Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2004

Resumo da aula de 6 de Dezembro de 2004


Universidade do Minho
1º Ano do Curso de Sociologia - 2004/05
Metodologia
Resumo da aula teórica de 6 de Dezembro de 2004
A ciência estudada a partir do que fazem os cientistas – para uma sociologia do acto científico (Thomas S. Kuhn)

Sumário
1 - Síntese da tese de Thomas S. Kuhn
2 - Breve biografia
e resumo da sua principal obra “Estrutura das revoluções científicas”
3 - Como surgiu a ideia de “paradigma” e qual a sua importância. O paradigma como um “vírus” e não como algo totalmente positivo.
4 – Conclusão: da visão essencialista da ciência em Popper à sociologia do acto científico em Kuhn

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1 – Síntese da tese de Thomas S. Kuhn

O estudo histórico de Kuhn (doutorado em física teórica) acerca das práticas dos cientistas na área das ciências exactas (particularmente na Física) implica uma mudança na forma como se define ciência.


 


2 – Breve biografia e síntese da sua obra principal “A estrutura das revolução científicas”

Thomas Samuel Kuhn (1922-1996)

Historiador e filósofo da ciência norte-americano, conhecido pela sua contribuição para a mudança de orientação na filosofia e  sociologia da ciência na década de 1960.
Nasceu en Cincinnati, Ohio, e doutorou-se […] pela Universidade de Harvard en Física Teórica em 1949. Centrou os seus estudos na história e  filosofía da ciência, que ensinaria em  Harvard, Berkeley, Princeton e em Massachusetts.





“La estructura de las revoluciones científicas”

 “ En 1962, Kuhn publicó La estructura de las revoluciones científicas, en donde exponía la evolución de las ciencias naturales básicas de un modo que se diferenciaba de forma sustancial de la visión más generalizada entonces.

Según Kuhn, las ciencias no progresan siguiendo un proceso uniforme por la aplicación de un hipotético método científico. Se verifican, en cambio, dos fases diferentes de desarrollo científico.

 
En un primer momento, hay un amplio consenso en la comunidad científica sobre cómo explotar los avances conseguidos en el pasado ante los problemas existentes, creándose así soluciones universales que Kuhn llamaba «paradigmas».


En un segundo momento, se buscan nuevas teorías y herramientas de investigación conforme las anteriores dejan de funcionar con eficacia. Si se demuestra que una teoría es superior a las existentes entonces es aceptada y se produce una «revolución científica».

Tales rupturas revolucionarias traen consigo un cambio de conceptos científicos, problemas, soluciones y métodos, es decir, nuevos «paradigmas».

Aunque estos cambios paradigmáticos nunca son totales, hacen del desarrollo científico en esos puntos de confluencia algo discontinuo; se dice que la vieja teoría y la nueva son inconmensurables una respecto a la otra. Tal inconmensurabilidad supone que la comparación de las dos teorías es más complicada que la simple confrontación de predicciones contradictorias.



El libro de Kuhn ha provocado una discusión prolija y polémica en numerosas disciplinas y ha ejercido una enorme influencia. En respuesta a las críticas, ha corregido y ampliado su teoría indicando que toda ciencia se perfila a lo largo del tiempo con las aportaciones de la comunidad científica que contribuye no sólo con nuevos conocimientos acumulativos, sino también a cambios cualitativos, nuevos cambios de perspectiva con la creación de nuevos paradigmas que abren nuevos horizontes a la ciencia, concebida, por tanto, como algo abierto y en evolución.
 Muere en 1996”.

Biografia de Thomas Samuel Kuhn extraída de:
 
http://buscabiografias.com/cgi-bin/verbio.cgi?id=2893 

2. Como surgiu o conceito de paradigma?

Segundo Manuel Carrilho, "a originalidade da abordagem de T. S. Kuhn decorre sem dúvida fundamentalmente da sua incidência sobre a especificidade da actividade científica; mas também de considerar a ciência como uma actividade localizada, uma vez que é nas comunidades científicas, e só nelas, que se faz ciência.” (Carrilho, 1989: 39)
Este ponto pode parecer evidente para nós. No entanto, é uma espécie de revolução coperniciana no estudo da ciência.



A origem do interesse de Kuhn assenta no espanto, na descoberta de algo que abala o evidente.
Como ele afirma, o estudo histórico “das teorias e práticas científicas antiquadas minou radicalmente algumas das minhas concepções básicas a respeito da natureza da ciência e das razões de seu sucesso incomum” (Kuhn, 1992: 9).  


E este minar teve duas fontes:
o estudo do que se passava, na prática, entre os cientistas quando faziam ciência (no seu caso utilizou também a sua ligação anterior com a Física teórica, tal como um indígena que estuda a sua própria tribo);

e alguns escritos filosóficos, psicológicos e sociológicos que lhe permitiram dar um sentido às suas descobertas (do ponto de vista Filosófico são de salientar as contribuições de L. Wittgenstein (jogos de linguagem) (p. 69), B. L. Worph (linguagem e pensamento) e de W. V. O. Quine (distinção analítico-sintética); do ponto de vista psicológico os trabalhos sobre as fases da inteligência na criança de Jean Piaget (a génese das noções de causalidade, movimento e velocidade na criança) e, por fim, a necessidade de colocar as suas questões no âmbito de uma Sociologia da Comunidade Científica (Kuhn, 1992: 11).

 


“Ainda mais importante foi passar o ano numa comunidade composta predominantemente de cientistas sociais. Esse contacto confrontou-me com problemas que não antecipara, relativos às diferenças entre essas comunidades e as dos cientistas ligados às ciências naturais, entre as quais eu fora treinado. Fiquei especialmente impressionado com o número e a extensão dos desacordos expressos existentes entre os cientistas sociais no que diz respeito à natureza dos métodos e problemas científicos legítimos.” (Kuhn, 1992: 12-13).


Mas esta observação não o leva a emitir um juízo valorativo. Antes pelo contrário. “Tanto a História como meus conhecimentos fizeram-me duvidar de que os praticantes das ciências naturais possuam respostas mais firmes ou mais permanentes para tais questões do que os seus colegas das ciências sociais. E contudo, de algum modo, a prática da Astronomia, da Física, da Química ou da Biologia normalmente não evocam as controvérsias sobre os fundamentos que actualmente parecem endémicas entre, por exemplo, psicólogos e sociólogos” (Sublinhados da minha autoria, Kuhn, 1992: 13).
 E será exactamente esta diferença que leva Kuhn a sugerir o paradigma. “A tentativa de descobrir a fonte dessa diferença levou-me ao reconhecimento do papel desempenhado na pesquisa científica por aquilo que, desde então, chamo de “paradigmas”” (Kuhn, 1992: 13).




Mas aqui o que importa salientar é que Kuhn não parte nem da Filosofia baseada em “a prioris” teóricos, nem de uma grande narrativa histórica do progresso das ciências.

Tratou-se de uma observação atenta do que se passava, do empírico. Uma análise que permite entrar nos pormenores, naquilo que para outros era considerado trivial. Pensar mais em termos de pragmática, de efeitos concretos.

Kuhn avança com uma primeira definição de “paradigma” logo no início do livro: “Considero “paradigma” as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência”  (Kuhn
, 1992: 13).

Esta é a primeira de muitas definições em que se “mistura” um pouco o que os cientistas fazem e o seu contexto. De tal forma que se sente que Kuhn hesita entre uma aproximação onde predomina a questão “cognitiva” e uma outra em que o contexto predomina (sociológica). Parece-me interessante referir que Kuhn tem consciência desta tensão visto que a refere no posfácio.

Vejamos, antes de avançarmos na definição kuhniana posterior (no posfácio), a etimologia da palavra “paradigma”.

Esta palavra vem do “grego parádeigma, ‘modelo, exemplo; plano de arquitecto, modelo de pintor ou de escultor; em referência a coisas abstractas, modelo, exemplo’, pelo latim paradigma, ‘exemplo, comparação; em gramática, paradigma’”.

(José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Quarto volume, 3ª Ed., Lisboa, Livros Horizonte, 1977, p. 300 )



 
A partir desta etimologia verificamos que “paradigma” funciona como exemplo na linha das artes visuais. Mas a acentuação básica da palavra é a de modelo, de exemplo a partir do campo visual.




O próprio Kuhn reconhece que parte desta primeira filiação semântica quando diz que as suas teses acerca do “ desenvolvimento científico como uma sucessão de períodos ligados à tradição e pontuados por rupturas não-cumulativas [...] foram tomadas de empréstimo a outras áreas.
Historiadores da Literatura, da Música, das Artes, do Desenvolvimento Político e de muitas outras actividades humanas descrevem os seus objectos  de estudo dessa maneira desde há muito tempo.



A periodização em termos de rupturas revolucionárias em estilo, gosto e na estrutura institucional têm estado entre seus instrumentos habituais.
 
Se tive uma atitude original frente a esses conceitos, isso se deve sobretudo ao facto de tê-los aplicado às ciências, áreas que geralmente foram consideradas como dotadas de um desenvolvimento peculiar .


Pode-se conceber a noção de paradigma como uma realização concreta, como um  exemplar, a segunda contribuição deste livro. Suspeito, por exemplo, de algumas das dificuldades notórias envolvendo a noção de estilo nas Artes poderiam desvanecer-se se as pinturas pudessem ser vistas como modeladas umas nas outras, em lugar de produzidas em conformidade com alguns cânones abstractos de estilo.” (Kuhn, 1992: 256) 


Voltando ao texto de Kuhn, iremos agora ver até que ponto a definição de paradigma nos é útil na resposta à nossa questão inicial. Para isso, iremos seguir de perto o posfácio ao seu livro de 1961, escrito em 1969 (Kuhn, 1992: 217-257).



Kuhn começa por levantar uma dificuldade-chave em torno do conceito paradigma. A questão que ele levanta pode ser resumida assim:
o paradigma não se confunde com uma sociologia da comunidade científica. Ou seja, a estrutura comunitária da ciência é algo que ultrapassa a questão do paradigma.
“Uma comunidade científica é formada pelos praticantes de uma especialidade científica. Estes foram submetidos a uma iniciação profissional e a uma educação similares, numa extensão sem paralelos na maioria de outras disciplinas” (Kuhn, 1992: 220).



 Este primeiro aspecto comunitário ultrapassa a questão dos paradigmas.

Kuhn desenvolve dois temas em torno deste problema comunitário:

a transição do período pré-paradigmático para o pós-paradigmático

e a identificação biunívoca entre comunidades científicas e objectos de estudo científico.  



No primeiro tema, ele refere-se explicitamente às ciências sociais dizendo que a natureza dessa transição à maturidade interessa especialmente às ciências sociais, visto que, a passagem à maturidade muda a natureza do paradigma. Não se trata de dizer que não existem paradigmas nas ciências sociais, mas sim que a natureza destes é diferente do das ciências exactas.
 Somente depois da transição, “ é possível a pesquisa normal orientada para a solução de quebra-cabeças” (Kuhn, 1992: 223).  




Contudo, para Kuhn, não se trata de uma perda negativa das ciências sociais já que “algo importante é sacrificado nessa mudança”(Kuhn, 1992: 223).

Para entender esta frase enigmática de Kuhn (o que é que de importante é sacrificado?) teremos de nos referir a outras partes do livro quando surge implícita uma crítica a esta possibilidade de fazer ciência.

De tal forma isto está presente no seu texto, que ele chega a ser acusado de irracionalidade e subjectividade.
 
Na minha opinião, Kuhn opera uma desmontagem da actividade científica ao caracterizá-la, na linha de Wittgenstein, como comunidades de linguagem (Kuhn, 1992: 248) onde a noção de verdade, de uma grande narrativa do progresso científico não tem cabimento.

 





 
E avança mais: “a noção de um ajuste entre a ontologia de uma teoria e sua contrapartida “real” na natureza parece-me ilusória por princípio. Além disso, como um historiador, estou impressionado com a falta de plausibilidade dessa concepção. Não tenho dúvidas, por exemplo, de que a Mecânica de Newton aperfeiçoou a de Aristóteles e de que a Mecânica de Einstein aperfeiçoou a de Newton enquanto instrumento para a resolução de quebra-cabeças. Mas não percebo, nessa sucessão, uma direcção coerente de desenvolvimento ontológico.  



Ao contrário: em alguns aspectos importantes, embora de maneira alguma em todos, a Teoria Geral da Relatividade de Einstein está mais próxima da teoria de Aristóteles do que qualquer uma das duas está da de Newton. Embora a tentação de descrever essa posição como relativista seja compreensível a descrição parece-me equivocada. Inversamente, se esta posição é relativista, não vejo por que falte ao relativista qualquer coisa necessária para a explicação da natureza e do desenvolvimento das ciências” (Kuhn, 1992: 253).



Em seguida, Kuhn avança com uma definição mais precisa de paradigma. De facto, ele separa dois sentidos diferentes do termo “paradigma”:
“De um lado, indica toda a constelação de crenças, valores, técnicas, etc..., partilhadas pelos membros de uma comunidade determinada.
De outro, denota um tipo de elemento dessa constelação: as soluções concretas de quebra-cabeças que, empregadas como modelos ou exemplos, podem substituir regras explícitas como base para a solução dos restantes quebra-cabeças da ciência normal.
O primeiro sentido do termo, que chamaremos de sociológico, é o objecto do item 2;
o item 3 é devotado aos paradigmas enquanto realizações passadas dotadas de natureza exemplar” (Kuhn, 1992: 218).   
Começando pelo sentido mais sociológico, Kuhn sugere que o termo paradigma não é o mais apropriado, pois surge muito ligado à ideia de teoria ou conjunto de teorias com uma amplitude limitada.
Para evitar confusões, Kuhn substitui o termo paradigma por matriz disciplinar com o objectivo de acentuar o carácter grupal e socializador: "disciplinar porque se refere a uma posse comum aos participantes de uma disciplina particular; matriz porque é composta de elementos ordenados de várias espécies, cada um deles exigindo uma determinação mais pormenorizada." (Kuhn, 1992: 226)
                Ora, esta matriz tem elementos que a caracterizam: generalizações simbólicas, crenças, valores, exemplares (exemplos compartilhados).



Em seguida, Kuhn aprofunda o paradigma no sentido mais restrito como sendo apenas uma parte da matriz: exemplos compartilhados. Contudo isto não significa um restringir do paradigma aos aspectos cognitivos.  Como ele próprio sublinha, é um “conhecimento que se aprende fazendo ciência e não simplesmente adquirindo regras para fazê-la” (Kuhn, 1992: 237).



Conclusão

Kuhn tenta demonstrar que um paradigma - tanto no sentido alargado de matriz disciplinar, como no sentido restrito de exemplos compartilhados - não se reduz ao conteúdo cognitivo da ciência, ao contrário do que pensam muitos cientistas ou filósofos da ciência.
Pode-se afirmar que esta sua tese não está muito afastada do que dizia Wittgenstein: os jogos de linguagem (o jogo cognitivo) são também uma forma de vida. 
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Bibliografia

Manuel Maria Carrilho, A filosofia das ciências. De Bacon a Feyerabend, Lisboa, Ed. Presença, 1994.

Thomas S. Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, S. Paulo, Editora Perspectiva, 1992.

José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Quarto volume, Lisboa, Livros Horizonte, 1977.

Sites consultados:

Biografia de Thomas S. Kuhn extraída de:
 http://buscabiografias.com/cgi-bin/verbio.cgi?id=2893 

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