Sábado, 28 de Janeiro de 2006

Questão sobre Popper e Hume

PERGUNTA:
Adriano Campos escreveu:


Olá! Lendo a aula teórica número 6, na qual Popper tenta dar uma resposta ao problema de Hume, surgiu uma dúvida!

"Popper subscreve a insistência humiana de que não é possível chegar à universalidade de um enunciado a partir de nenhuma série finita de observações;"

"• mas o mesmo já não acontece com o passo seguinte que Hume dá, e que é o de fornecer uma explicação psicológica dos processos indutivos.

É aqui que Popper se opõe à tradição epistemológica dos últimos séculos e afirma — e é neste ponto que radica a sua resposta ao problema — que o que acontece é que o conhecimento humano não procede por indução. (…) ".. não há indução por repetição“.

Pedia que o Professor desenvolvesse e explicasse melhor este ponto, se Popper defende que o "conhecimento humano não procede por indução", então como procede?

Queria ainda saber se o Professor antes do exame irá disponibilizar um tempo para o esclarecimento de duvidas, e, se sim, o dia e a hora.

Obrigado!

Adriano Pereira Campos

1º ano de Sociologia da UM

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RESPOSTA:
Olá Adriano

Peço desculpa pelo atraso na resposta mas tenho estado fora da UM nos últimos tempos.


Primeira questão.

Segundo Popper, a indução é importante desde que não se fique por aí. Ou seja, há sempre algo de dedutivo, de construído que não pode ser obtido através do acumular de observações empíricas.

Popper diz que o Hume tem razão (ao nível lógico e metodológico) ao levantar dúvidas acerca do conhecimento científico que, desde Newton, começa a apoiar a lógica indutiva: "tirar conclusões gerais a partir de casos particulares considerados como portadores de relações gerais". Por isso, Hume duvida da validade do exemplo da Balança e das leis de Newton sobre um fenómeno que não se baseia nos nosso sentidos - não é observável em si (as leis indutivas da movimento que estudam a "gravidade" - ninguém a gravidade).

Atenção! A dicotomia formal indutivo/dedutivo diz respeito ao raciocínio científico.

DEDUTIVO "Considera-se que um raciocínio é dedutivo quando, de uma ou mais premissas, se conclui uma proposição que é conclusão lógica da(s) premissa(s). A dedução é um raciocínio de tipo mediato, sendo o silogismo uma das suas formas clássicas. Veja-se o exemplo (de raciocínio dedutivo/silogismo): a) Todos os mamíferos são animais; b) Todos os gatos são mamíferos; c) Todos os gatos são animais. A proposição c) conclui-se logicamente das duas anteriores, em que estava implícita".

INDUTIVO Raciocínio que consiste em tirar conclusões gerais a partir de casos particulares considerados como portadores de relações gerais. O problema do raciocínio indutivo está no facto de que, contrariamente à dedução, a verdade das premissas não garante a verdade da conclusão. In: http://ocanto.webcindario.com/lexd.htm

Segundo.

Para Popper, no entanto, a parte mais geral, a dúvida total e psicológica de Hume já não faz sentido pois entra num terreno pantanoso (do vale tudo) em que a ciência não se distingue do conhecimento vulgar (posição "relativista" - não se deve confundir com a Teoria da Relatividade de Einstein). No fundo, Popper diz que o PROBLEMA (a dúvida) de Hume pode ser recuperado sem cair numa DÚVIDA total sobre todo o conhecimento científico.

Nota: Mais tarde, Popper vai considerar a posição do físico Thomas S. Kuhn próxima do relativismo e, por isso, perigosa. Na verdade, Thomas S. Kuhn, de uma forma mais sociológica (e baseado na história da ciência), retoma o problema de Hume.

"RELATIVISMO Teoria filosófica segundo a qual não existem verdades absolutas mas apenas relativas (à etnia, ao sexo, à classe social, aos interesses esconómicos e políticos...): "nenhuma forma universal da razão pode ser válida para todos". (Fernando Savater - As Perguntas da Vida, p. 56)." in : http://ocanto.webcindario.com/lexr.htm

Veja este texto porque lhe permite ficar com ideias mais claras sobre o tema:

" [Este é um tema da rubrica O estatuto do conhecimento científico da 2ª unidade temática do programa de Introdução à Filosofia do 11º ano]

1. Os objectivos principais da rubrica estão aqui.

2. Com este tema pretende-se * reconhecer a importância do método na construção da ciência * identificar os diferentes momentos do método científico e a sua interdependência * compreender o carácter problemático do método hipotético-dedutivo * avaliar a importância das posições de Popper em relação aos problemas suscitados pelo método hipotético-dedutivo

3. Algumas ideias-síntese:

* a observação científica não é simples observação de factos: a ciência não parte da observação dos fenómenos mas da formulação de problemas sobre esses fenómenos (a descoberta de "factos polémicos"). Como nota François Jacob, pode examinar-se um objecto durante anos sem daí tirar a menor observação com interesse científico; nas palavras de Gérard Fourez, observar é fornecer uma modelo teórico daquilo que se vê; * observado/analisado o fenómeno, o cientista passa à formulação de uma hipótese que o explique -- uma explicação provisória. A hipótese, embora se relacione com os dados da observação, não deriva directamente deles, sendo antes uma criação do cientista.

No entanto, a indução está na base de muitas hipóteses: a partir dos casos observados pode formular-se uma hipótese que explique não apenas esses casos, mas todos os da mesma espécie; Hume criticou esse salto no desconhecido (a passagem da análise de casos particulares para o carácter geral da hipótese) -- as teorias de Popper podem constituir uma alternativa e de certo modo uma "solução" para esse problema (ver abaixo); * formulada a hipótese, deduzem-se dela as consequências -- sobretudo nos casos em que a hipótese não pode ser directamente verificada; * faz-se depois a contrastação experimental das consequências da hipótese. Se estas forem confirmadas, a hipótese está verificada; caso contrário, será rejeitada (e, eventualmente, formulada uma outra); * portanto, o método científico não é exclusivamente indutivo; o indutivismo experimental (e uma visão inteiramente mecanicista da Natureza) foi posto em questão pelo princípio de indeterminação de Heisenberg; * a relação entre a hipótese e a experiência é o aspecto mais decisivo da ciência. Nas palavras de Ian Hacking [in A ciência tal qual se faz, p. 269 (elementos bibliográficos aqui), que reproduz uma comunicação sua sobre factos e hipóteses] "as pessoas propõem hipóteses, mas os factos da natureza determinam quais as hipóteses que são aceitáveis e quais as erradas". No entanto, a experiência científica é selectiva (em relação aos aspectos considerados relevantes) e, portanto e de certo modo, criativa -- pelo que não oferece certeza absoluta; * por considerarem fraca a prova pela simples confirmação, alguns epistemólogos contemporâneos entendem a verificação da hipótese como a procura da sua refutação. O grande defensor desta perspectiva é Popper: recusando a o carácter indutivo da ciência, Popper defende que a ciência parte da teoria e não da observação e que o erro é factor dinâmico de progresso: só tem carácter científico a teoria que for refutável, sendo que não se pode demonstrar a verdade de nenhuma teoria científica, mas apenas a sua falsidade; * assim entendidas, as teorias são conjecturais e provisórias -- acentuando-se ainda deste modo o carácter aproximativo e probabilístico da ciência.

9. Alguns elementos de apoio: * Recorde, a partir dos respectivos verbetes do Lexicon, os conceitos de dedução , indução e hipótese e a crítica de Hume à causalidade e à indução. * Veja, no texto A evolução da ciência: continuidade ou ruptura? uma síntese do pensamento de Popper. * Leia aqui uma síntese e o índice do referido livro A ciência tal qual se faz. *

O capítulo 5 ("Ciência") de Elementos Básicos de Filosofia [dados bibliográficos aqui]. Temas: a perspectiva simples do método científico; crítica a esta perspectiva; o problema da indução e tentativas de solução; falsificacionismo: conjectura e refutação; críticas ao falsificacionismo".

Veja este texto no site (com os links):

http://ocanto.webcindario.com/11ano/5_cienc3.htm

Boa sorte!

José Pinheiro Neves

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