Domingo, 8 de Fevereiro de 2004

Diálogos criados nas aulas práticas de Metodologia para as ciências Sociais - 1º ano de Sociologia (2003/04)





Textos das aulas práticas de "Metodologia para as ciências Sociais" - 1º ano de Sociologia, Universidade do Minho


Ano lectivo de 2003/04 - 1º Semestre


1º turno, 4ªs 14-16h


Aula dia 19/11/2003


Francis BACON: Tudo bem?


David HUME: Sim, tudo bem.


BACON: Olha, vê lá o que me aconteceu! Estive a ler um livro teu que encontrei num alfarrabista.


HUME: E o que é que pensas dele?


BACON: Se bem entendi, falas do problema do conhecimento científico, defendendo que a formulação de uma lei geral a partir de acontecimentos particulares não nos pode dar uma certeza absoluta. Tu defendes que isso se baseia numa crença quase religiosa. Ora, eu não concordo porque considero que isso seria voltar atrás, ao tempo antigo, em que o conhecimento era baseado em falsas imagens da realidade, num conhecimento antecipatório, produzido por filósofos especulativos. Eu até compreendo a tua dúvida, mas penso que, com ela, não vamos a lado nenhum. Temos é de ir para a natureza e recolher informações, compará-las e depois tirar conclusões, fazer interpretações que permitam melhorar a nossa vida quotidiana


HUME: Eu concordo contigo: é muito importante conhecer o mundo. Eu próprio me interrogo e defendo que se faça uma investigação aprofundada. Aliás, como tu sabes, um dos meus amigos formulou, há uns tempos, aquilo que ele designou por leis do movimento. Toda a gente diz que esse Isaac Newton é um génio. Mas eu acho que entre o que tu dizes e o que ele diz há uma grande diferença. E é aí que eu coloco um problema, me interrogo. Tu, Bacon, partes de experiência sensível e, a partir daí, fazes induções. Mas essas induções têm sempre uma base sensível (o calor é o efeito de uma chama que pode ser vista). Ora, com o Netwton, o caso muda de figura: eu não posso ver a gravidade, ela é inobservável. Um dia destes hei-de falar-te disto com mais tempo. Posso adiantar-te apenas isto: nunca se pode ter a certeza em relação a acontecimentos que não observámos "in loco". E esta dúvida é ainda mais válida para causas de fenómenos que não podemos observar com os nossos sentidos. Consegues ver a gravidade? Como é que ela é? Uma coisa me anima: no Século XX e XXI alguns cientistas vão começar a partilhar esta minha induietação. Agora, como deves compreender, sinto-me um pouco isolado.


 


Aula dia 10/12/2003


Ludwig WITTGENSTEIN: Boa noite. Olha, explica-me uma coisa: achas que a filosofia serve para alguma coisa? Eu penso que a filosofia em vez de fazer parte de solução, ela própria é o problema.


Karl POPPER: Discordo totalmente do que acaba de dizer! A filosofia é a solução para a verdade, porque permite pensar o acto científico de forma a que este não se transforme num dogmatismo. O que eu quero dizer é o seguinte: a filosofia é uma espécie de ciência das ciências, pois reflecte sobre os princípios que devem orientar a ciência e, por isso, pode ser muito útil aos cientistas. Por exemplo, foi ao observar o trabalho de Einstein que eu descobri a minha "password", o meu "abre-te Sésamo": a ciência é uma actividade especulativa. Esta especulação vai ser fundamentada mas, o importante é a atitude científica ser capaz de lançar novas hipóteses. A teoria de Newton dizia que todo o mundo físico funcionava de acordo com determinadas leis. Dizia que "todos os cisnes eram brancos". Contudo, Einstein começa por fazer uma especulação e levanta a hipótese de poder existir um cisne preto. E, mais, para se conhecer esse cisne preto – um cisne preto em 40.000.000 de cisnes brancos- era necessário escolher um determinado momento, uma só observação. Ora, é este critério que deve distinguir a ciência da não ciência, autêntico espírito científico do engano. Ora, eu encontrei dois exemplos de pseudo-ciências sociais que têm uma maneira completamente diferentes de pensar – o marxismo e psicanálise – (e indirectamente, uma certa forma empirícista e indutiva de fazer ciência). Eu até preferi criticar estas pseudo-ciências sociais, porque se fosse criticar, no sentido do "vale tudo" — como mais tarde vai fazer o Kuhn — a ciência no seu todo, arriscava-me a cair num buraco negro – o relativismo ignorante e surrealista. Infelizmente, é isso que se passa contigo, meu colega. Nos seus primeiros escritos, ainda havia uma vontade positiva de tornar a linguagem num instrumento útil para a ciência, separando os enunciados com sentido dos sem sentido. Contudo, mais tarde, começou a entrar numa história relativista fora da realidade.


WITTGENSTEIN: Essas classificações de relativista vs absolutista não me dizem nada. Para mim, devemos ir em frente e encarar o problema que é a base de todos os problemas, ou seja, a linguagem. O que eu digo é muito simples: a linguagem não se caracteriza, no seu essencial, por uma relação significante/significado correspondencial. Quando, por exemplo, uma aluna como a Fátima olha para uma árvore, ela pode efectuar duas operações: a primeira é sensitiva, pois consiste apenas na captação da luz, que depois é transformada numa imagem mental, ou seja, numa visibilidade que é construída. Este momento é fundamental, pois é um conhecimento puro, directo. Pelo contrário, a operação seguinte, tal como disse a Andreia, é perigosa pois vai passar para o plano dos sons (marcas produzidas na nossa laringe) e dos grafos (marcas num papel), aquilo que se costuma designar por linguagem. Ora, entre um plano e outro há uma distância qualitativa fundamental, porque se passa da luz e da imagem para o som e o significante. Tu, Popper, cais num erro tremendo e, por isso, fazes parte do problema e não da solução – esqueces que, entre a luz/ver e o som/dizer (ou gesto/escrita) há uma distância incomensurável. Há sim uma coerência grupal que remete para jogos tribais. Ou seja, jogos em que há co-mensurabilidade (pode haver mais ou menos), há acordo em relação às regras do jogo. Chamo a isso os jogos de linguagem, em que os humanos (como tu) pensam que estão a "conhecer-descobrir o mundo". Esses jogos — nomeadamente os jogos de kinguagem que dizem que a verdade é descoberta — são acima de tudo formas coerentes de vida e não formas de conhecimento, pois têm o mesmo estatuto do ladrar do meu cão.


Este texto foi recolhido pela aluna do 1º ano, Liliana Cabral.


 


2º Turno (16-18h)


Diálogo entre Francis Bacon e David Hume - 19 de Novembro de 2003


Francis Bacon: Boa tarde.


David Hume: Boa tarde, vejo que traz no bolso o livro que acabei de publicar. Já o leu?


Bacon: Sim, estive a lê-lo com muita atenção e vi que tu tens um problema. Se eu bem entendi, tu encaras o conhecimento científico como algo problemático. Tu dizes que o partir de acontecimentos singulares para uma lei não é uma questão lógica, não há uma conexão evidente, mas sim algo que se baseia no hábito, numa crença. Mas por aí não vamos a lado nenhum, voltamos a filosofar, à discussão filosófica especulativa.


Hume: Bacon repara bem no que fizeste e compara o teu trabalho com o do Newton. Tu nunca falaste de leis gerais, regulares, nos teus livros, falas em interpretações, em começos de interpretação. Ora com Newton o caso muda de figura, pois já estamos perante leis com conexões necessárias, leis de regularidades. Além disso, enquanto tu falavas de causas que nós podíamos ver, coisas físicas, já o meu amigo Newtow fala de causas que nós não podemos ver – apenas sentimos os seus efeitos. Um exemplo é a gravidade. Vamos pensar assim. No teu caso, Bacon, o referente existe pois pode-se ver, por exemplo, a chama. Em Newton "a gravidade" não existe. É uma teoria que somos obrigados a aceitar, como algo verdadeiro. O referente da gravidade só pode ser observado como efeito geral, difuso: ou seja não é observável em si, como coisa. O meu problema é o modo como se designa em geral o problema da indução. Eu abordei a indução (apesar de quase não usar a palavra) não na perspectiva da sua caracterização epistemológica ou da sua eficácia prática — aspectos centrais da tua teoria, Bacon, e que continuarão mais tarde nos filósofos próximos da ciência empírica — mas na sua justificação racional e lógica. A passagem dos casos singulares observados à expectativa de ocorrências futuras similares e, portanto, à formulação de um enunciado geral constitui a minha grande dúvida, a base do meu cepticismo.


 


Aula Prática de Metodologia das Ciências Sociais


 


Discurso entre Karl Popper e Ludwig Wittgenstein ( 10/12/2003)


 


Popper: Boa tarde, Wittgenstein. Como tem passado? Acho os seus livros muito interessantes.


Wittgenstein: Se é má tarde ou boa tarde, é assunto sobre o qual não poderei ter uma certeza absoluta, ou, então, o dizer boa tarde remete apenas para um enunciado impossível de avaliar, pois é a expressão de um desejo.


Popper: Eu conheço a sua conversa. Para si, a linguagem é a origem de todos os problemas, de tal forma que acaba por cair no buraco negro do relativismo, no "vale tudo", porque, ao suspeitar da capacidade cognitiva da linguagem, arrasta-nos para um mundo onde todos os jogos de linguagem são equivalentes e onde a fronteira, entre a ciência e a não ciência, se torna muito diluída.


Este problema é visível quando dá o exemplo dos rinocerontes: quando tu dizes que é possível dizer uma frase com sentido e ela ser um facto sem recorrer à evidência empírica. Ora isto é chocante, porque negas a tradição científica. É evidente, que podemos criticar uma certa forma de fazer ciência, mas isso não significa que se relativize tudo. Tu não podes dizer, daquela forma categórica, que uma frase com sentido não é um problema empírico. Quanto muito podes fazer aquilo que fez Einstein, com a teoria da relatividade, em que, baseado apenas numa única hipótese, decidiu criar uma teoria alternativa à interpretação de Newton.


Usando uma analogia, o Newton é alguém que levanta a hipótese de todos os cisnes serem brancos, era uma constante, uma regularidade que era confirmada por milhares de observações. E um dia, um outro ser acorda e tem uma ideia sublime: "Bolas, talvez exista nos confins do universo um cisne negro". Ou seja, levantou a hipótese da teoria dos cisnes brancos não explicar a realidade, porque poderia haver um exemplo que falsificasse as regularidades previstas na cor dos ditos cisnes. O que me interessou em Einstein não foi a teoria em si, mas foi o caminho, o método que adoptou. Ora, o teu exemplo dos rinocerontes tem a sua lógica, mas tem que ser usado com cuidado. Tu, no fundo, talvez queiras dizer o mesmo que eu, mas tu exageras caindo no relativismo, na confusão total. O problema não está na linguagem, meu caro.


Wittgenstein: Popper, tu ficas a meio do caminho. Eu vou mostrar-te isso no exemplo dos rinocerontes que aparece num filme sobre a minha vida. Mas fazendo uma pequena alteração, ou seja, usando o argumento ao contrário.


Ou seja; vamos buscar um rinoceronte e colocá-lo na sala de aula. E eu dizia: "não há rinocerontes nesta sala. Não vejo nenhum rinoceronte nesta sala". O eu dizer a frase "não há rinoceronte...." é um facto que não se liga automaticamente à evidência empírica e física do dito cujo, na dita sala.


Contudo, proponho um pequeno exercício para tornar isto mais claro.


Primeiro, se fosse de noite e não tivesse luz eu teria razão, ou seja, a primeira condição ou o primeiro acontecimento é a existência de luz: seria escuro para todos. Logo, não haveria rinoceronte. Pelo menos, usando o sentido da visão. Certo?


Segundo, o acontecimento ou condição é poder existir a luz. É a luz física que me permite a formação de uma imagem (picture) sensorial visual.


Terceiro, a partir (da imagem sensorial visual) deste sensorial físico, nós (seleccionámos) escolhemos (traços) certas formas, visibilidades construídas (linguagem da luz).


Quarto, dá-se um grande salto: o acontecimento passa para o som; há um outro mundo que remete para outras entidades físicas é o som (mundo sensorial).


Quinto acontecimento: domesticação do som. É a fase seguinte para produzir um determinado som, um fonema. Um enunciado (acontecimento fonético na laringe).


Ora, o facto fonético é considerado equivalente a algo que passou por várias mediações: foi uma luz que passou pelos nossos olhos, que foi descodificada formando uma imagem algures no cérebro. Daí, a laringe emite um som que é moldado na nossa boca: abrindo-a ou fechando-a um pouco. Tudo isto não se passaria se não houvesse luz. Terámos de fazer uma outra mediação: usando o tacto. Mas seria igual?


Com isto, eu quero simplesmente criar algum espanto que vos permita pensar. Não apresento soluções. Apenas desconfio. E digo que estes dois mundos são aceites como correspondenciais, mas essa correspondência é devida a regras que associam sons a coisas, a correspondência é fruto de um jogo. Por isso digo que são duas realidades muito diferentes: o mundo físico e o mundo da linguagem, onde o mundo físico é sensorial e o mundo do enunciado remete para um acordo em relação a sons, são mundos que estão em dimensões diferentes.


De uma forma muito simples, acabo assim: o falar de um homem deve ser visto de uma forma animal porque não é muito diferente do ladrar de um cão. Mas há diferenças. Mas esse tema fica para outra altura. Até uma próxima oportunidade, Popper.


Este texto foi recolhido por Francelina Neiva, aluna do 1º ano.


 


 


 

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