Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2004

A. Resumo da aula teórica de 29 de Novembro de 2004 (1ª parte sobre Popper)



•       Universidade do Minho


•       Curso de Sociologia – 1ºano - Metodologia das ciências sociais – Docente: José Pinheiro Neves


•       Resumo da aula teórica de 29 de Novembro de 2004 (2ªs, 18h – 20h - A4 – Comp. 1).


•       Nesta aula, iremos dar um salto no tempo deixando para trás os momentos fundadores da ciência e os debates “positivistas” que atravessam o século XIX e começos do século XX. Para isso, iremos ver que o problema de Hume é desenterrado, cerca de 300 anos depois, por um filósofo que paradoxalmente vinha do campo “adversário”, ou seja, do neo-positivismo: Karl Popper.


•       Veremos também que, uns anos mais tarde, um dos teóricos do neo-positivismo irá dar uma volta ainda mais completa passando mesmo a considerar as teses de Popper como um prolongamento disfarçado do neo-positivismo lógico: Wittgenstein na sua segunda fase. Na próxima aula teórica, daremos a palavra a um físico que irá aproximar-se decisivamente de Wittgenstein recorrendo, no entanto, não à filosofia mas antes à história e à sociologia do acto científico.



•      A questão continua a ser a mesma. Qual é a definição de ciência de Karl Popper e de que forma ele “resolve” o problema de Hume? Será que o resolve efectivamente?


•      Qual é a resposta de Wittgenstein e porque é que ele considera a resposta de Popper incompleta?


•      Sumário desta aula:


•      1 – O ponto de vista de Karl Popper é um melhoramento da resposta neo-positivista ou constitui um corte radical?


•      2 – o ponto de vista crítico de Wittgenstein.


•      3. A próxima aula: algo muda quando um físico começa a escrever sobre o que é a ciência….




•      Comecemos então por apresentar o ponto de vista de Karl Popper em quatro pontos:



•      A) Qual foi a inspiração de Popper? A forma como Einstein fazia ciência. A teoria da relatividade geral. O eclipse do sol. A verificação da hipótese de Einstein (“O exemplo: os patos negros e os patos brancos)


•      B) Era diferente da de Newton e da adoptada nas ciências sociais (ver o caso do marxismo e da psicanálise).


•      C) Como Popper dá uma “solução” ao problema de Hume.


•      D) Porque é que Popper diz que se deve partir da “Falsificação”? A epistemologia de Popper e os seus efeitos na ciência e na filosofia.




•       . 1 – O ponto de vista de Karl Popper é um melhoramento da resposta neo-positivista ou constitui um corte radical?


•       A) Qual foi a inspiração de Popper? A forma como Einstein fazia ciência. A teoria da relatividade geral. O eclipse do sol. A verificação da hipótese de Einstein (“O exemplo: os patos negros e os patos brancos).




•      Foi precisamente o surgimento da teoria da relatividade que deu origem a uma das primeiras visões críticas no âmbito da Escola de Viena: a posição de Karl Popper "iniciada em 1934".


•      (..) O que nessa época Popper procurava era um critério que permitisse distinguir a ciência da não-ciência, ou seja, saberes como a física de Newton e de Einstein de saberes como a psicanálise e o marxismo. (…) Popper inspirar-se-á fortemente no problema de Hume, mas não se limitará a reformular o problema: ele pretende ter uma solução para ele" (Carrilho, 1994: 32).




•       Em que consiste a novidade proposta por Einstein na teria da relatividade geral?


•       Vamos reler um texto que está no blog da nossa disciplina (ano lectivo de 2003/04.


•       [Ver: http://metodologia.blogs.sapo.pt/arquivo/2004_02.html ]



•      “Relatividade, teoria desenvolvida no início do século XX, que, originalmente, pretendia explicar certas anomalias no conceito do movimento relativo, mas, em sua evolução, converteu-se em uma das teorias básicas mais importantes das ciências físicas. Desenvolvida fundamentalmente por Albert Einstein, foi a base para que os físicos demonstrassem, posteriormente, a unidade essencial da matéria e da energia, do espaço e do tempo, e a equivalência entre as forças de gravitação e os efeitos da aceleração de um sistema”.



•      “Em 1905, Einstein publicou seu artigo sobre a teoria da relatividade especial, segundo o qual nenhum objecto do Universo se distingue por proporcionar um marco de referência absoluto em repouso. É igualmente correcto afirmar que o trem se desloca em relação à estação e que a estação se desloca em relação ao trem. A hipótese fundamental em que se baseava era a inexistência do repouso absoluto no Universo, razão pela qual toda partícula ou objecto deve ser descrito mediante uma chamada linha de Universo, que traça sua posição em um contínuo espaço-tempo de quatro dimensões (três espaciais e uma temporal), na qual têm lugar todos os factos do Universo. Também deduz que o comprimento, a massa e o tempo de um objecto variam com sua velocidade. Assim, a energia cinética do eléctron acelerado converte-se em massa, de acordo com a fórmula E=mc2”.




•       “Em 1915, desenvolveu sua teoria da relatividade geral, na qual considerava objectos que se movem de forma acelerada um em relação ao outro, para explicar contradições aparentes entre as leis da relatividade e a lei da gravitação.


•       A teoria da relatividade especial afirma que uma pessoa, dentro de um veículo fechado, não pode determinar, por meio de nenhum experimento imaginável, se está em repouso ou em movimento uniforme.


•       A da relatividade geral afirma que, se esse veículo é acelerado ou travado, ou se faz uma curva, o seu ocupante não pode assegurar se as forças produzidas se devem à gravidade ou a outras forças de aceleração. Simplesmente, a lei da gravidade de Einstein afirma que a linha de Universo de todo objecto é uma geodésica em um contínuo (uma geodésica é a distância mais curta entre dois pontos, ainda que o espaço curvo não seja, normalmente, uma linha recta; como ocorre com as geodésicas na superfície terrestre, são círculos máximos, mas não linhas rectas). A linha de Universo é curva devido à curvatura do contínuo espaço-tempo na proximidade da Terra e a isso se deve a gravidade.”



•       Textos extraídos da enciclopédia Encarta 99 da Microsoft




•      “E, em 1915, lançou a teoria da relatividade geral, mostrando que a gravidade de um corpo deforma o espaço e o tempo a seu redor. Essa tese foi comprovada alguns anos depois num eclipse solar em Sobral, no Ceará: comparando-se posições de estrelas ao redor do sol antes e durante o eclipse, constatou-se que, vistas daqui, elas pareciam estar mais próximas devido à passagem dos raios de luz delas perto do campo gravitacional do sol”.




•      A relatividade geral inspirou outras teorias, como a da expansão do Universo, pelo norte-americano Edwin Hubble (1889-1953), em 1929, e a da formação dos buracos negros pelo indiano-norte-americano Subrahmanyan Chandrasekhar (1910- 1995), em 1931. Em 1997, Wei Cui, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e colaboradores da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, anunciaram a descoberta de buracos negros arrastando o espaço-tempo ao seu redor, o que comprovava previsões feitas a partir da relatividade geral 80 anos antes, quando ainda não havia incompatibilidade com a teoria quântica.


•       Texto extraído de: http://fma.if.usp.br/~rivelles/supercordas/ciencia55.htm





•      Baseado no exemplo deste cientista (Einstein) Popper define assim o acto científico:


•      "O que Popper avança é uma outra imagem global da ciência, que se pode definir por proceder a uma dupla ruptura face ao positivismo, por um lado substituindo a actividade indutiva pela de conjecturação e, por outro, adoptando como critério de cientificidade não a verificabilidade, mas a falsificabilidade. Segundo esta imagem são as conjecturas que — mais estimuladas pela ousadia interpretativa do que pela exaustividade observacional — animam a actividade científica do homem, que assim se rege por um quadro metodológico bem diferente daquele que o positivismo prescrevia, nomeadamente ao atribuir à observação o papel de falsificar (ou não, situação em que ela a corrobora) a hipótese que se avançou" (Carrilho, 1994: 33-34).




•      Exemplo: "todos os cisnes são brancos". Basta a observação de um só cisne negro para que (…) se possa refutar o enunciado universal anteriormente formulado" (Carrilho, 1994: 34).


•      Exemplo positivo:


•      Einstein (como vimos atrás)


•      Exemplos Negativos:


•      psicanálise e marxismo como veremos em seguida.



•      B) A noção de ciência em Popper é diferente da de Newton e da adoptada nalgumas ciências sociais (ver o caso do marxismo e da psicanálise).



•      Vamos acompanhar um texto escrito pelo próprio Popper.


•      [Texto: Karl Popper, “A demarcação entre ciência e metafísica”, in Manuel Maria Carrilho, Epistemologia: posições e críticas, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991, pp. 201-265]



•      “Isto foi em 1919, quando comecei a suspeitar das várias teorias psicológicas e políticas que reivindicavam o estatuto de ciências empíricas, em especial a “psicanálise” de Freud, a “psicologia individual” de Adler e a “interpretação materialista da história” de Marx.


•      A mim parecia-me que todas estas teorias eram defendidas de uma forma acrítica. Dispunha-se de um grande número de argumentos em favor delas.



•     Mas a crítica e os argumentos contrários a elas eram vistos como hostis, como sintomas de uma recusa obstinada em admitir a verdade manifesta; e. por isso, eram enfrentados com hostilidade e não com argumentos.



•     O que eu achava mais impressionante e perigoso nessas teorias era a pretensão de elas serem “verificadas” ou “confirmadas” por um fluxo incessante de provas observacionais.



•      E, na verdade, assim que se abriram os olhos , podia-se ver por toda a parte casos que constituíam verificações dessas teorias. Um marxista não era capaz de olhar para um jornal sem encontrar em todas as páginas, desde os artigos de fundo até aos anúncios, provas que constituíam verificações da luta de classes; e encontrá-las-ia sempre também (e em especial) naquilo que o jornal não dizia.



•     E um psicanalista, fosse ele freudiano ou adleriano, diria sem dúvida que todos os dias, ou até de hora em hora, estava a ver as suas teorias verificadas por observações clínicas.



•     Mas seriam essas teorias testáveis? Estariam realmente essas análises mais bem testadas do que, digamos, os horóscopos, frequentemente “verificados” dos astrólogos? (...) Não eram todos os acontecimentos imagináveis “verificações”?



•      Era precisamente esse facto — o facto  de que essas análises batiam sempre certo, de que eram sempre verificadas — que impressionava os seus aderentes. Comecei a pensar que essa aparente força era, na verdade, uma fraqueza e que todas essas “verificações” eram demasiadamente pouco válidas para serem tomadas por argumentos “ (Popper, 1991: 209-210).



•      Exemplo: a interpretação dos sonhos de Freud


•      “O objectivo principal de Freud nesse livro é o de “provar que, na sua natureza essencial, os sonhos representam realizações de desejos”. Freud, é claro, está consciente de que há uma objecção óbvia a essa teoria — a existência de pesadelos e de sonhos de ansiedade; porém, Freud rejeita tal objecção.




•      Freud afirma, num trecho em que formula aquele que vai ser aqui o nosso problema principal, o seguinte: “De facto, parece que os sonhos de ansiedade fazem com que seja impossível afirmar o enunciado geral (baseado nos exemplos do último capítulo) de que os sonhos são realizações de desejos; parecem, na verdade, caracterizar um enunciado desses como absurdo. No entanto, não há grande dificuldade em fazer face a essa objecção” [itálicos de Popper].



•      O método de fazer face a essa objecção, explica Freud, consiste em mostrar que aquilo que na sua aparência (no seu conteúdo manifesto) parece ser um sonho de ansiedade, é, na realidade (no seu conteúdo latente), a realização de um desejo. Isto conduz Freud a uma modificação muito ligeira da sua tese principal respeitante à natureza essencial dos sonhos, que ele formula da seguinte maneira: “Um sonho é uma realização (disfarçada) de um desejo (suprimido ou recalcado)” (Popper, 1991: 214).



•      “... pretendo antes criticar a maneira como Freud rejeita a crítica. Estou realmente convencido de que Freud poderia ter melhorado largamente a sua teoria se tivesse tido uma atitude diferente perante a crítica.. “ [219-220].


•      “Esta atitude auto-defensiva anda a par com a atitude de procurar verificações, de as encontrar por toda a parte com abundância, de se recusar admitir que determinados casos não se ajustam à teoria (e simultaneamente de os afastar […])” (Popper, 1991: 220)..



•     C) Como Popper dá uma “solução” ao problema de Hume.



•      "Em primeiro lugar, distingue na análise que Hume faz da indução dois problemas distintos: um problema lógico e um problema psicológico.



•     O problema lógico consiste em saber se é ou não justificado raciocinar a partir da repetição de casos de que temos experiência para outros casos de que não temos experiência, e a resposta humiana é negativa, seja qual for o número de repetições que se tenha em conta.



•     O problema psicológico é o de saber porque é que os homens vivem com a convicção de que os casos de que não têm experiência decorrerão no futuro conformemente aos casos de que têm experiência no passado" (Carrilho, 1994: 33).



•      A solução de Hume: é um hábito, trata-se de um crença subjectiva.



•      Mas a de Popper é diferente: recusa do indutivismo e recuperação do dedutivo mas pelo racionalismo temperado.  


•      No fundo, recupera a questão de Hume mas vai pelo caminho oposto a Hume tal como em Kant..



•      "Popper retoma estas distinções mas reformula-as sucessivamente, de modo a pôr em termos de conhecimento objectivo o que em Hume se formulava no registo da crença subjectiva: o problema lógico da indução torna-se então o problema da "validade (verdade ou falsidade) das leis universais relativas a determinados enunciados experimentais"


•      [citado de Karl Popper,  La connaissance objective [1972], Bruxelles, Ed. Complexe, 1978, p. 18] (Carrilho, 1994: 33).



•      "Popper subscreve a insistência humiana de que não é possível chegar à universalidade de um enunciado a partir de nenhuma série finita de observações; mas o mesmo já não acontece com o passo seguinte que Hume dá, e que é o de fornecer uma explicação psicológica dos processos indutivos. É aqui que Popper se opõe à tradição epistemológica dos últimos séculos e afirma — e é neste ponto que radica a sua resposta ao problema — que o que acontece é que o conhecimento humano não procede por indução. (…) ".. não há indução por repetição“.



•       [Popper, 1978: 17] (Carrilho, 1994: 33).



•      D) Conclusão


•      "O que Popper avança é uma outra imagem global da ciência, que se pode definir por proceder a uma dupla ruptura face ao positivismo, por um lado substituindo a actividade indutiva pela de conjecturação e, por outro, adoptando como critério de cientificidade não a verificabilidade, mas a falsificabilidade. Segundo esta imagem são as conjecturas que — mais estimuladas pela ousadia interpretativa do que pela exaustividade observacional — animam a actividade científica do homem, que ao assim se rege por um quadro metodológico bem diferente daquele que o positivismo prescrevia, nomeadamente atribuir à observação o papel de falsificar (ou não, situação em que ela a corrobora) a hipótese que se avançou”  (Carrilho, 1994: 33-34).



•      [continua...] ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------


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