Sábado, 5 de Junho de 2004

Arquivo com os diálogos escritos nas aulas práticas do ano lectivo de 2002/03 (2º Semestre)

 Arquivo com os diálogos escritos nas aulas práticas do ano lectivo de 2002/03

Diálogo entre Max Weber e David Hume 


            Hume: Olá! Eu sei que conheces o meu problema. Peço-te que me ajudes a solucioná-lo


            Weber: Eu sou um sociólogo que tentou dar uma solução ao teu problema, na área das ciências da cultura. Tentei encontraruma via para o pensar, mais do que dar uma solução definitiva. Nesta ordem de ideias, penso que o teu problema faz mais sentido na área das ciências humanas. Em relação às ciências da natureza quase não discuti esse problema, embora o tenha referido superficialmente. De qualquer forma, tive a noção que a verdade científica não era algo absoluto. A crença no valor da verdade científica é produto de determinadas civilizações e não um dado da natureza. Com esta frase, no fundo, estava a concordar com a questão que tu levantaste a Newton. No entanto não desenvolvi muito esta questão.


            Hume: Então diz-me lá a tua solução para as ciências sociais.


            Weber: Vou tentar conciliar duas visões da ciência, um pouco na linha do que fez Kant. Sei que nunca conseguirei um conhecimento perfeito como é reivindicado pela astronomia. Por isso, tenho consciência que as relações de causalidade que estabeleço são formas, em bruto, que destaco em relação ao caos do mundo. Todos estes sistemas ou causalidades, não passam de tentativas para conferir uma ordem, destacar um padrão contra um fundo de ruído. Estes destaques que efectuo não passam de caricaturas, de tipos perfeitos que não existem na realidade. Mas eu não escolhi estes temas – caricaturas, traços grosseiros – por uma questão de humildade ou de incapacidade. Quanto mais geral e abstracto é o tipo de causalidade que eu proponho, mais perigoso se pode tornar. No fundo, comungo da tua inquietação e transporto-a para as ciências sociais. Enquanto que no campo da astronomia os corpos celestes permitem estabelecer relações quantificáveis, existem outras áreas, mesmo nas ciências da natureza onde esse tipo de relações é qualitativo e desse ponto de vista, as diferenças entre ciências da natureza e as ciências da cultura não são tão categóricas como à primeira vista pareciam ser. As regularidades são susceptíveis de uma expressão numérica que remetem para algo qualitativo: trata-se também de fenómenos mentais cuja compreensão revivescente os aproxima do que acontece na sociologia.



Diálogo entre Max Weber e Émile Durkheim


Durkheim: Olá!


Weber: Olá, Durkheim! Estive a ler o teu livro “As regras do método sociológico” e posso dizer que gostei da parte onde defendes a necessidade das ciências da sociologia serem objectivas. No entanto, o meu caminho para aí chegar é diferente do teu. Ou seja, concordo contigo quando dizes que as ciências da natureza devem ser um ponto de referência. Contudo, as ciências sociais são umas ciências diferentes porque o seu objecto tem consciência, sentimentos, linguagem que se percebe. O nosso “objecto” humano é capaz de comunicar ao sociólogo o sentido/significado que dá às suas acções.


Durkheim: Weber, se bem entendi, defendes uma sociologia que estuda uma coisa muito abstracta e difícil de definir. Evitando essa armadilha, proponho uma solução mais clara: para evitar que a sociologia se transforme numa filosofia especulativa, é necessário encarar os fenómenos sociais como se fossem estrelas. E apliquei isso a um fenómeno extremamente subjectivo: o suicídio. Encarei esse fenómeno da mesma forma que um astrónomo olha para as estrelas. Procurei descobrir regularidades/concomitâncias.


 


Diálogo entre Max Weber e Georg Simmel


 .


 Weber: Olá! Estive a ler o teu ensaio sobre “Como é possível a sociedade?” De acordo com o que li, tu sugeres uma forma de fazer ciência social, que é muito próxima da minha. Contudo, há um ponto que não entendi muito bem. Tenho a impressão que complicas muito a questão da diferença entre as ciências da natureza e as ciências da cultura


Simmel: De facto, tens razão. A grande diferença entre nós situa-se não propriamente ao nível dos conteúdos, mas sim quanto à forma de se olhar para as “coisas” sociais. Como sabes, estudei Kant e, por isso, achei que devia aprofundar essa questão da diferença entre a “natureza” e o social. O meu ponto de partida é semelhante ao teu, mas o meu caminho posterior tende a afastar-se. Enquanto tu consideras os tipos ideais como abstracções que permitem o conhecimento social, através de relações de causalidade complexas, eu encaro-as como tentativas, formas caricaturais onde a questão do conteúdo não deve ser realçada. Defendo a seguinte metáfora: tal como o peixe no mar, no social, o contemplador não pode separar-se do contemplado, ou, pelo menos, não é fácil essa separação. E mais: não encaro essa separação como algo positivo pois nós estamos imersos no social. Podemos apenas distinguir formas caricaturais, contornos, linhas que delimitam tal como uma geometria do social.


 



Diálogo entre Alfred Schütz e Max Weber


            Weber: Olá! Tudo bem? Não te via há muito tempo. Estive a ler a tua obra e achei-a muito interessante. No entanto, há aspectos que não entendo: como é que uma compreensão intersubjectiva pode ser ciência?


            Schutz: Concordo contigo quando dizes que a sociologia estuda as condutas dos sujeitos, nomeadamente, os sentidos que eles dão às suas condutas. E até sublinho essa ideia porque, a partir de dois filósofos muito interessantes (Husserl e Bergson), descobri que a tua noção de ciência social deverá ser modificada, não em termos de conteúdo, mas antes em termos de olhar, ou de forma de ver. De facto, esqueces que a sociologia não existe sem sociólogos que, como tal, partilham da consciência subjectiva do mundo. Ora, a tua definição esquece essa questão capital ao sugerir que o sujeito/sociólogo tenha uma consciência científica acerca da consciência dos outros. Eu não nego a importância de melhorar essa consciência de forma a criar tipologias. No entanto, encaro essas tipologias como algo perigoso, porque valorizo o conhecimento como algo que remete para a simultaneidade. Quanto mais perto e no mesmo tempo, melhor. No fundo, levanto dois problemas à tua definição: o primeiro é espacial – o sociólogo é também alguém com uma consciência subjectiva; o segundo, muito ligado ao anterior, é de carácter temporal – o sociólogo e os actores partilham uma corrente de consciência de forma que quanto mais sincronizados tiverem, mais fácil é a inter-compreensão.



Diálogo entre Latour e Garfinkel



Latour – Olá! Estás bem? Li com atenção os teus livros e achei que tinham aspectos positivos, mas há algumas ideias que não me parecem muito claras. Podem distinguir-se em dois grupos: a primeira tem a ver com o aspecto formal e a segunda com uma questão substantiva.


            Em primeiro lugar, tu reduzes o sociólogo a um mero jornalista que descreve as interacções sociais localizadas. Em segundo lugar, há um outro problema intimamente ligado ao anterior: a sociologia situa-se sempre num nível micro, é uma descrição centrada num tempo específico/determinado.


Garfinkel – Primeiro, optei pela descrição porque a sociologia que me antecedeu começou a cair na reificação dos conceitos. Por isso, resolvi fazer uma pequena provocação abandonando a própria designação de sociologia substituindo-a por etnometodologia; em segundo lugar, optei pela visão micro, pois considero que ordem social é feita constantemente pelos próprios actores em situações localizadas num determinado espaço/tempo (inspiro-me na ideia de “duração” de Schütz e Bergson).


Latour – No fundo, até concordo, no essencial, contigo. Porém, há uma outra forma de encarar estes dois problemas a partir da sociologia da ciência e da técnica. De facto, esta sociologia, ao estudar a forma como as ciências exactas fazem ciência, descobriu que os sociólogos tinham uma visão idealizada da ciência. Porque o que os cientistas fazem nos laboratórios são meras traduções dos actantes não-humanos. Não precisas de te sentir envergonhado porque, ao fazeres descrições, estás a fazer essencialmente o mesmo que os cientistas das ciências exactas fazem (a “verdadeira ciência”). Em relação ao segundo problema, olhemos com atenção o que fazem os tradutores dos actantes não-humanos. Os cientistas estudam casos concretos, localizados e não idealizados, que se assemelham muito à sua proposta de partir sempre do nível micro, evitando a coisificação dos conceitos demasiado macro. No entanto, os teus críticos têm alguma razão porque as interacções locais não são completamente livres porque estamos rodeados de actantes não-humanos, que constantemente nos puxam para o passado (os actantes não-humanos são algo exterior que condicionam as nossa interacções).


 

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