Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2005

"Efeitos da técnica" - crónica de Eduardo Prado Coelho no jornal "Público"

Eduardo Prado Coelho, "Efeitos da Técnica", in Público, Sábado, 15 de Janeiro de 2005.

http://jornal.publico.pt/publico/2005/01/15/MilFolhas/TLCRONI01.html

Efeitos da Técnica 

Por vezes temos a sensação de que descobrimos um autor. Não um autor cuja obra já está feita, mas um autor em que a obra se está a fazer (o que envolve hesitações e repetições) diante dos nossos olhos. Esse é o caso de Bernard Stiegler. Começou em 94 com três livros (aparentemente, uma tese de doutoramento) sobre a técnica, e logo nessa altura impôs uma problemática original: "La technique et le temps. I. La faute d'Epiméthée" sai em 94 precisamente. Epimeteu, distraído, estouvado, não distribuiu bem as capacidades pelos seres e deixou os homens como seres em defeito: as técnicas são as próteses (palavra central em Stiegler) que permitem a existência do homem. Em 96, temos o segundo volume deste verdadeiro tratado: "La désorientation". E, por fim, em 2001, "Le temps du cinéma et la question du mal-être", onde introduz a noção de "objecto temporal", aquele em que a sua percepção implica que o nosso tempo e o tempo constitutivo do objecto coincidam: o exemplo privilegiado é o cinema, na medida em que "ver" um filme é fazer ajustar o nosso tempo de percepção ao tempo do filme.

Entretanto, Stiegler vai estabelecendo a diferença entre o analógico e o digital, e mostrando que a digitalização generalizada cria uma linguagem comum que permite a redução de todas as linguagens a um espaço de manipulação: já não há verdade em fotografia, assistimos a uma evanescência do real no processo simbólico, a marca da realidade perdeu-se. Tem uma estimulante reflexão sobre a televisão com Jacques Derrida (e é aqui que surge a noção de "ecografia" e a ontologia do espectral), num livro intitulado "Echographies - de la télévision", com um ensaio na parte final. Aqui se põe à prova a relação de mestre-discípulo entre Derrida e Stiegler, que não exclui, aliás, determinadas divergências pontuais. E ao mesmo tempo se desenvolve uma dimensão inesperada do pensamento de Derrida, aquela que conduz a pensar a televisão como um aspecto essencial da existência contemporânea, capaz de desconstruir certos factores da oposição entre real e imagem.

É esta questão do "mal-estar" que vai reforçar as perspectivas sociais e políticas de Bernard Stiegler. Depois de uma reflexão/confidência que o leva a assumir publicamente um episódio antigo que o conduziu à prisão, Stiegler traça o percurso da sua descoberta da filosofia. Um ensaio breve analisa as derivas fascizantes contemporâneas: "Aimer, s'aimer, nous aimer". E regressam os ciclos textuais. Um intitulado "De la misère symbolique" e referindo-se às características da "época hiperindustrial". Outro, também em 2004, tem o título de "Mécréance et discredit" e ocupa-se da "decadência das democracias industriais". Neste livro Stiegler procura mostrar que não é tão pessimista como aparenta. Ele diz-nos que o sistema técnico exige uma dupla interrupção do curso normal das coisas. Primeiro, uma mutação técnica suspende a ordem dominante. Segundo, duplicando a primeira interrupção (e este processo de duplicação é essencial), a criação de uma nova época traduzindo-se em novas formas de vida - o que é precisamente a matéria dos actuais trabalhos de Bernard Stiegler.

Ora, Stiegler considera que há algo que vem impedir esta criação de uma sociedade nova. Na sua perspectiva, trata-se do envelhecimento do modelo industrial do século XX, com a sua relação entre produção e consumo. E que esta inadequação se manifesta (e este é um dos temas obsessivos de Stiegler) na estupidificação a que nos leva a atitude dos espectadores televisivos. Uma nova sociedade exige novas formas de existência - ora não é isso a que estamos hoje a assistir: as pessoas não existem, limitam-se a sobreviver, numa proletarização generalizada que produz uma miséria simbólica. Consequências: destruição do narcisismo primordial. E esta destruição leva à destruição da lei. Donde, a política degenera e a democracia torna-se uma farsa.

Como vemos, não é propriamente em termos económicos ou sociais que Stiegler analisa a nossa decadência, mas sim em termos simbólicos, a partir de conceitos que ele vai inventando passo a passo. Porém, o seu velho tema lá está. As técnicas são formas de fabricação do homem. Por outras palavras, os homens são fabricados através das técnicas que fabricam. A cultura passa por essa capacidade de transmitir técnicas. Citando Stiegler: "O homem é um ser cultural na medida em que ele é essencialmente um ser técnico: é porque ele está rodeado pela terceira memória técnica que ele pode acumular uma experiência intergeracional a que se chama muitas vezes 'cultura' - e por isso é absurdo opor a técnica à cultura: a técnica é a condição da cultura, na medida em que permite a transmissão. Em contrapartida, há uma época da técnica, a tecnologia, e é a nossa época, em que a cultura entra em crise, precisamente porque se torna industrial e se acha submetida aos imperativos do cálculo da troca." Donde, a técnica é cultura e as duas instâncias não são separáveis. Mas é na medida em que a economia vem interferir na relação técnica-cultura que a crise se instala, e a dimensão simbólica se começa a desfazer.

Não conta apenas o passado. Precisamos de ter em conta essa abertura ao futuro que é a dimensão do desejo. "O que quer dizer que o saber humano não se reduz ao que é conservado pelas suas retenções materiais: o saber humano é essencialmente o desejo humano. E estas retenções materiais só suscitam uma herança na medida em que são fetichizadas, carregadas de fantasmas (a tradução supostamente correcta é a de 'fantasias', mas a palavra parece-me fraca) e de afectos. O que faz que o homem seja um sábio é ele ser um ser desejante, isto é, capaz de fantasmar e de imaginar: só se é um sábio na condição de se ser um apaixonado do saber, e propriamente alucinado pelos seus aparecimentos, que são por exemplo as figuras da geometria." Ora um dos aspectos da crise é que se perdeu a dimensão desejante do saber. O lado de sabor inerente ao saber está hoje a ser liquidado pelos valores mercantis.

Aquilo que Stiegler designou como objectos temporais tem hoje um papel fundamental. Daí uma tese essencial: a indústria dos objectos culturais é cada vez mais uma indústria dos objectos temporais. Ora, se o cinema é um caso privilegiado de objecto temporal, podemos chegar à segunda tese: o cinema é hoje o paradigma do funcionamento da consciência como produção e montagem do tempo. E, por fim, a terceira tese: a produção temporal dos objectos que fazem a cultura de hoje é uma sincronização das consciências. Ou, se preferirem, um dispositivo que leva à cretinização televisiva. Se sincronizar é adaptar-se à mesma temporalidade e perder a sua singularidade, contudo - e este aspecto é essencial -, sincronizar não é uniformizar. Mesmo se existem pontos positivos da unificação e na sincronização em si mesmas. Conclui Stiegler: "O problema não é a sincronia nem a tendência para a sincronia que rege toda a troca humana, e em particular toda a interlocução. O problema posto pela actual tendência para a sincronização é que ela consiste numa decomposição do sincrónico e da diacrónico", porque assistimos ao "decompor do processo de individuação psíquica e colectiva, e ao decompor do eu e do nós - que se desfazem num "se", reino da insignificância.

Eduardo Prado Coelho

© 2000 PÚBLICO Comunicação Social, SA

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