Neste mesmo dia, um pouco mais tarde, você tropeça, cai e quebra o braço. Isto não significa que exista uma relação de causa e efeito entre os dois eventos. Também na ciência é muito importante não tirar conclusões precipitadas. Embora muitas pessoas fiquem curadas depois de tomar determinado medicamento, isto não significa que foi o medicamento que as curou. Por isso precisamos ter um grupo de controle formado por indivíduos que acreditam estar tomando o mesmo medicamento, quando na verdade estão tomando bolinhas de farinha e água. Se estas pessoas também se curarem, então deve haver um terceiro fator que as curou: por exemplo, a fé no poder de cura do medicamento. — Acho que aos poucos estou entendendo o que significa empirismo. — Também no âmbito da ética e da moral Hume se opôs ao pensamento racionalista. Os racionalistas consideravam uma qualidade inata da razão humana o fato de ela poder distinguir entre certo e errado. Esta idéia do chamado direito natural nós já a encontramos em muitos filósofos, de Sócrates a Locke. Mas Hume não acredita que a razão determina o que dizemos e fazemos. — Se não é ela, o que seria? — Nossos sentimentos. Quando você decide ajudar um necessitado, foram os sentimentos que levaram você a isto, e não a razão. — E se eu não tiver vontade de ajudar? — Também nesse caso os sentimentos são decisivos. Não ajudar um necessitado não é uma coisa nem racional, nem irracional, mas pode ser uma coisa impiedosa. — Contudo, certamente deve haver um limite em algum lugar. Todos nós sabemos que não é certo matar uma pessoa. — Segundo Hume, todos nós temos um sentimento acerca do bem-estar e do mal-estar dos outros. Temos, portanto, a capacidade de sentir compaixão pelos outros. Mas nada disso tem a ver com a razão. — Não sei se estou bem certa sobre isto. — Nem sempre é um ato de irracionalidade tirar alguém de nosso caminho, Sofia. Quando se quer conseguir alguma coisa, esta pode ser uma boa forma de se atingir este objetivo. — Francamente! Protesto! — Então me explique por que não podemos eliminar alguém que nos estorva. — O outro também ama a vida. Por isso não podemos eliminá-lo. — Isto é uma explicação lógica? — Não faço a menor idéia. — O que você fez foi derivar de uma oração descritiva, como “O outro também ama a vida”, uma oração normativa: “Por isso não podemos eliminá-lo.” Do ponto de vista estritamente racional, isto é um absurdo. Do mesmo modo, do fato de que muitas pessoas sonegam impostos você poderia concluir que também pode e deve sonegar. Hume deixou claro que as conclusões não devem ser tiradas saltando-se de sentenças do ser para sentenças do dever ser. Não obstante, isto acontece com muita freqüência, inclusive em artigos de jornal, programas de partidos e discursos de parlamentares. Você gostaria de ouvir alguns exemplos? — Sim. — “Cada vez mais pessoas viajam de avião. Por esta razão, é preciso construir mais aeroportos.” Você acha a conclusão convincente? — Não. É uma conclusão idiota, pois temos de pensar também no meio ambiente. Pessoalmente, acho que seria preferível ampliar a rede de trilhos das ferroviárias. — Veja outro exemplo: “A ampliação dos poços de petróleo vai aumentar em 10% o padrão de vida da população. Por esta razão, é preciso abrir o quanto antes novos poços de petróleo”. — Absurdo. Também neste caso é preciso pensar no meio ambiente. Além disso, nosso padrão de vida já é elevado o suficiente. — Outro exemplo muito comum: “Esta lei foi promulgada pelo Parlamento e por isso todos os cidadãos têm de respeitá-la”. Acontece que não são raros os casos em que a observância de leis que são “baixadas” contraria as convicções mais profundas das pessoas. — Entendo. — Vimos, portanto, que não podemos demonstrar por meio da razão como devemos nos comportar. Quando agimos cientes de nossa responsabilidade, isto não significa que estamos aguçando nossa razão, mas que estamos aguçando nossos sentimentos pelo bem-estar dos outros. Hume costumava dizer que, do ponto de vista da razão, preferir a destruição do mundo a um arranhão no dedo era algo que se justificava. — Que afirmação mais terrível! — E pode ser mais terrível ainda. Você sabe que os nazistas eliminaram milhões de judeus. O que você diria que não estava certo com os nazistas: sua razão ou o seu sentimento? — Acho que não havia alguma coisa certa era com o sentimento deles. — Pois é. Em muitos casos, tratava-se de pessoas mentalmente sãs. Aliás, não são raras as vezes em que encontramos um frio calculismo por trás de decisões as mais insensíveis. Depois da guerra, muitos nazistas foram condenados, mas não por terem sido irracionais. Foram condenados por sua crueldade. E o oposto também é possível: acontece de pessoas mentalmente perturbadas serem absolvidas por seus crimes. Chamamos isto de “inimputabilidade no momento da ação”. Por outro lado, nunca ninguém foi absolvido por “falta de sentimento” no momento do crime. — Só faltava essa! — Mas não precisamos recorrer aos exemplos mais grotescos. Depois de uma grande enchente, por exemplo, quando há milhares de desabrigados precisando de ajuda, são os nossos sentimentos que decidem se vamos ajudar ou não. Se fôssemos pessoas insensíveis e deixássemos esta decisão à “frieza da razão”, poderíamos pensar que num mundo que sofre com a superpopulação até que seria bom se alguns milhares de pessoas morressem. — Fico furiosa quando me passa pela cabeça que alguém possa pensar assim. — E neste caso não é a sua razão que fica furiosa. — Acho que podemos parar por aqui.   CLIQUE AQUI PARA FAZER O DOWNLOAD DO ARQUIVO “DOC” QUE CONTÉM O TEXTO ACIMA.  

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