Sábado, 6 de Dezembro de 2003

Texto para o Teste do 1º Semeste em Fev. de 2004

Texto a ser utilizado no Teste do 1º Semeste


Jornal "PÚBLICO"
SUPLEMENTO
Mil Folhas
Sábado, 06 de Dezembro de 2003
"Rumores da Morte da Ciência "
Desidério Murcho

Jorge Dias de Deus, autor de "Viagens no Espaço-Tempo" e "Ciência, Curiosidade e Maldição" (Gradiva), apresenta neste livro uma contribuição para o debate sobre as ciências motivado pelas ideias do sociólogo Boaventura Sousa Santos. O livro divide-se em duas partes, dedicadas à crítica da ciência e à sua negação. O autor defende que a crítica da ciência é importante e bem-vinda, mas radicalmente diferente da negação da ciência. Por "negação da ciência" entende-se o tipo de relativismo cognitivo ou epistemológico que Boaventura Sousa Santos e muitos outros autores defendem (ou defenderam, dado que o sociólogo parece aceitar agora que este relativismo é insustentável e até incompatível com os seus ideais políticos e sociais). Do ponto de vista deste relativismo, não há qualquer diferença radical entre a física, por exemplo, e a alquimia ou a astrologia: em ambos os casos, trata-se de práticas sociais que "inventam mundos".

Este debate intelectual, a que tem sido dado o nome absurdo de "Guerra das Ciências", é importante e que merece a nossa melhor atenção. Michael Ruse (autor de "O Mistério de Todos os Mistérios", Quasi) queixava-se há pouco tempo (na revista "American Scientist"), da incapacidade de Richard Dawkins para sair do discurso irónico e cheio de retórica vácua quando se trata de enfrentar este debate. E esta crítica é extensível a muitos cientistas - mas não a Jorge Dias de Deus. Com uma honestidade extraordinária, o autor procura ir ao encontro dos críticos da ciência, colhendo neles o que neles encontra de valor e procurando mostrar por que razão pensa que noutros aspectos tais críticos não têm razão. É verdade que o livro teria ganho com um maior conhecimento da bibliografia relevante - Michael Ruse, Susan Haack, Philip Kitcher, entre muitos outros filósofos - mas os cientistas têm tendência para ignorar a filosofia, considerando-a uma espécie de pré-história da Ciência. Ao procurar ir ao encontro dos críticos da ciência, o autor acaba por conceder mais do que é razoável conceder, pelo menos sem uma discussão cuidada. Por exemplo, o autor usa constantemente o termo "paradigma", sem explicar exactamente o que quer dizer com esta palavra. Por vezes, parece usar a palavra no sentido corrente de modelo ou ideal; outras vezes, parece usar o termo no sentido de Kuhn, aceitando sem discussão as teorias deste filósofo. E este é que é o problema.

O que provoca por vezes discussões azedas no que respeita à Guerra das Ciências é a acusação dirigida aos defensores do relativismo cognitivo de desonestidade intelectual - é esta a ideia central do livro de Sokal e Bricmont, "Imposturas Intelectuais" (Gradiva). Os relativistas cognitivos acusam por sua vez os cientistas de desonestidade intelectual - e o debate perde interesse, deslocando-se da universidade para a peixaria (ou para o parlamento, já agora). Curiosamente, o verdadeiro problema que precisa de ser discutido é o papel da crítica na vida intelectual e os processos de controlo de erros. É por isso que o prefácio de Jorge Buescu a "O Mistério do Bilhete de Identidade" (Gradiva) vale por mil discussões sobre a Guerra das Ciências. Porque neste prefácio o autor explica o que caracteriza a ciência: a crítica constante (o que implica a recusa da tradição e da autoridade como argumentos últimos) e o controlo sistemático de erros (o que implica "blind refereeing" e, uma vez mais, abertura à crítica). Quando se vê as coisas deste modo a diferença entre física e astrologia torna-se evidente: ao contrário do que acontece no primeiro caso, não há no segundo qualquer abertura à crítica, tudo depende da interpretação de textos "sagrados" que não podem ser colocados em causa, e não há a prática generalizada de tentar encontrar erros nos trabalhos dos colegas.

O respeito pela argumentação e pelas provas, em substituição da tradição e da autoridade, foi introduzido pelos gregos antigos no séc. V a.C. Nas fontes gregas vemos sistematicamente os autores a criticar-se mutuamente, distanciando-se do que consideram erros, explicando por que razão são erros, argumentando e apresentando provas. Nos textos de outras civilizações nunca encontramos tal coisa, segundo G.E.R. Lloyd ("The Revolutions of Wisdom", University of California Press). E isto é que marca a diferença entre a ciência e a bruxaria. Mas isto é igualmente o que marca a diferença entre qualquer prática académica séria (história ou química, filosofia ou física) e os usos ideológicos da academia ou as práticas pseudo-académicas, como a astrologia, a bruxaria, a alquimia, etc.

Tentando ir ao encontro dos críticos da ciência, Jorge Dias de Deus aceita, aparentemente, as ideias de Kuhn. Mas o problema é precisamente que, nos círculos relativistas, as ideias de Kuhn têm o estatuto de Verdade Revelada. Talvez Kuhn até tenha razão, mas não se pode ter a ingenuidade de pensar que as suas ideias estão firmemente estabelecidas nem que não há poderosos argumentos contra elas. É por isso que as acusações de desonestidade intelectual fazem sentido: em alguns casos, os críticos da ciência ignoram os argumentos e provas contrários às suas ideias preferidas, e escondem-se na citação e referência dogmática aos autores com os quais concordam, repetindo-se expressões análogas a "Como dizia Kuhn...". Acontece que Kuhn dizia e Popper negava e Haack nega os dois e não há maneira de fugir do trabalho académico sério: a análise cuidadosa, paciente e tão conscienciosa quanto possível das razões a favor e contra tais ideias. Este é o espírito crítico que nasceu com a filosofia e se tornou a alma da academia moderna - mas que tarda a tornar-se prática corrente em Portugal.

Quase no fim do livro, o autor argumenta contra a ideia de que a relatividade de Einstein, a incerteza de Heisenberg e o teorema da incompletude de Gödel provocaram uma crise na ciência. Esta ideia é cara aos relativistas cognitivos, mas resulta de confusões e desconhecimento. À relatividade de Einstein pode-se chamar "teoria das invariâncias", pois não se trata de dizer que "tudo é relativo" mas antes que algumas coisas não são relativas (como a velocidade da luz). O princípio da incerteza de Heisenberg não coloca em causa o determinismo nem declara que a realidade é uma construção social ou do observador - se o fosse, ninguém teria aceitado a teoria quântica, que levanta problemas de integração com a restante física. O teorema de Gödel não mostrou que não há verdades. O que mostrou, pelo contrário, foi que as teorias formalistas e construtivistas em matemática são falsas ou pelo menos muitíssimo implausíveis: quem pensa que a ciência é uma mera construção social tem no teorema da incompletude de Gödel um poderoso inimigo.

Como Mark Twain afirmou quando circularam notícias da sua morte, a notícia da Morte da Ciência (e da Morte da Filosofia e da Razão) foi um pouco exagerada. E num mundo em que tantos irracionalismos provocam mortes e sofrimento diários, professar o relativismo cognitivo é socialmente irresponsável - apesar de dar muito lucro e poder.

Da Crítica da Ciência à Negação da Ciência
AUTOR Jorge Dias de Deus
EDITOR Gradiva 119 págs., 9,50 euros
(c) 2000 PÚBLICO Comunicação Social, SA

Docente responsável pela leccionação: José Pinheiro Neves email: jpneves2004@yahoo.com.br

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